MPF vai investigar Michelle e Guimarães por empréstimos a amigos na Caixa

04/10/2021 18:38

Com o propósito de liberar empréstimo a empresários amigos da família Bolsonaro via Pronampe, a primeira-dama entregou ao presidente da Caixa, Pedro Guimarães, uma lista com os nomes das empresas que deveriam ser contempladas


A imprensa repercutiu neste fim de semana mais um escândalo envolvendo a família Bolsonaro. Segundo a revista Crusoé, que publicou a reportagem em primeira-mão nessa sexta-feira, 01, a primeira-dama Michelle Bolsonaro entregou ao presidente da Caixa, Pedro Guimarães, uma lista com os nomes das empresas de amigos da família que deveriam ser contempladas com as linhas de crédito do Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). O caso está sendo investigado pela Procuradoria da República do Distrito Federal (PR-DF). 

Michelle teve seus pedidos prontamente atendidos pelo presidente da Caixa. No total, segundo informações da Caixa, o banco público concedeu R$ 22 bilhões em empréstimos a 240 mil micro e pequenas empresas. O Pronampe foi criado para mitigar os efeitos da pandemia sobre pequenos empresários. 

Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges, esse é mais um caso de uso político da Caixa que se junta a outros. A dirigente afirma que o uso eleitoreiro da Caixa pela gestão Pedro Guimarães é mais um descalabro do governo Bolsonaro. “Não é de hoje que a Caixa vem servindo de palanque eleitoral para Pedro e Bolsonaro. A primeira-dama aproveitou para fazer sua listinha e beneficiar os amigos porque sabe que há espaço para esse tipo de esquema. É tudo muito explícito. Segundo a reportagem, Michelle envia um e-mail com a demanda a Pedro e depois os assessores da primeira-dama agiam como facilitadores do negócio, desenrolando a parte burocrática do empréstimo. 

Outros casos

A dirigente cita outro caso envolvendo a Caixa e a primeira-dama. Em abril deste ano, relembra Lizandre, Pedro Guimarães anunciou a Caixa como parceira do programa Pátria Voluntária, que é tocado por Michelle. Na ocasião, Guimarães anunciou  programa Caixa Mais Solidária, que previa que as agências do banco espalhadas por todo o país funcionassem como pontos de coleta de alimentos não perecíveis. A Caixa também doou na época 160 toneladas de alimentos ao programa gerido pela primeira-dama. 

Em setembro, afirma a dirigente, Bolsonaro e Guimarães anunciaram uma linha de crédito para habitação direcionada exclusivamente a policiais militares a juros de pai pra filho. Na ocasião, Bolsonaro usou a expressão “com juros lá embaixo” para enaltecer as condições especiais de crédito a agentes de segurança. “Esse tipo de linha de crédito é abertamente eleitoreiro. Sabemos que Bolsonaro é candidatíssimo à reeleição e que Guimarães também teria um projeto político para 2022. Ambos não se sentem nada constrangidos de fazer a Caixa de palanque”. 

Lizandre ainda acrescenta mais uma linha de crédito aberta no final de setembro pela Caixa para a população de baixa renda. O programa com viés eleitoreiro, diz a dirigente, oferece linhas de crédito de 300 a 1.000 Reais que podem ser pagos em até 24 meses. “Agora em outubro, com o fim do auxílio emergencial, o governo quer emprestar dinheiro aos mais vulneráveis com taxa de juros de quase 50% ao ano. É uma taxa maior que a oferecida a aposentados via consignado para quem, muitas vezes, está desempregado. Mas essa parte Bolsonaro e Guimarães não contam. Como o tom é eleitoreiro, o que vale é fazer barulho no palanque”, critica. 

Ministério Público Federal

O esquema envolvendo a lista de amigos da primeira-dama, acolhida por Guimarães, é alvo de investigação da Procuradoria da República do Distrito Federal (PR-DF), já que os empresários são todos de Brasília. A denúncia se junta a outra do MPF que investiga Pedro Guimarães. Em setembro, o MPF abriu um procedimento para investigar Guimarães por suposta pressão política sobre a Febraban. Na ocasião, Guimarães ameaçou retirar a Caixa da federação dos bancos caso a instituição insistisse em publicar uma carta de repúdio aos ataques de Bolsonaro aos Poderes da República e à democracia. 

“Se a Procuradoria apurar rigorosamente as denúncias, irá confirmar que Bolsonaro, Guimarães e Michelle estão usando politicamente a Caixa. Em todas essas décadas de Caixa, nunca vi algo parecido. Apesar dos escândalos que se acumulam na Caixa, parte da imprensa, da sociedade e da classe política está normalizando toda essa situação. Tudo isso precisa ser apurado e os culpados responsabilizados”, adverte Lizandre.