
Famílias acompanham a plantação de mudas de árvores frutíferas (bosque da resistência) momentos antes da saída do acampamento (Foto: MST-ES)
À medida que os primeiros raios solares lutavam para romper a densa floresta de eucaliptos, os militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) desmontavam as últimas barracas do acampamento localizado no município de Aracruz, Norte do Estado. Desde o dia 17 de abril último, cerca de 200 famílias ocupavam as terras patrimoniais do Estado que estão sob o domínio da Suzano Papel e Celulose (anteriormente Aracruz e depois Fibria). Nesta quinta-feira, 27, expirava o prazo dado pelo governo do Estado para as famílias deixarem o local. Caso contrário, o mandado de reintegração de posse seria cumprido e desfecho da ocupação poderia acabar em violência por parte da polícia. Carolino da Silva, da Direção Nacional do MST, enquanto organizava os detalhes finais da desocupação, ainda teve tempo de chamar a atenção para que o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Carlos Pereira de Araújo (Carlão) observasse algumas mudas de árvores nativas e frutíferas cuidadosamente plantadas pelo MST em meio ao deserto verde. “Deixamos ali um pouco de diversidade que chamamos de bosque da resistência, em contraponto à monocultura do eucalipto, que eles chamam de projeto de desenvolvimento, mas nós chamamos de projeto de morte”, disse o militante.

Carolino sobre a monocultura do eucalipto: “Eles chamam de projeto de desenvolvimento, mas nós chamamos de projeto de morte (Foto: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)
Antes da chegada das forças de segurança, as famílias seguiram em segurança em direção ao Assentamento Nova Esperança, a cerca de 2km da área desocupada, onde pretendem ficar provisoriamente enquanto retomam as tratativas da mesa de negociação para resolução de conflitos fundiários. Após uma recepção calorosa dos assentados do Nova Esperança, que um dia também foram acampados, iniciou-se uma reunião com as 200 famílias, lideranças do MST, representantes do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e Defensoria Pública do Espírito Santo. Diretores do Sindicato dos Bancários/ES e as deputadas Camila Valadão (PSOL), Iriny Lopes (PT) e a presidente estadual do PSOL, Ane Halama, também marcaram presença.

Reunião no centro comunitário do Assentamento do MST Nova Esperança avaliou a ocupação como positiva (Foto: Sindibancários/ES)
Não havia na mesa nenhum representante do Governo do Estado. Eliandra Fernandes, da Direção Nacional do MST, que fazia a mediação da reunião, foi surpreendida ao chamar a secretária estadual de Direitos Humanos, Nara Borgo, para compor a mesa. “Ué, ela estava aqui agorinha. Parece que saiu à francesa”, ironizou. Outras lideranças do MST também não entenderam o “sumiço” da secretária, que estava presente na abertura da reunião, mas deixou o local sem dar nenhuma explicação.

Eliandra destacou com otismo a volta do MDA e Incra para a mesa de negociação e resolução de conflitos (Foto: Sindibancários/ES).
Eliandra fez um balanço positivo da ocupação. “Saímos para cima”, disse com otimista. “Vamos conquistar uma área em Aracruz para assentar essas famílias. A militante lembrou que durante o governo Bolsonaro a mesa de negociação para resolução de conflitos fundiários não andou. “Mas agora com o Incra e o MDA de volta à mesa de diálogo, temos uma perspectiva positiva de retomar as negociações”. Eliandra fez questão de registrar que as famílias saíram em segurança. “Não queríamos o conflito”.
Laércio Nochang, da secretaria estadual do MDA, também destacou com alívio que não houve um desfecho violento para a desocupação do acampamento. Ele afirmou que o presidente Lula vai anunciar em breve o plano emergencial da reforma agrária para 2023. “O orçamento previsto para este ano, de R$ 2,5 milhões, que é insuficiente para fazermos os assentamentos, está sendo reformulado”, explicou. Wellington Subtil, do Incra, também mostrou-se confiante com a atuação do órgão sob o governo Lula. Desde 2005 no Incra, Wellington disse que Bolsonaro paralisou tudo. “Com Lula, estamos retomando as ações do Incra. Estamos aguardando o anúncio no novo orçamento citado pelo MDA”.
Governo não cumpre acordo
Idelmar Casagrande, da direção do Sindibancários e da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, fez questão de alertar aos presentes que o governador Renato Casagrande não cumpre os acordos. O dirigente lembrou que durante o segundo turno das eleições, os movimentos sociais, pela segunda vez na história eleitoral do Espírito Santo, decidiram apoiar um candidato ao governo. “Precisávamos impedir que o apadrinhado de Bolsonaro no Estado, Carlos Manato, vencesse a eleição. Na ocasião, Casagrande assumiu compromissos com as centrais sindicais e com os movimentos sociais. Mas depois de se reeleger, não os cumpriu”, criticou Idelmar, que também é diretor de Relações Intersindicais da Fetraf-RJ/ES.

Idelmar: “Não comemos eucalipto e papel. Precisamos pôr comida no prato do trabalhador sem veneno e por um preço justo”. (Foto: Sindibancários/ES)
Nas tratativas abertas desde o dia 17 para buscar uma solução negociada para a ocupação, o governo do Estado também descumpriu os acordos assumidos com o MST. Na quarta-feira, 26, véspera do prazo final para a desocupação, havia um esforço conjunto do MDA, Incra, Defensoria e das deputadas Camila e Iriny para acomodar as famílias em uma área alternativa, mas o governo, mais uma vez, não cumpriu a sua parte, embora tenha sido consignado na ata da reunião que dois representantes do MST fariam a vistoria em três áreas indicadas pelo governo. “Tivemos que bater mais forte na mesa para exigir que o MST participasse da vistoria das terras”, contou Rodrigo Gonçalves, da direção estadual do MST.

As famílias realizaram uma marcha para o assentamento Nova Esperança, onde aguardam as novas deliberações da mesa de de negociações de conflitos fundiários (foto: MST-ES).
Rodrigo e Carolino ficaram designados para representar o movimento na vistoria, mas ficaram plantados no local marcado aguardando os representantes do governo que nunca apareceram e tampouco deram qualquer satisfação. Mais tarde foram informados pela deputada Camila que o governo a acionou às pressas, por volta das 17h da quarta-feira, para acompanhar a vistoria de helicóptero. A deputada relatou que, com pouca luz do dia, a vistoria ficou comprometida, mas ela ainda conseguiu avistar que umas das três áreas era um areal, a outra um alagado e a terceira mesclava uma parte aparentemente cultivável, mas margeada por eucaliptos.

Foto: Sérgio Cardoso/Sindibancários-ES
Mesmo as áreas sendo aparentemente inadequadas para abrigar um assentamento, o MST se manteve aberto a vistoriá-las, mas não houve nenhuma sinalização do governo para retomar a vistoria nesta quinta-feira com os representantes do movimento. Rodrigo ainda destacou que na rodada anterior de negociação, o governo indicou uma área na divisa com Linhares, que também não pôde ser vistoriada pelo movimento. “O governo nos deixou de fora dessa primeira vistoria, embora já havíamos esclarecido que queremos ser assentados em Aracruz, de preferência nas terras das papeleiras, que são terras griladas pela Suzano”, afirmou o militante.
Desde a primeira reunião com os representantes do governo, o MST já havia registrado que a mesa de negociação precisava discutir de uma forma mais ampla o conflito de terra no Espírito Santo, marcado pela monocultura do eucalipto, que é histórico e que tem, ao longo de décadas, atingido diretamente as comunidades tradicionais, os indígenas e trabalhadores sem terra. Mas tampouco o compromisso imediato de indicar áreas patrimoniais de domínio do Estado para alocar as famílias foi cumprido.
“Casagrande nos enrolou”
Para Carolino, o governador Casagrande enrolou o movimento. Ele disse que as grandes empresas do Estado, como Suzano, Vale, Samarco e Arcelor financiam prefeitos, deputados e governadores para que defendam seus interesses. “O governo está nas mãos da Suzano. Hoje a Suzano é a principal inimiga do MST. Não podemos dar um minuto de sossego a essa empresa”. Ele advertiu que a papeleira mostrou sua força de articulação na reintegração de posse. “A Suzano usa os meios jurídicos para continuar concentrando terras no Espírito Santo”, denunciou.
A deputada Iriny Lopes também chamou a atenção para o fato de o governador não cumprir os compromissos firmados com o MST. Sobre o apoio a Casagrande na disputa eleitoral, destacado por Idelmar, ela concordou que era preciso evitar o 22, se referindo a Manato. Mas afirmou que já havia um descontentamento com o governador Casagrande. “Nós precisamos de um Estado com coragem para tomar lado”. A deputada ainda registrou que a mesa de negociação para resolução de conflitos fundiários é uma iniciativa exclusivamente do MST. Ela acrescentou que a mesa é uma proposta para trabalhar a reforma agrária no Espírito Santo. “Dessa mesa conseguimos construir uma pauta de luta para que esse território não seja dominado pela monocultura do eucalipto”, sublinhou.
Sindicato: apoio histórico ao MST
Acompanhando ao lado de Idelmar a ocupação em Aracruz, o dirigente Carlão falou sobre a importância do Sindibancários apoiar a reforma agrária em um Estado que é historicamente explorado por uma gigante da celulose. “É uma exploração degradante do ponto de vista social e ambiental. O Sindicato está há três décadas engajado nessa luta com o MST, porque essa luta não é só do movimento, mas de toda a sociedade capixaba”.
Idelmar completou: “Acompanhei a primeira ocupação do MST em Aracruz há quase 30 anos. Meus pais também trabalharam no campo a vida toda. Sei exatamente a dureza que é produzir, mas sei também da fartura. Os acampamentos do MST produzem alimentos. Em um país com mais de 33 milhões de famintos, precisamos pôr comida no prato do trabalhador sem veneno e por um preço justo. Não comemos eucalipto e nem papel”.
Proibida a entrada

Após a desocupação, com a cobertura da PM, a Suzano se apressou em fixar uma placa para tentar intimidar os militantes do MST. A placa adverte que quem ultrapassar a área está sujeito à prisão (Foto: Sindibancários/ES).
No trajeto de volta, o acampamento recém-desocupado ostentava uma placa ameaçadora: “Proibida a entrada”. Abaixo, um texto citava artigos do Código Penal e alertava que o infrator estava sujeito à prisão. As diversas viaturas da Polícia Militar que guardavam o local, lembravam mais uma empresa de segurança privada. “Não deixa de ser, né?, comentou Carlão. “Estão aqui para defender os interesses de uma gigante da celulose e de prontidão para reprimir e prender, como alerta a placa, trabalhadores que só querem um pedaço de terra para plantar”. Por um momento, Carlão quis parar para conferir se as mudas plantadas pela MST ainda resistiam, mas a cara de poucos amigos dos policiais não deu brecha para a pergunta: “Posso dar uma olhadinha?”. “Deixa pra lá. Vou levar comigo a recordação do bosque da resistência. Tenho certeza de que aquelas sementes plantadas pelo MST vão florescer em algum lugar”.
Em tempo: a reportagem apurou depois que a polícia destruiu o bosque da resistência plantado pelo MST.

