O pronunciamento do presidente Bolsonaro na última quarta-feira, 25, foi interpretado por boa parte da opinião pública como uma declaração de guerra do chefe do Executivo federal – os panelaços reverberaram a desaprovação à fala do presidente. O texto explosivo teria sido ardilosamente produzido pelo chamado “Gabinete do Ódio” – núcleo de conteúdo destinado às redes sociais encabeçado pelos três filhos do presidente. Em seu pronunciamento, Bolsonaro criticou as medidas de isolamento social adotadas por praticamente todos os governadores do país, comparou o novo coronavírus a uma “gripezinha” e conclamou sua base de apoio a quebrar a quarentena, advertindo que o isolamento levaria a economia ao colapso.

A declaração, que confronta as orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi uma estratégia para recuperar a densidade da sua base de apoio nas redes sociais, que vem encolhendo nos últimos meses. A narrativa se desvia do coronavírus e centra o foco na divisão do país entre os que defendem o isolamento social horizontal como medida mais efetiva para evitar a propagação da Covid-19 e os que se mobilizam agora, orquestrado pelo presidente, para quebrar a quarentena e impor a tese do chamado isolamento vertical, que propõe o confinamento apenas das os grupos de risco, normalizando a atividade econômica, como quer Bolsonaro.

A missão de propagar a nova tese foi repassada a empresários que fazem parte da base de apoio do governo e a integrantes do seu núcleo duro. Rubem Novaes, presidente do Banco do Brasil, foi um dos que passaram a defender a tese do isolamento vertical. Nesta quarta-feira, 26, o jornal Folha de S. Paulo, repercutiu uma declaração de Novaes no WhatsApp. Novaes disse que vida não tem “valor infinito”. “Muita bobagem é feita e dita, inclusive por economistas, por julgarem que a vida tem valor infinito. O vírus tem que ser balanceado com a atividade econômica”, afirmou o presidente do BB.

“Esse tipo de declaração, além de ser abjeta no contexto da narrativa irresponsável do presidente Bolsonaro que pede o fim do isolamento social, causa efeitos danosos em toda a sociedade. No caso dos bancários, isso se reflete no comportamento agressivo de alguns clientes, que estimulados por essa nova narrativa, descarregam todo o estresse causado pela pandemia nos empegados dos bancos”, lamenta a diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Evelyn Flores. Ela afirma que o Sindicato tem recebido relatos de empregados, inclusive do Banco do Brasil, sobre a intolerância de alguns clientes que tem se recusado a cumprir o decreto do Governo do Estado, que desde a última segunda-feira, 23, determinou o fechamento das agências bancárias pelo período de 15 dias.

“Recebemos alguns vídeos de clientes ensandecidos exigindo atendimento, agredindo verbalmente os empregados que fazem o contingenciamento em cumprimento ao decreto. Se o próprio presidente do banco defende o relaxamento da quarentena, o cliente passa a se sentir no direito de fazer exigências descabidas. Os gestores, muitos vezes, acabam sendo condescendentes com o cliente, porque também sentem a pressão que vem de cima. É um efeito dominó”, compara a dirigente sindical.

Goretti Barone, também diretora do Sindicato, complementa: “A proposta de Novaes reflete a dificuldade para implementação das medidas de prevenção no BB. Precisamos, urgente, de um presidente na instituição que compreenda a função de um banco público neste momento de calamidade”.