
Comando Nacional criticou a postura negacionista dos banco em relação ao adoecimento mental da categoria bancária (Fotos: Contraf)
O tema saúde e condições de trabalho, um dos temas mais sensíveis da Campanha Nacional dos Bancários 2024, entrou em pauta na rodada de negociações nesta quinta-feira (25). O Comando Nacional dos Bancários mostrou à Comissão de Negociações da Federação Nacional dos Bancos (CN Fenaban), que a pressão exercida sobre o trabalhador para o cumprimento de metas, cada vez mais abusivas, está causando o adoecimento da categoria. Um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base nos dados do INSS e da RAIS, mostrou que a categoria bancária foi responsável por 25% de todos afastamentos acidentários, relacionados à saúde mental, em 2022. Os dados também apontaram que o afastamento bancário é três vezes maior que a média geral. O Comando Nacional também apresentou dados de pesquisas científicas, mas os representantes do banco negaram a relação entre o adoecimento e o trabalho bancário.
Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindibancários/ES e integrante do Comando Nacional, ressaltou que o nexo entre o trabalho bancário e o adoecimento, especialmente o mental, já foi fartamente comprovado por pesquisas científicas. Ele citou a pesquisa da Universidade de Brasília (UnB), cujos dados também foram apresentados à Fenaban. Segundo o estudo, 76,5% dos bancários relataram pelo menos um problema de saúde relacionado ao trabalho, no último ano, e 40,2% estavam em acompanhamento psiquiátrico.
“Sempre houve uma percepção do movimento sindical de que os instrumentos de gestão usados pelos bancos para buscar resultados causam o adoecimento do bancário. Mas de uns anos para cá, com a intensificação das metas, esse adoecimento está se tornando epidêmico”. Carlão conta que os casos crescentes de adoecimento motivaram o Sindicato a procurar o Departamento de Psicologia da Universidade Federal dos Espírito Santo (Ufes) para propor uma parceria. O resultado dessa parceria foi a pesquisa “Nossa Saúde Importa”, feita com as bancárias e os bancários da base capixaba. Dados preliminares da pesquisa, finalizada em junho, apontam que quase 40% dos respondentes já foram trabalhar com atestado médico; 68% fazem tratamento psicológico ou psiquiátrico; mais de 30% usam medicamentos controlados. Ansiedade em nível grave, depressão e estresse são os males mais citados pelos bancários.
Diante de tantas evidências científicas, destaca Carlão, o não reconhecimento por parte dos bancos do adoecimento do trabalhador bancário causa indignação. “O adoecimento é um tema muito sério, sensível e repleto de evidências científicas. Essa posição dos bancos de não reconhecer o adoecimento é uma postura negacionismo”.
Carlão afirmou que essa postura negacionista não ajuda o bancário adoecido. Ele disse que os bancos deveriam ter humildade para reconhecer o problema e tratá-lo com a atenção e urgência que merece.
Reivindicações
As reivindicações dos trabalhadores sobre o tema se concentraram em quatro eixos, e que envolvem os artigos que vão de 75 até o 104 da minuta entregue à Fenaban no início da Campanha Nacional:Definição de metas e a política de gestão na aplicação das metas, para que não sejam conduzidas de forma abusiva e que a elaboração dos programas conte com a participação dos trabalhadores;
Combate ao assédio moral. Os trabalhadores registraram que os acontecimentos desse tipo de violência estão atrelados ao primeiro ponto, por conta da pressão de gestores para que as equipes alcancem as metas. O comando registrou também a importância de os bancos cumprirem a cláusula 61, conquista dos trabalhadores na CCT e que prevê o combate ao assédio moral;
Fluxo humanizado para o atendimento de trabalhadores e trabalhadoras que, em decorrência de doenças, precisam acionar o INSS para afastamento.
Direito à desconexão. Os trabalhadores também reivindicaram o cumprimento de cláusula que assegura o direito a não terem que participar de reuniões e de não receberem qualquer tipo de mensagem de trabalho após o horário laboral.
Impactos da gestão sobre saúde mental
Além de dados do INSS e da RAIS, que revelaram que a categoria bancária tem índice superior de afastamentos por saúde mental, em comparação a outras categorias, os trabalhadores trouxeram o resultado da Consulta Nacional do Bancários, feita neste ano com cerca de 47 mil respondentes.
Na questão “quais impactos a cobrança excessiva pelo cumprimento de metas causa à sua saúde?”, de múltipla escolha, o resultado foi:
– 67% – preocupação constante com o trabalho
– 60% – cansaço e fadiga constante
– 53% – desmotivação, vontade de não ir trabalhar
– 47% – crise de ansiedade/pânico
– 39% – dificuldade de dormir, mesmo aos finais de semana
– 26% – medo de “estourar”, perder a cabeça
– 24% – crises constantes de dor de cabeça
– 23% – vontade de chorar sem motivo aparente
– 23% – dores de estômago/gastrite nervosa
Pausa
Após uma pausa, solicitada pelos próprios bancos, os representantes da Fenaban retornaram com a afirmação de que irão trazer, nas próximas reuniões, propostas de avanços sobre os temas cobrados.
Carlão enfatizou a importância da categoria bancária manter a mobilização durante as próximas rodadas de negociações. “Precisamos intensificar a mobilização e o engajamento para que mais bancárias e bancários participem das ações que estamos fazendo semanalmente”. O dirigente informou que a próxima ação no Espírito Santo acontece na terça-feira (30), quando haverá uma mobilização contra a alta taxa de juros imposta pelo Banco Central, que está prejudicando o poder de compra da classe trabalhadora. Na quinta (01) acontece uma nova mobilização em defesa da saúde das bancárias e dos bancários. “Como propõe a ação da próxima quinta, que será nacional, a saúde tem de estar sempre em primeiro lugar. Não podemos aceitar que os bancos neguem que o modelo de gestão atual é o principal gatilho do adoecimento bancário”, ressaltou Carlão.
A quinta rodada de negociação da Campanha Nacional está agendada para 06 de agosto, quando o Comando Nacional passa a discutir com a Fenaban as pautas econômicas.
(Com informações da Contraf)

