Na terceira reunião com o Banestes, no âmbito da campanha salarial 2024 para renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), a comissão de negociações do Sindibancários/ES apresentou à direção do banco dados da pesquisa sobre a saúde mental dos bancários e das bancárias capixabas, incluídos os empregados do Banestes. O estudo, uma iniciativa do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que contou com o apoio do Sindicato na divulgação da pesquisa entre a categoria, foi questionado na mesa pelos interlocutores do banco, que passaram a contrapor os dados da pesquisa e a exaltar um levantamento feito por uma consultoria de mercado, que emite o selo GPTW – Great Place to Work (melhor lugar para trabalhar, na tradução livre). A reação do banco foi alegar que os dados da pesquisa da Ufes causavam “surpresa”, uma vez que a certificação GPTW apresenta um ambiente positivo de trabalho, certificando o Banestes como uma das melhores empresas para trabalhar.

O Sindicato se propôs a apresentar a pesquisa, com o recorte dos empregados do Banestes, com o intuito de constituir um grupo de trabalho para analisar os dados e buscar soluções para os indicadores do estudo, que apontam, por exemplo, que 61,4% dos afastamentos estão relacionados ao trabalho. Transtornos como estresse, ansiedade e depressão afetam mais da metade dos empregados do Banestes. 

Após essa mesa sobre saúde e condições de trabalho, sucederam-se mais cinco rodadas e a direção do banco, em nenhum momento, sinalizou em retomar a discussão sobre a pesquisa da Ufes e tampouco pediu os dados detalhados do estudo. Ao contrário, após o Sindicato veicular um vídeo dramatizando um caso real de adoecimento mental e apresentar alguns dados da pesquisa, a direção do banco, sob o comando de Amarildo Casagrande, se enfureceu e recorreu à Justiça para censurar o vídeo.

Nas alegações para pedir a censura do vídeo, a direção do Banestes desqualifica a pesquisa da Ufes com argumentos inverídicos. Alega, por exemplo, que a pesquisa é parcial porque o Sindicato teve participação. Na verdade, o Sindicato apenas apoiou a pesquisa, divulgando-a entre os bancários e reforçando a importância do estudo para a categoria. O Sindicato não participou da elaboração do questionário ou tampouco teve qualquer influência na tabulação e resultado da pesquisa, que é de inteira iniciativa e responsabilidade da Ufes. Ao desqualificar o estudo, a direção do Banestes põe em xeque a reputação dos professores do Departamento de Psicologia da Ufes que coordenaram a pesquisa e da própria instituição, uma das mais respeitadas do país. 

Nas alegações, a direção do Banestes contrapõe a pesquisa da Ufes com a certificação Great Place To Work (GPTW), que também concedeu ao banco um selo extra: Great People Mental Health. Traduzindo a sopa de termos em inglês, que dá um certo brilho a pesquisa que dialoga com o mercado, a consultoria atesta que o Banestes, além de ser uma das melhores empresas para trabalhar, também zela pela saúde mental dos seus empregados. 

Selos custaram mais de R$ 600 mil
A direção do Banestes, com esse amontoado de selos, tenta igualar as certificações da consultoria a um estudo científico feito por uma universidade federal que segue princípios acadêmicos e não mercadológicos, caso da GPTW, que cobra, e cobra caro, para emitir a tão desejada certificação. Aliás, quando firmou o primeiro contrato com a GPTW em junho de 2022, o Banestes pagou R$ 142.809,88 para ter a certificação por 12 meses. Em junho de 2023, o banco fez um aditivo estendendo o contrato até 2026. Para assegurar a certificação por mais três anos, o Banestes pagou à SAD Consultoria, que é a empresa com sede em São Paulo que concede a certificação no Brasil, mais R$ 464.742,88. Desde 2022, o Banestes já pagou à SAD Consultoria o total de R$ 607.552,85 para exibir as certificações em peças publicitárias. Detalhe, os contratos foram fechados com base na Lei 13.303/2016, que dispensa a necessidade de licitação. Para declarar a inexigibilidade de licitação, o Banestes considerou que a GPTW tem alto conceito na sua especialidade, de notória especialização.

Contrato firmado entre Banestes e SAD Consultoria para garantir a certificação GPTW por um ano

Aditivo que estendeu o contrato com a SAD Consultoria até 2026

GPTW em xeque
Em outros países, há questionamentos sobre a certificação GPTW. Nos Estados Unidos, o professor Jeffrey Pfeffer da Stanford Business School e o cofundador do Medici Institute, M Muneer, questionam a validade do ranking GPTW. Em um artigo intitulado “Ótimos lugares para trabalhar? O que você obtém pode não ser o que você vê em muitas dessas pesquisas”, os dois pesquisadores apresentam questionamentos às certificações concedidas às empresas americanas que aparecem entre as melhores no ranking GPTW. 

“Foi surpreendente ver algumas empresas específicas no top 10. Isso porque quando entrevistamos alguns trabalhadores dessas organizações sobre práticas de gestão tóxica, o que eles descreveram estava longe de ser um ambiente de trabalho saudável. Fizemos entrevistas semelhantes com funcionários aleatórios da lista dos “Melhores Lugares para Trabalhar” da Índia em 2017, e os resultados foram semelhantes”. Segundo os pesquisadores, muitos trabalhadores descreveram histórias de horror enfrentando pressões para entregar além dos limites razoáveis. Alguns reclamaram de trabalho adicional sendo jogado sobre eles; ainda mais narraram sobre longas horas de trabalho e reuniões após o expediente. Uma mulher foi solicitada a retornar da licença maternidade duas semanas após o parto para fazer uma apresentação importante. Outra, grávida de vários meses na época, se viu em um avião para a Europa na noite de sábado para poder participar de uma reunião na segunda-feira – tendo recebido pouco aviso sobre a viagem inesperada e pouca escolha para optar por não ir.

Os pesquisadores concluíram: “Estamos cada vez mais convencidos de que muitos dos dados das pesquisas usadas na construção de avaliações são pouco confiáveis. O Journal of Consumer Research publicou um artigo que mostra que este é o caso das avaliações de produtos e serviços por consumidores. Como as evidências mostram que as pessoas dependem dessas avaliações para tomar decisões – as avaliações têm consequências econômicas – as empresas têm incentivos para postar avaliações falsas. E elas fazem isso”.

Ranking GPTW Brasil
As certificações GPTW Brasil parecem se enquadrar na avaliação de Pfeffer e Munner. Na ranking 2023, entre as dez melhores empresas para trabalhar com mais de 10 mil empregados, aparecem dois grandes bancos: Itaú e Santander, respectivamente, na primeira e na décima posições. Se os pesquisadores brasileiros se propuserem a ouvir os bancários desses dois bancos, no entanto, provavelmente vão ouvir relatos de bancários que vão na contramão dos atributos conferidos pela certificação GPTW. O ranking GPTW faz um ranking das 150 melhores empresas para trabalhar no Brasil com mais de 10 mil empregados; com 1.000 a 9.999; com 100 a 999 nacionais e multinacionais. O Banestes não está ranqueado entre essas 150 empresas, apenas possui a certificação.

Ranking GPTW de 2023 de empresas com mais de 10 mil empregados

Estudos científicos da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Ufes, que  pesquisaram a situação da saúde mental dos bancários, apontam que os dados apurados não batem com as certificações GPTW emitidas aos bancos como melhores empresas para trabalhar. Os estudos acadêmicos mostram que a categoria bancária enfrenta um processo epidêmico de adoecimento mental cujo gatilho são as cobranças abusivas de metas e o assédio moral.

Líderes em ações na Justiça do Trabalho
Há um outro ranking que os grandes bancos lideram que comprovam que o “melhor lugar para trabalhar” não respeita direitos trabalhistas. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no relatório Justiça em Números, lista os maiores litigantes do país na Justiça do Trabalho. Do ranking das 15 empresas recordistas em processos na Justiça do Trabalho, sete são bancos, todos eles ostentam ou ostentaram o selo GPTW. 

Os maiores litigantes da Justiça do Trabalho. Os dados estão atualizados até maio/2024. Fonte: CNJ

IA do Google faz alerta sobre GPTW
Uma simples busca no Google, com o termo “Great Place To Work críticas” alerta: “As empresas não devem confiar apenas na certificação GPTW. Alguns dizem que as empresas que anunciam a sua certificação GPTW devem concentrar-se em compreender e satisfazer as necessidades dos seus funcionários. As empresas mais bem classificadas no ranking GPTW registaram um aumento nas reclamações médicas e no uso de medicamentos prescritos: alguns dizem que estes aumentos podem ser um indicador de stress no local de trabalho. Os prémios externos não são um bom indicador: alguns dizem que antes de procurarem prémios externos, as empresas devem avaliar a sua organização e cultura ouvindo os seus funcionários”. A afirmação é da Inteligência Artificial (IA) do Google a partir da análise de algoritmos da rede. Convenhamos, Big Thecs, como a Alphabet da Google, seriam as últimas empresas deste ambiente puramente capitalista que são as redes a tratarem essa informação com parcialidade para favorecer os trabalhadores.