O texto a seguir, editado a partir de um artigo escrito pelo advogado trabalhista e sindical Ronaldo Tamberlini Pagotto para o site Outras Palavras (01/10/26), detalha os impactos do programa de governo de Flávio Bolsonaro para a classe trabalhadora. Fim do salário mensal para a maioria; precarização; ataque aos sindicatos; corte nos serviços e servidores públicos; e uma outra contrarreforma da Previdência são alguns dos destaques do “tesouraço” de Flávio.
Os perigos para a classe trabalhadora
As classes dominantes brasileiras não aceitaram a abolição, torceram o nariz para Getúlio Vargas e a CLT, deram golpe no projeto democrático do Jango e um novo na presidenta Dilma. Atacaram a Constituição de 1988 nos pontos com conteúdo social e protetivo. E combateram todas as mudanças na legislação trabalhista favoráveis aos trabalhadores/as desde o 13 de maio de 1888.
Não deixam de verbalizar isso diuturnamente. O que querem é impor aos trabalhadores/as brasileiros o império do liberalismo, ou seja, cada um negocia como pode e quer. O caminho será reduzir o emprego com registro a uma faixa diminuta dos trabalhadores. Restará aos demais sobreviver como pessoa jurídica, em aplicativos ou outros sistemas de relações de trabalho, até chegar às condições análogas à escravização e outras formas degradantes.
A luta histórica pela redução da jornada de 44 para 40 horas e a recente luta pelo direito ao tempo livre com a campanha vitoriosa contra a escala 6×1 seriam a pauta prioritária desse projeto. O que seus defensores querem não é somente enterrar essa proposta [fim da 6X1], mas também aproveitar para ampliar a selvageria com formas ainda mais intensas de exploração e controle da vida de quem vive do trabalho.
Negociação direta
O plano de governo [de Flávio] registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem um capítulo genérico, “Brasil que Prospera”, que promete “permitir que trabalhador e empresa combinem diretamente as condições de trabalho que funcionam para os dois, dentro da lei, em vez de seguir uma regra única”. A prevalência do negociado sobre o legislado, sonhada por eles, é sem o sindicato, numa regra do mais puro liberalismo, que não funcionou em lugar algum do mundo, exceto para amplificar a exploração do trabalho. Promete “reduzir gradualmente o custo do trabalho”, com o argumento de que “o custo de um trabalhador formal chega a cerca de duas vezes o salário que ele leva para casa”. Promete um “contrato de trabalho para os 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego, com menor custo na folha” e um “contrato mais atrativo” para maiores de 50 anos desempregados há mais de um ano. E acena com “um amplo revogaço regulatório”, em nome da Lei da Liberdade Econômica, que o próprio plano lembra ter sido “aprovada em 2019 no governo Bolsonaro”. Flávio anuncia a tragédia e faz prova concreta.
Ameaça às empresas públicas
As estatais completam o programa. Flávio disse à Reuters, em dezembro de 2025, que “vê espaço” para privatizar os Correios e que da Petrobras se privatiza “o que não funciona”. Daniella Marques, em 14 de setembro de 2026, admitiu que o Banco do Brasil “poderia ser considerado para privatização” e que “mais de 20 estatais” serão analisadas para “permanecer sob controle federal, ser reestruturada, privatizada ou, em determinados casos, liquidada”. Adolfo Sachsida [que também integra a equipe econômica de Flávio], como ministro de Minas e Energia, em 2022, pediu formalmente os estudos para desestatizar a Petrobras e a PPSA; Myrian Prado, hoje na campanha [também na equipe], comandava a secretaria de desestatização. O precedente é a Eletrobras, privatizada em 2022: um PDV atrás do outro e o quadro reduzido de mais de 10,5 mil para cerca de 7 mil empregados. No caso da Refinaria de Mataripe, a Controladoria Geral da União (CGU) apurou venda abaixo do preço de mercado.
São Paulo é a vitrine do programa de Flávio. O governador Tarcísio Freitas privatizou a Sabesp em 2024 — 32% das ações por R$ 14,7 bilhões, a R$ 67 por ação quando a bolsa pagava R$ 87. A empresa cortou mais de 2 mil postos em um ano e não parou por ai. Os servidores estaduais tiveram 5% em 2025 depois de um 2024 sem reajuste no salário-base; a PM recebeu 10% linear em 2026 e um bônus de R$ 609 milhões, mais do que os R$ 397 milhões destinados a todas as outras 22 secretarias juntas. O PL 1.316/2025 vincula progressão, permanência e remoção de professores a avaliações de desempenho, motivo da greve estadual de 28 de abril de 2026. É o modelo: privatiza, congela, premia a polícia e estrangula o professor.
Os perigos para o sindicalismo
O capítulo sobre o trabalho do plano de governo de Flávio registrado no TSE chama-se “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato”, e abre assim: “O país precisa se posicionar contra a República Sindical, em que os interesses de dirigentes das entidades se sobrepõem ao interesse dos trabalhadores. É público e notório que, após a modernização trabalhista de 2017, tais agentes se mobilizaram para reverter as perdas advindas do fim do imposto sindical. O princípio da unicidade sindical garante monopólios a esses representantes”. O texto segue acusando o governo Lula de ter “a audácia de propor que os sindicalistas sejam parte da formulação de políticas públicas, mesmo não tendo sido eleitos para tanto”, ataca os projetos em que “os sindicatos de servidores públicos são colocados à frente de associações”, e promete que os trabalhadores de aplicativo “serão protegidos, sem os interesses de dirigentes sindicais à frente do processo”. O antissindicalismo é uma corrente tão antiga quanto os próprios sindicatos. O projeto expressa isso claramente.
No capítulo do INSS, a mesma lógica: “Sai a gestão voltada a entidades sindicais, entra a gestão profissional”. Para o Flávio, o grande inimigo dos trabalhadores são os sindicatos. Voltemos ao plano. Ao afirmar que “a unicidade sindical garante monopólios”, ele anuncia o próximo alvo: a unicidade do Artigo 8º da Constituição — aquilo que impede a pulverização dos sindicatos, diluídos em entidades de fachada patrocinadas pelo patrão — teria que ser revogada. Quando promete que trabalhador e empresa vão “combinar diretamente” as condições de trabalho, está dizendo que a negociação coletiva é dispensável. Sindicato sem dinheiro, sem representatividade ou unicidade e sem negociação coletiva é sindicato sem função — e é isso que se chama, no programa, de colocar “o trabalhador em primeiro lugar”.
Todos podemos ter críticas ao sindicalismo. Mas é a trincheira mais importante da resistência ao ataque aos direitos de quem trabalha. E atacar o sindicalismo é abrir a porteira para um outro tempo, selvagem e sem direitos.
Justiça do Trabalho irá virar balcão seletivo
O que a classe dominante sempre buscou é amordaçar a Justiça do Trabalho, começando por reduzir a sua competência, impondo controles de decisões via Supremo Tribunal Federal (STF), assegurando maior controle sobre as condenações judiciais e seus valores. O que se pretende é transformar a Justiça do Trabalho em um balcão para uma pequena parcela e com o máximo controle de riscos. O controle da Justiça do Trabalho é uma dimensão estratégica para esses setores. Isso ampliaria as margens de “negociação” e reduziria os riscos de condenações. Esse seria um eixo estratégico em um país com presença forte de trabalho escravo, com volumes absurdos de mortes decorrentes de acidentes e uma legião de afastamentos decorrentes de ambientes de trabalho de risco e degradantes.
Os perigos para aposentados e a Previdência Social
O plano de governo de Flávio não tem uma linha sobre reforma da Previdência, regra de aposentadoria, BPC (Benefício de Prestação Continuada) ou salário mínimo; o que há é “INSS sem fila” e um “pacote antifraude”. Mas o coordenador da campanha escreveu por ele. À Folha de S.Paulo, em 6 de março de 2026, o senador Rogério Marinho disse: “O modelo está estourando. Só posso dizer que vamos ter de revisitar a Previdência” — e admitiu que isso pode envolver “parâmetros ou até uma mudança de modelo”. Mudança de modelo como a da proposta original de “reforma” previdenciária do governo Bolsonaro. Ela previa autorizar o regime de capitalização — a aposentadoria transformada em poupança individual, sem solidariedade entre gerações —, além de um BPC de R$ 400 aos 60 anos, que só chegaria a um salário mínimo aos 70, e de aposentadoria rural aos 60 anos com 20 anos de contribuição para homens e mulheres. O Congresso retirou tudo isso do texto. Flávio votou a favor da “reforma” nos dois turnos, em 1º e 22 de outubro de 2019.
Depois veio o restante do receituário. Em novembro de 2019, o governo mandou ao Senado o “desobrigar, desindexar, desvincular. Plano Mais Brasil”, que a própria equipe econômica batizou de “DDD”: Guedes justificou com um número: “67% das despesas primárias da União são indexadas”. A PEC Emergencial virou a Emenda 109, com gatilhos que congelam salários e vedam concursos; Flávio votou sim. E o salário mínimo, que é o piso de dois em cada três benefícios do INSS, passou 2020, 2021 e 2022 sem um centavo de ganho real, só a inflação. A política de valorização foi retomada em 2023, pela Lei 14.663.
O que está em jogo é algo profundo sobre o futuro da aposentadoria. Dos benefícios pagos pelo INSS, 23,3 milhões, ou 66,2% do total, valem até um salário mínimo. Cada real de aumento no mínimo custa cerca de R$ 380 milhões por ano à Previdência, e é esse “custo” que o tesouraço de flávio mira. São 61,9 milhões de pessoas com rendimento referenciado no mínimo. E a Previdência, sozinha, reduz a pobreza no país de 42,8% para 28,7%. Congelar o ganho real é a forma silenciosa de fazer a reforma perversa e agravar o quadro da crise social brasileira.
Os perigos para os servidores públicos
Para os servidores, o programa de Flávio é o mais explícito de todos: “Enxugar a máquina e profissionalizar a gestão pública”, com “Reforma Administrativa”, “corte de pelo menos 10 ministérios e diminuição de cargos comissionados e despesas administrativas”, “revisão normativa infralegal”, retomada do “Programa Nacional de Desestatização” e “uma regra para controlar gastos discricionários dos três Poderes”.
Não há cronograma de concursos e não há a palavra “estabilidade”. Em 21 de agosto, Daniella Marques [coordenadora do programa econômico de Flávio] detalhou: se eleito, Flávio enviará uma PEC de corte de gastos antes mesmo da posse, reduzirá os ministérios para 20 a 25, revisará o arcabouço fiscal, mandará um pacote sobre “supersalários” e reavaliará as estatais. Falou em “substituição de cargos operacionais e administrativos por inteligência artificial”. Disse também que a estabilidade não será alterada.
Mas foi o governo de Jair Bolsonaro que mandou ao Congresso, em 3 de setembro de 2020, a PEC 32: fim da estabilidade para os novos servidores, salvo as “carreiras típicas de Estado”; “vínculo de experiência” de um a dois anos antes da efetivação; contratação temporária ampliada; cargos de “liderança e assessoramento” sem concurso; e o poder de o presidente extinguir órgãos e cargos e reorganizar autarquias por decreto, sem passar pelo Congresso.
Jair Bolsonaro foi o primeiro presidente em 20 anos a terminar o mandato sem conceder reajuste ao funcionalismo federal: zero em 2019, 2020, 2021 e 2022, com inflação acumulada de mais de 27% entre o último reajuste, em 2017, e novembro de 2021. No fim, tentou reservar R$ 1,7 bilhão só para as polícias, deixando um milhão de servidores de fora, antes de desistir. A Lei Complementar 173, de 2020, a famosa “granada no bolso do INIMIGO”, congelou salários e progressões em todo o país até dezembro de 2021, exigência de Guedes em troca do socorro a estados e municípios na pandemia.
Por fim, o argumento do “inchaço” não resiste aos dados. O emprego público é 12,1% da força de trabalho no Brasil, contra 18% na média da OCDE; a despesa de pessoal da União caiu de 4,3% do PIB em 2018 para 3,4% em 2022. O “tesouraço” não corta gordura: corta serviço público, e quem paga é a sociedade.
Esse projeto precisa ser derrotado. Pelas gerações que lutaram antes de nós e pelo futuro. Flávio é uma ameaça real e o povo brasileiro não permitirá que se imponha.






