Padre Kelder denuncia violência da polícia contra comunidades do Território do Bem (Fotos: Sergio Cardoso/Sindibancários/ES)

Imagine ser surpreendido quase 11 horas da noite por policiais fortemente armados com fuzis e cães farejadores no quintal da sua casa. Padre Kelder Brandão viveu esse drama não uma, mas duas vezes. Essa havia sido a segunda vez em dois dias que a PM fazia uma incursão, sem aviso prévio e tampouco portando mandado judicial, no pátio que dá acesso à paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Itararé, em Vitória, dentro do chamado Território do Bem. A primeira batida foi no dia 16 de julho, logo após o encerramento da missa dominical. Kelder, que mora nas dependências da paróquia, descreveu a ação truculenta da polícia como “obscena, ilegal, imoral”. Assustado e indignado, o padre levantou às pressas um muro improvisado de placas de zinco para fechar o acesso ao terreno que ladeia a paróquia, por onde os policiais empreenderam a invasão. “Normalmente as pessoas constroem muros para se proteger dos criminosos. Aqui, construímos para nos proteger da polícia. Este é o muro da vergonha”, desabafa o religioso. 

Com mais de 30 anos de militância na defesa de direitos humanos em regiões conflagradas pela violência na Grande Vitória, padre Kelder diz que nunca passou por nada parecido. Ele acredita que a ação da polícia seja em represália às críticas que vem tecendo à política estadual de segurança e, especialmente, ao secretário da pasta, Alexandre Ramalho, coronel da reserva da PM. 

Homilias
Padre Kelder começou a subir o tom à política de segurança do governo Casagrande e às ações truculentas de Ramalho durante as homilias. “Constantemente somos testemunhas da violência em nossa paróquia. No último mês ela foi intensificada com muitos conflitos violentos e mortes. A última manifestação de violência foi praticada contra nós, católicos, no último domingo, 16. (…) A mensagem transmitida por essa ação policial foi compreendida por todas as pessoas que acompanham a história de nosso Território do Bem e o histórico da violência em nosso Estado, cujo rastro de sangue e corpos tombados não deixam dúvidas sobre o que esta ação quis dizer. Quem tem ouvidos, ouça!”. Mais à frente, ele disse: “Estamos todos juntos e misturados. E assim é a história humana. Não para segregarmos as pessoas umas das outras como comumente uns tentam fazer, rotulando algumas pessoas como sendo do bem e outras do mal”. 

O secretário de Segurança, coronel Alexandre Ramalho, dá esculacho em adolescente durante operação da polícia em Vitória (foto: vídeo/reprodução)

Kelder fazia menção à ação despropositada do coronel Ramalho que humilhou um adolescente supostamente envolvido no tráfico durante uma operação ocorrida no final de maio. No vídeo, o secretário de Segurança faz um show midiático: “Essa vida vai te levar pro caixão. Você vai morrer, porra! Larga essa merda e vai trabalhar, porra!”, dispara Ramalho.

No vídeo gravado intencionalmente, o secretário abusa da verborragia raivosa, recheada de palavrões e insultos,  na linha do personagem Capitão Nascimento, de Tropa de Elite. Sempre olhando para câmera enquanto humilha o jovem de 16 anos, o coronel se vangloria do método nada pedagógico aplicado na rua. 

O polêmico vídeo foi o gatilho das críticas do padre Kelder à postura truculenta do secretário. “Fiquei indignado com o vídeo. Disse: não é possível que as pessoas estejam vendo isso e não digam nada. Porque chama a atenção ver um secretário de Segurança esculachando um adolescente preto e pobre. Advertindo que ele irá morrer, que o caixão está pronto… Queria ver ele fazer o mesmo com um adolescente morador da Praia do Canto”, desafiou.

A partir do episódio do esculacho público do adolescente, o pároco passou a fazer críticas mais incisivas à política de segurança, que passaram a aparecer nas homilias. Alexandre Ramalho rebateu as críticas via imprensa. O secretário disse estranhar as críticas do religioso. Chegou a dizer, tentando transmitir que mantinha alguma intimidade com o pároco, que subiu o Morro da Piedade com o padre. Kelder negou: “Nunca fui ao Morro da Piedade e tampouco estive com este senhor pessoalmente”. 

Tiroteio e morte
As desavenças públicas entre o secretário de Segurança e as comunidades do Território do Bem ficaram ainda mais acirradas após um tiroteio entre policiais e bandidos nas proximidades do Complexo Life Vix Mall, ao lado do hospital MedSênior, na avenida Leitão da Silva, na altura do acesso ao Morro da Gurigica. Uma das balas acertou Daniel Ribeiro Campos da Silva, de 68 anos, que estava internado no hospital sob medidas paliativas havia dois anos. O idoso não resistiu aos ferimentos e morreu. 

Segundo o padre, o secretário contou à imprensa uma versão enviesada da história. Na verdade, esclarece Kelder, o motivo do tiroteio foi a morte do adolescente Carlos Eduardo Cabral de Oliveira, 16 anos, que, segundo a polícia, teria ligação com o tráfico de drogas. No sábado, 24 de junho, a polícia subiu o morro por volta das 20h. Uma hora depois, o adolescente apareceu muito machucado nas escadarias do Morro da Gurigica. Carlos Eduardo foi levado para o Hospital São Lucas, mas não resistiu aos ferimentos. A polícia desocupou o morro por volta de uma hora da manhã do domingo, 25. Pouco depois de 2h da manhã um veículo foi incendiado na Leitão da Silva. A partir desse episódio tem início o tiroteio que durou mais de 40 minutos. “Critiquei o fato de os policiais se abrigarem dentro do hospital para trocar tiros. É claro que alguém acabaria ferido ou morto”, assinala Kelder. 

Na versão apresentada à imprensa, o secretário isenta a polícia de qualquer responsabilidade com a bala perdida que tirou a vida do idoso e procura evitar qualquer associação entre a morte do adolescente e o tiroteio. Na segunda, 26, padre Kelder acompanhava o telejornal ESTV 2ª Edição (Gazeta), enquanto almoçava, e quase engasgou a comida quando viu que o jornal havia “oficializado” a versão do secretário Ramalho sobre o ocorrido. O padre pediu imediatamente espaço para contrapor a versão da Secretaria de Segurança.

“A culpa é sempre do pobre, a culpa é sempre do negro. O pobre sempre é o problema. Nunca a solução”, desabafa Cosme, do Fórum Bem Maior (Reprodução)

“O pobre é sempre o problema”
Cosme Santos de Jesus, do Fórum Bem Maior e integrante da organização social Ateliê de Ideias, foi escolhido porta-voz do Território do Bem para rebater a versão oficial do episódio. O militante declarou à TV Gazeta que “a culpa é sempre do pobre, a culpa é sempre do negro. O pobre sempre é o problema. Nunca a solução. O pobre vende sua mão de obra por migalhas para cuidar da sua família com dificuldades. Mas ele é sempre o problema. É o pobre que constrói este país com sua força de trabalho, mas ele é sempre o problema. Se é negro então…Tem de haver uma investigação séria antes de sair julgando”, exigiu Cosme logo após os fatos. O militante afirmou ainda à ESTV que a versão da polícia de que o adolescente foi espancado pelo tráfico não faz sentido. “Quer dizer que o tráfico espancou e depois foi protestar a morte do garoto?”, questionou. 

A liderança do Território do Bem, que reúne São Benedito, Bairro da Penha, Itararé, Engenharia, Jaburu, Consolação, Floresta e Andorinhas, criticou as ações midiáticas do secretário de Segurança. “Ele [secretário de Segurança] produz os espetáculos e depois fica fácil jogar a culpa na comunidade. A gente não vê o poder público vir aqui para trazer emprego, programas sociais, amparo às comunidades. É fácil culpar o pobre e não trazer soluções para cá. Quando a gente critica, cobra, vira inimigo mortal do poder público”, desabafa Cosme.

Um estranho no ninho
Cosme confessa que se sente um estranho na sua própria cidade. “A cada dia me sinto menos parte da cidade de Vitória. “A sensação é a de que estamos num barco sempre à deriva. A cada novo crime essa sensação aumenta. Eu sou uma liderança comunitária e também estou nesse mesmo barco. Fomos abandonados pelo Estado. Histórias como a do Carlos Eduardo são recorrentes aqui. A maioria das pessoas da nossa comunidade vê a polícia como uma força inimiga. Quando a polícia sobe o morro, a gente tem de se trancar dentro de casa para se proteger, porque é tiro para todos lados”, assinala a liderança comunitária. 

ES tem as piores taxas do Sudeste
As críticas do padre Kelder e de Cosme à política de segurança do Espírito Santo ganham sustentação científica quando se mergulha nos números da violência no Estado. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, que analisa os números de 2022, aponta que o ES tem a maior taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) do Sudeste. Quando se recorta somente as taxas de homicídios, o ES também supera Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. O ES também é líder absoluto nas taxas de latrocínio e lesão corporal seguida de morte. 

Para Cosme, a política de segurança virou um espetáculo midiático cujo ator principal é o coronel Alexandre Ramalho. “A mídia tradicional, por sua vez, geralmente dá espaço para a versão do Estado. A opinião pública tende a seguir essa mesma versão. No meu entendimento, segurança não é truculência, é inteligência. A comunidade precisa de amparo do Estado, não de repressão”, afirma o militante. 

Troca política
A escalada da violência no Espírito Santo vem ganhando contornos mais agudos sob a gestão de Alexandre Ramalho. O coronel reformado da PM assumiu a pasta em abril de 2020 no lugar do delegado federal Roberto Sá, que ficou apenas 15 meses no cargo. Cria de José Mariano Beltrame, que implantou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) no Rio de Janeiro, Sá teria saído porque o governador Renato Casagrande estaria insatisfeito com o aumento da violência, especialmente com o pico de homicídios em março de 2020, mês em que foram registradas 155 mortes violentas intencionais, embora no saldo de 2019, Sá tenha reduzido os homicídios em 11%. Mas há outras versões de bastidores que apontam que a troca foi essencialmente política. Casagrande estava sendo pressionado para acomodar o coronel do Republicanos que já ensaiava ingressar na política e queria usar o cargo de secretário como escada.

Escuta
Quem esteve no dia 21 de agosto último na área social da Paróquia Santa Teresa de Calcutá para participar da chamada escuta com o ministro dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), Silvio Almeida, ouviu dos militantes dos movimentos sociais, coletivos e familiares de pessoas em privação de liberdade e vítimas de violência institucional um rosário de queixas à política de segurança do governo Casagrande, que tem intensificado a violência policial nas periferias, preferencialmente contra a juventude negra.

O Padre Kelder, a comunidade do Território do Bem e os militantes de direitos humanos têm razão quando veem a polícia capixaba como ameaça. Em 2022, segundo o Anuário de Segurança Pública, as intervenções policiais no Estado resultaram em 65 mortes. O número confere à polícia de Casagrande a segunda maior taxa do Sudeste (atrás apenas do Rio) e a 12º do país. 

Grito dos Excluídos vai clamar contra a violência
A violência que se intensificou em todo o país após quatro anos do governo Bolsonaro motivou a organização do Grito dos Excluídos deste ano a levar o tema “Vida em Primeiro Lugar” para as ruas no dia 7 de setembro.  A 29ª edição do Grito ainda traz uma pergunta: “Você tem Fome e Sede de Quê?”. A ideia é abrir a escuta para responder a essa questão e, ao mesmo tempo, buscar soluções que acabem com toda forma de exclusão e violência. 

No Espírito Santo os movimentos sociais vão aproveitar o ato para contestar o governo Casagrande, que não cumpriu os compromissos assumidos com a sociedade civil durante a campanha eleitoral do ano passado. A versão capixaba o Grito vai questionar também a política de segurança pública das forças policiais, especialmente nas periferias. 

O “Pacto pelo Espírito Santo do Amanhã”, assinado pelo governador Renato Casagrande, foi um documento elaborado pelo Fórum Igrejas e Sociedade em Ação com 13 reivindicações dos movimentos sociais ligados ao Fórum, no qual o então candidato à reeleição firmou compromissos com a pauta social mas não os cumpriu. 

O Sindicato dos Bancários/ES é uma das entidades que compõem o Fórum e estará presente no Grito, como faz historicamente todos os anos, para reafirmar a posição de repúdio à política de segurança do governo Casagrande e do coronel Alexandre Ramalho. “Prevalece no Estado a política seletiva que mata preferencialmente os jovens pretos das periferias. Casagrande fez opção de colocar na pasta um coronel da PM que reduz a política de segurança à repressão seletiva. No caso de Vitória, essa geopolítica da violência fica muito evidente nesse corte que divide a capital em dois a partir da avenida Leitão da Silva. A polícia de Casagrande é patrimonialista e trabalha exclusivamente para servir às faixas mais abastadas da sociedade. Os pobres, como mostram os relatos de lideranças dos movimentos sociais, ante a ausência do Estado são entregues à própria sorte. Ironicamente o programa do governo de combate a violência se chama Estado Presente. Nós perguntamos: Estado presente para quem?”, questiona a coordenadora-geral do Sindicato, Rita Lima. 

Casagrande não honra compromissos
Durante o segundo turno das eleições do ano passado, recorda Rita Lima, Renato Casagrande (PSB), correndo o risco de ser derrotado pelo candidato bolsonarista Carlos Manato (PL), foi buscar apoio dos movimentos sociais, partidos políticos do campo da esquerda, sindicatos e centrais sindicais. Segundo a dirigente, na hora em que o cenário eleitoral ficou nebuloso, e a ameaça Manato crescia, Casagrande buscou o apoio desses segmentos, que exigiram contrapartidas ao candidato. Afinal, havia uma queixa comum sobre a falta de interlocução com o governo, que não abriu espaço para o diálogo com os movimentos para discutir as pautas sociais e da classe trabalhadora durante seus quatro anos de mandato. 

“Cumprimos a nossa parte no acordo, apoiamos a candidatura de Casagrande e ajudamos a derrotar o candidato da extrema direita, mas o governador não honrou a parte dele. Após mais de oito meses de governo, a interlocução com o Palácio Anchieta continua travada e não há nenhuma sinalização por parte do governo no sentido de abrir um canal de diálogo conosco. Fomos vítimas de um oportunismo político-eleitoral. Além de não cumprir os compromissos assumidos com os movimentos sociais, Casagrande apoia uma política de segurança pautada no extermínio das populações mais pobres e sobretudo do povo negro”, critica Rita Lima.

A dirigente afirma que, como faz todos os anos, o Sindicato dos Bancários marcará presença no Grito dos Excluídos em repúdio à política de exclusão e violência do governo do Estado. Na Grande Vitória, o Grito dos Excluídos e das Excluídas, no dia 7 de setembro, reunirá os manifestantes no Portal do Príncipe e seguirá até o Palácio Anchieta, no Centro de Vitória, onde está programado um ato de encerramento.