Diretor Marcelo participou da apresentação do repentista Passarim

A programação deste sábado (04) da Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias 2024 foi aberta com muita animação. O repentista Passarim conseguiu criar um clima bem descontraído e solto, já que o debate que vinha pela frente, saúde mental, era inevitavelmente difícil. No encerramento da apresentação, o artista ainda fez uma performance impecável da poesia de Wilson Jr.: “Quando não existiam cercas e o pão não era PIB” – uma crítica às mazelas do capitalismo que o poeta escreveu especialmente para a conferência. Antes do painel sobre saúde mental, a economista do Dieese Millena Alves trouxe dados impressionantes dos impactos da aceleração digital nas relações de trabalho da categoria bancária. 

O professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo Thiago Drumond conseguiu fazer uma exposição apartada do academicismo e interativa. Esse tom mais coloquial e direto envolveu as bancárias e os bancários na apresentação do tema que tem sido um dos mais centrais para a categoria atualmente e já é pauta cativa no Congresso Nacional dos Bancários, que acontece em São Paulo nos dias 4, 5 e 6 de junho. Drumond ratificou a importância da pesquisa que está sendo feita em parceria com o Sindicato dos Bancários. O professor ressaltou a importância de participação e divulgação da pesquisa. O painel foi mediado pelos dirigentes do Sindicato dos Bancários Ronan Teixeira e Lizandre Borges.

Professor Drumond fala ao lado de Lizandre e Ronan (fotos: Sérgio Cardoso)

Drumond abriu sua apresentação com uma pergunta: “O que faz o trabalho para a saúde?” E amendou: “Somos peças de um desgaste; somos fonte inesgotável de ideias; somos fontes de riqueza; somos apenas doação e expropriação?, questionou. Será que o trabalho é algo tão difícil de conciliar? Será que é impossível saúde no trabalho? Essas são perguntas que nós temos que nos fazer”. E acrescentou: “Que sentimentos vocês vivenciam no trabalho? Medo, raiva, ansiedade, estresse? Ou nós podemos ter outros sentimentos?”

Em contraponto, Drumond questionou se sentimentos como motivação, esperança, entusiasmo, orgulho, felicidade são possíveis no trabalho. “Ainda que estejamos vivendo um momento muito intenso de sofrimento mental, o trabalho pode produzir saúde. Ele ponderou que a saúde mental, no entanto, não depende só das questões individuais, mas sofre influência do contexto. “Temos que considerar o que esse contexto produz”.

O professor falou sobre as características do trabalho contemporâneo, que está sujeito a inovação contínua. Desse contexto derivam questões como enfrentamento rotineiro de descontinuidade, necessidades de adaptações constantes e instabilidade. “No âmbito da cultura da excelência, as exigências são cada vez mais intensas e exigem qualidade total e aprendizado contínuo”. Ele disse que as empresas cobram os trabalhadores o tempo todo, exigindo soluções, criatividade e contribuições. “O tempo inteiro temos que estar atentos, sorrindo para darmos conta dessas mudanças”. Drumond disse que já existem pesquisas hoje estudando os impactos das mudanças tecnológicas. Outro aspecto que vem a reboque desse trabalho contemporâneo é a cultura de excelência. “Você tem de responder o melhor possível. E essa cobrança é muito cruel. Você tem uma meta, bate a meta, no ano que vem essa meta aumenta”, assinalou 

Ponta do iceberg
O professor perguntou aos presentes se eles conheciam algum colega que já apresentou atestado ou se queixou de adoecimento mental. “Quase todo mundo, não é”, disse fazendo uma estimativa das mãos levantadas. “Sabe o que é mais dramático? A ponta do iceberg é o que vemos do adoecimento mental, que na categoria bancária é extremamente alto. A doença mental é uma parte. Se na sua agência duas ou três pessoas apresentaram  atestado, ou mesmo uma, em volta dela terá muitas outras com sofrimento mental intenso. O que é aparente, a licença, é muito menor que o sofrimento mental de trabalhadores que não se afastam”. Ele explicou que muitas pessoas não se manifestam por medo de perder as metas ou mesmo o emprego. 

Situações que produzem saúde
Thiago Drumond apresentou situações que podem produzir saúde no trabalho. Ele citou como exemplos a ética profissional e social (confiança e companheirismo), reconhecimento dos esforços e das contribuições (e não dos resultados), recompensa justa, controle dos meios e objetivos do trabalho, entre outros. “O trabalhador não quer ser reconhecido por ter atingido a meta, mas pelo esforço, pela dedicação.

Pesquisa
Ainda preliminares, o professor antecipou alguns dados da pesquisa que está sendo feita com os bancários capixabas. No dado que classificou a ansiedade, 40% dos respondentes apresentam ansiedade extremamente grave; outros 7%, severa/grave e 15%, moderada. Com relação ao estresse, o estudo apontou que nas mesmas classificações da ansiedade, o estresse apresentou, respectivamente, 28%, 19% e 14%. “Quando somamos a ansiedade extremamente grave com a severa, chegamos ao percentual de 47%. Se formos aplicar esses níveis na população geral, usualmente são pessoas que estão em processo de adoecimento com CID F, ou seja, doenças que tem nome, transtorno de ansiedade generalizada, burnout e outros tipos de doenças mentais”. Ele disse que várias dessas pessoas revelaram que estão tomando medicamentos para doenças mentais. “Quando incluímos os moderados, esse percentual (somado) passa de 60%. É um percentual superior a todas as populações que eu já investiguei”, advertiu. 

Os dados sobre sobre depressão também apontaram que os níveis são bastante altos entre os bancários e bancárias capixabas. Extremamente grave, 37%; grave/severa, 13% e moderada, 15%. “Tanto o estresse como a ansiedade culminam no processo de depressão. E a depressão é um quadro de adoecimento mais intenso. E a pesquisa aponta que 50% das pessoas têm sinais de depressão”. Ele explicou que um dos instrumentos da pesquisa mensura sintomas que, no conjunto, indicam que a pessoa está num processo de adoecimento. “Se incluirmos os moderados, o índice passa de 60% das pessoas. É uma quantidade de pessoas muito grande que já perderam a vitalidade em relação a tudo. Esse é o quadro de vocês hoje, que tenho certeza que não era assim há 30 ou 40 anos”. Drumond enfatizou, no entanto, que esse não é um quadro recente, mas que vem se intensificando de uns 20 anos para cá.

Esquete
Antes de o professor Thiago Drumond abrir para os debates, o grupo formado por quatro atrizes fez a apresentação da esquete teatral sobre o adoecimento mental. O grupo formado por quatro atrizes, juntamente com dirigentes do Sindicato, vem percorrendo as agências bancárias do Espírito Santo desde março desde ano. A esquete emocionou as bancárias e os bancários, como tem sido uma constante em outras apresentações. 

O secretário de saúde do Sindicato Ronan Teixeira, ao final da esquete, afirmou que os bancários dormem e acordam sofrendo com as metas impostas pelos bancos. “Passamos o dia asfixiados por metas inatingíveis e adoecedoras. Nos nossos momentos de folga e lazer, vemos nossos corpos saírem das unidades bancárias estraçalhados, deixando lá nossa saúde física, social e mental. Para nós, bancários, o que acabamos de assistir não precisa de explicação”. Ronan reforçou a importância de responder a pesquisa e pediu para que cada um saísse dali comprometido em convencer os colegas a responderem a pesquisa.  

A coordenadora-geral do Sindibancários, Rita Lima, destacou que a temática saúde mental mexe com todo mundo. “Marx dizia que o trabalho é promessa de vida. Para ele, o trabalho no capitalismo tem duas dimensões: uma que faz viver e a outra que faz morrer. O papel do Sindicato é atuar nessa contradição. Como nós, dentro do capitalismo, buscamos estratégias de sobrevivência para fazer do trabalho uma promessa de vida? Não é uma tarefa fácil. Mas os trabalhadores, ao longo da história do capitalismo, têm engendrado, não só estratégias de resistência, mas também apontado saídas com propostas para uma nova forma de organização do trabalho. É por trás disso que a luta se encaminha. Como podemos enfrentar essa situação, mobilizar, organizar os trabalhadores e as trabalhadoras para resistirmos e ultrapassarmos essa dimensão. Todos nós sabemos que é só com a morte do capitalismo é que a vida vai vigorar com outra intensidade. Enquanto não podemos e não conseguimos, porque não é só uma questão de vontade, nós precisamos viver. E como é que fazemos isso? Lutando, se organizando, estudando, compreendendo, se aliando uns com os outros. Porque se ficarmos sozinhos, não venceremos”, enfatizou Rita Lima.

A seguir, acompanhe algumas perguntas dos bancários e bancárias, muitas em tom de desabafo, que encerram os debates do painel saúde mental:

“Temos que saber o momento de parar. Até que ponto podemos seguir. Estamos vendendo a nossa força de trabalho, não a nossa saúde”.

“Para ter o fim das metas, precisa acabar antes com o capitalismo”

“Depois que fiz o curso de formação sindical, consegui achar um pouco de sentido nisso tudo que a gente vive. Esse sistema que vivemos [capitalismo] é uma loucura, um caos”.

“É possível reimplantar o trabalho no modo de produção capitalista? Não. Mas se a gente abstrair todos os elementos constitutivos da sociedade capitalista, e pensar só na categoria bancária, é possível reimplantar o trabalho bancário? Não. O cotidiano do trabalho, como foi apresentado na esquete, está cada vez mais insuportável”.

Confira as fotos (Sérgio Cardoso)