Maria Maeno, média e pesquisadora da área de Saúde do Trabalhador

A médica Maria Maeno, pesquisadora em Saúde do Trabalhador da Fundacentro, foi a convidada da mesa de debate “As condições de trabalho como causas do adoecimento na categoria bancária”, que aconteceu no sábado, 31, durante a Conferência Estadual da categoria

Ela integra a equipe de pesquisadores do projeto “COVID-19 como uma doença relacionada ao trabalho”, promovida pela Associação de Saúde Ambiental e Sustentabilidade (ASAS). O projeto inclui a realização de uma pesquisa com trabalhadores de vários segmentos, inclusive o bancário, para analisar e dar visibilidade às condições de trabalho enfrentadas na pandemia.

Naturalização

Para Maeno, o convívio com a pandemia levou a uma naturalização do número de mortes por covid-19, e é preciso problematizar isso para compreender o momento atual da crise sanitária. 

“Estamos com uma média móvel em torno de 1200 a 1300 óbitos por dia. No ano passado, em julho, tínhamos a mesma média e era o pior momento da pandemia. Isso nos causava horror. Hoje temos quantidade similar de mortes diárias e reagimos com naturalidade”, pontua, em tom questionador. 

A postura do poder público, segundo a médica, tem contribuído para essa naturalização, incentivando de maneira irresponsável o retorno às atividades presenciais.  

“Entusiasmadas pela redução da mortalidade por covid nas últimas semanas e pelo avanço, ainda que lento, da vacinação, as autoridades políticas estão dando a impressão de que a pandemia está superada ou prestes a ser superada no Brasil. De maio a setembro do ano passado houve queda de 84% dos trabalhadores que estavam afastados por restrição, por conta da pandemia. Agora, empresas que ainda mantêm setores em trabalho remoto se preparam para o retorno presencial massivo de seus empregados  a partir de agosto”, diz. 

É preciso ouvir a ciência

Maeno é contundente ao afirmar que não estamos prestes a vencer a pandemia, mas que é possível fazer isso com menos danos sanitários e sociais se as autoridades ouvirem a ciência e a epidemiologia. 

Para a médica, o esforço central do poder público deve ser reduzir a transmissibilidade, o que só pode ser feito com uma forte ação nas atividades de trabalho, sejam elas formais ou informais, essenciais ou não. 

“Todas as atividades de trabalho devem ser observadas pela sociedade, porque qualquer pessoa que permaneça transitando pode se contaminar e disseminar o vírus.  No Brasil temos um mercado informal muito grande, com insegurança laboral, vínculos precários etc. Se não tiver ajuda financeira para que essas pessoas fiquem em casa, não adianta apenas fazer campanha pró-máscara e distanciamento. É inócuo pedir que alguém fique em casa se ela for morrer de fome. Daí a importância de medidas como o auxílio emergencial”, aponta. 

Condição de trabalho dos bancários

Segundo Maeno, se a pandemia trouxe riscos para os bancários que continuaram em trabalho presencial, o trabalho remoto também mudou a rotina da categoria, com consequências que não podem ser ignoradas do ponto de vista da saúde do trabalhador. 

“Observamos jornadas contínuas em casa, sem pausas, com onipresença do banco invadindo o ambiente familiar. Hoje o fenômeno do assédio moral é algo contundente nos bancos, as pessoas são acometidas por doenças crônicas e há uma pressão muito grande para atingir as metas, com as avaliações de desempenho acopladas às metas e salários cada vez mais dependentes de parcelas móveis. O trabalho remoto aprofundou essas características”, esclarece.

Participantes da Conferência Estadual acompanharam debates virtualmente

Covid como doença relacionada ao trabalho

A palestrante também explicou por que ela e outros estudiosos defendem que a covid-19 seja considerada uma doença relacionada ao trabalho. 

“Algumas empresas alegam que o empregado estaria mais seguro no local de trabalho do que em casa. Isso não é verdade, porque o transporte teria que estar vazio; as empresas teriam que fazer obras de engenharia que permitissem a renovação do ar no ambiente de trabalho; não poderia haver pessoas próximas umas das outras etc.  É inegável que todos que trabalham presencialmente estão se arriscando mais do que quem está em casa”, contesta. 

“O vírus é altamente transmissível e causa pouco ou nenhum sintoma em 60 a 70% das pessoas infectadas, por isso muita gente nem sabe que está contaminado e continua transmitindo. A transmissão é favorecida na aglomeração, e já temos numerosos indícios de que o trabalho presencial expõe empregados a risco”, explica. 

Para a médica, é preciso inverter o ônus da prova. “Se a empresa diz que não é possível provar que o trabalhador se contaminou no trabalho, a gente insiste que quem tem que provar que o trabalhador não se contaminou do trabalho é o empregador. Ou seja, se um bancário em trabalho presencial se contaminou, é do banco a responsabilidade de provar que esse quadro de adoecimento não foi adquirido em função do trabalho”, completa. 

A mesa de debate com a Dr. Maria Maeno foi transmitida ao vivo e está disponível na íntegra no canal do Sindicato no Youtube. Assista: 

 

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