Quem assiste ao vídeo com cerca de 20 homens e mulheres fazendo flexões de braço sobre um palco, deve supor, num primeiro momento, que se trata de algum evento militar cuja prática de impor flexões como “castigo” é bastante comum. Mas se tratava, pasmem, do “Dia da Nação Caixa”. Quem comandava a sessão de humilhação era o próprio presidente da instituição, Pedro Guimarães, que parecia se divertir com a cena bizarra. O vídeo com o registro das cenas de humilhação repercutiu na imprensa e nas redes sociais (vídeo abaixo).
O flagrante de assédio moral aconteceu nessa terça-feira, 14, no Bourbon Atibaia Resort, que fica a cerca de 70 km de São Paulo. Participavam do evento destinado ao alto-escalão da Caixa, diretores e vice-presidentes. A vertente militar do encontro não se encerrou com as flexões. O coronel da reserva e assessor do Gabinete de Gestão Institucional (GSI), Adriano de Souza Azevedo, foi convidado para narrar sua experiência na missão no Haiti, durante os 13 anos de ocupação (2004 a 2017) do Exército Brasileiro no país caribenho. Registre-se, ocupação repleta de controvérsias.
A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges afirma que o episódio de humilhação ocorrido em Atibaia é um retrato de como Pedro Guimarães vem tratando os empregados e as empregadas da Caixa. “A cena em si é tão absurda que é até difícil de comentar. No dia a dia têm sido recorrentes os casos de assédio e humilhação. Há um pavor no ar que toma conta dos empregados da Caixa. O resultado dessa gestão déspota se reflete no número crescente de empregados com doenças físicas e mentais”, adverte.
Para a coordenadora-geral do Sindicato, Rita Lima, as cenas envergonham e mancham a imagem da instituição. “Não bastasse enxovalhar a imagem da Caixa, Pedro Guimarães faz isso humilhando os empregados. É mais um ato político-eleitoreiro do presidente da Caixa, como outros que vêm se repetindo. Ele está de olho em conquistar um cargo político nas eleições do ano que vem”, aponta a dirigente.
Prática de “pagar” 10 já foi parar na Justiça
Não há dúvida de que a imposição de flexões de braço aos empregados é um flagrante caso de assédio moral. A prática, bastante comum nos meios militares para punir e humilhar soldados, parece ter inspirado Pedro Guimarães a impor um modelo de gestão “linha dura” na Caixa. “O viés militarizado do evento deixa evidente que Pedro Guimarães não quer ter empregados, mas soldados obedientes que acatam as ordens de superiores sem questioná-las, como ocorre no ambiente militar”, diz Rita Lima.
Há casos na Justiça do Trabalho de funcionários do setor privado que foram punidos com flexões de braço. A empresa NET de Sorocaba, por exemplo, foi condenada em uma ação de danos morais por obrigar uma funcionária a “pagar” 10 flexões. A punição foi imposta pelo chefe porque ela teria demorado para responder a um e-mail do seu superior.
Há outro caso na Justiça do Pará. A Companhia Brasileira de Bebidas (AmBev) foi condenada a pagar R$ 50 mil de indenização por danos morais a um ex-empregado que era obrigado a fazer flexões de braço na frente dos colegas quando não conseguia atingir as metas de venda. Na reclamação trabalhista, o funcionário relatou que “o chefe imediato tinha o ‘medieval’ costume de impor aos subordinados o pagamento de ‘prendas e castigos por deslizes praticados”.
Rita Lima alerta que a sessão de humilhação imposta por Guimarães abre um precedente perigoso. “Pode ser interpretada como um recado aos gestores de como eles devem agir para aumentar a pressão sobre os empregados, que já estão no limite com as metas desumanas, além de sofrerem com o acúmulo de tarefas em função do número reduzido do quadro de pessoal da Caixa, que cai ano a ano”.
Nos últimos seis anos, a Caixa cortou quase 20 mil bancários e bancárias. Estudo feito no final de julho deste ano pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), confirma a relação desigual entre demanda versus pessoal. O Dieese apontou que entre 2018 e o primeiro trimestre de 2021, o número de clientes por trabalhador da Caixa subiu 65%, passando de 1.070 para 1.775.
Empregados devem reagir
“Os empregados e as empregadas da Caixa não podem abaixar a cabeça e devem reagir ao assédio”, recomenda Lizandre. A dirigente acrescenta que o empregado que sofrer assédio deve denunciar o caso ao Sindicato. “É preciso dar um basta aos abusos que vêm acontecendo na Caixa para que situações como essa não se repitam”, sublinha.
O Sindicato dos Bancários/ES registra seu repúdio ao episódio ocorrido no “Dia do Nação Caixa”, em Atibaia. Segundo Rita Lima, o Sindicato está estudando com sua assessoria jurídica as medidas cabíveis que devem ser tomadas contra a direção da Caixa.

