Pedro Guimarães reafirma decisão de fatiar a Caixa

26/10/2019 18:01

Em agenda no ES nessa sexta, 25, Pedro Guimarães se reuniu com representantes do Sindicato. Foram tratadas com o presidente, além da ameaça à privatização, Saúde Caixa, assédio moral, condições de trabalho, entre outras pautas

Nessa sexta-feira, 25, o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, cumpriu agenda no Espírito Santo para o lançamento do programa Caixa Mais Brasil – linhas de crédito com condições especiais para pessoas físicas e jurídicas. No final da tarde, o Sindicato dos Bancários/ES “montou plantão” em frente à sede Administrativa do banco, no Centro de Vitória, pleiteando uma agenda com o presidente.

No início da noite, as representantes do Sindicato foram recebidas, num primeiro momento, pelo vice-presidente do banco, Roney de Oliveira Granemann, que ficou incumbido de discutir previamente as pautas com as três diretoras sindicais presentes à reunião: Rita Lima, Lizandre Borges e Renata Garcia. Foram colocadas em pauta questões como as condições de trabalho das Pessoas com Deficiência (PCDs) e a extensão do Saúde Caixa a esses novos empregados; denúncias de assédio moral; a promoção de 2019 e o abono das faltas relativo à greve geral; a contração dos concursados e as condições de trabalho dos empregados da Caixa no ES. As dirigentes sindicais criticaram, principalmente, o fatiamento do banco com a venda de subsidiárias como um passo, mesmo que parcial, em direção à privatização da Caixa.

Após uma hora de conversa com Roney, o presidente da Caixa, logo que se sentou à mesa de reunião, também por uma hora, fez questão de antecipar que se considerava um quadro técnico e não político do governo. Guimarães queria sublinhar que a gestão do maior banco público da América Latina não era mais usada como “moeda de troca” política.

As representantes do Sindicato afirmaram a Guimarães que o propósito da reunião não era conhecer o balanço da sua gestão, mas discutir o compromisso dele com a Caixa 100% pública. “Ficou claro a intenção do presidente em seguir com o processo de fatiamento de banco que, na visão dele, não é privatização”, apontou Lizandre. Quanto ao FGTS, o presidente assumiu o compromisso de defender a permanência do fundo na Caixa.

Ao final da reunião, as representantes entregaram uma carta aberta ao presidente (veja no final do texto), ressaltando a importância social do banco e cobrando o compromisso dele com a Caixa 100% pública.

Veja a seguir os principais pontos discutidos nas reuniões:

Fantasma da privatização
Os planos da Caixa de intensificar as ofertas públicas iniciais de ações (IPOs) de suas subsidiárias, a partir de 2020, foi outro tema tratado na reunião. Na carta entregue a Guimarães, o Sindicato faz a defesa da Caixa 100% pública e critica as iniciativas da atual gestão de fatiar o banco. “Entendemos esse fatiamento da Caixa como um processo de privatização, mesmo que parcial. A Caixa e suas subsidiárias são lucrativas. Por que os bancos privados podem ter empresas e a Caixa não? A Caixa está entregando de mãos beijadas ao mercado uma fatia lucrativa do banco. A Caixa tem um papel social que nenhum outro banco tem”, advertiu Rita.

Saúde Caixa
O Sindibancários reafirmou a preocupação dos empregados com as recorrentes ameaças que põem em risco a sustentabilidade do Saúde Caixa. Rita Lima deu como exemplo a situação dos 74 novos funcionários (Pessoas com Deficiência – PCDs) que ingressaram recentemente nos postos de trabalho da Caixa no ES e não foram incluídas no plano de assistência de autogestão do banco. Lizandre Borges destacou que a tabela de reembolso proposta pela Caixa (que oferece como alternativa a esses novos empregados a adesão a planos privados do mercado) é completamente descontextualizada da realidade dos preços praticados pelo mercado capixaba de operadoras de saúde. Ela apresentou exemplos para mostrar que a diferença do valor da mensalidade cobrada pelas empresas de saúde do ES chegava a ser mais que o dobro em comparação a outros estados. “Isso torna a contratação desses planos privados inviável. A maioria pode acabar ficando sem cobertura”, lamentou Lizandre.

Roney reconheceu que a tabela de reembolso ficou muito baixa. “Esse não é o melhor dos mundos, mas foi o que conseguimos aprovar”, justificou. Pedro Guimarães assegurou que não desistiu dessa pauta e que sua meta é manter o plano em pé para estender o Saúde Caixa para todos.

“Para nós ficou claro que a intenção do banco é fazer a extensão do Saúde Caixa para os novos funcionários a partir da aplicação da CGPAR23 para todos os empregados da Caixa. O que evidentemente não aceitamos. Queremos o Saúde Caixa para Todos, como está hoje”, reafirmou Rita Lima.

Assédio Moral
A diretora sindical, Renata Garcia, levou ao conhecimento do presidente os casos de assédio moral que têm sido recorrentes no banco. Ela enfatizou que a maioria desses casos não é de responsabilidade dos gerentes das agências, mas da própria política institucional do banco, que tem cortado postos de trabalho e aumentado a cobrança por resultados. Lizandre complementou que há um número crescente de funcionários adoecendo, que precisam recorrer a medicamentos controlados por causa do estresse.

Guimarães pediu ao vice-presidente que os casos sejam imediatamente apurados pelo banco. “Isso é inaceitável”, disse.

Condições de trabalho
“As agências muitas vezes ficam sujas, os banheiros intransitáveis. Falta até papel higiênico. Os empregados, muitas vezes, têm sido obrigados a comprar o material de limpeza e higiene porque o banco não repõe imediatamente e em quantidade suficiente os estoques”, relatou Renata. Na avaliação do Sindicato, a própria política de metas e resultados impede que problemas como esse sejam facilmente resolvidos, por não serem considerados prioridade para o banco. A diretora Lizandre afirmou ainda que os problemas de higiene e limpeza, que afetam as condições de trabalho do empregado e o bem-estar dos clientes, começaram a se agravar com a mudança do regime e critérios de contratação das terceirizadas, uma vez que o número de trabalhadores passou a ser definido por metro quadrado. “As empresas terceirizadas foram contratadas com jornadas reduzidas e número inferior de funcionários. O resultado é que as profissionais de limpeza não dão conta de fazer todo o serviço”, afirmou Lizandre.

O presidente classificou como inadmissível o problema. E prometeu adotar medidas para solucioná-lo. “Sem papel higiênico não dá, né”, ironizou.

Ainda dentro do tema condições de trabalho, o Sindibancários/ES chamou a atenção para a situação do PCDs recém-contratados pelo banco. Rita Lima disse que os novos empregados têm enfrentado dificuldade no dia a dia, porque as agências não estavam preparadas para recebê-los.

Roney admitiu que a Caixa realmente está enfrentando esse problema em todo o país com os dois mil empregados que ingressaram no banco. No entanto, ele ponderou que as providências estão sendo tomadas para solucionar os problemas e melhorar as condições de trabalho dos novos empregados.

Rita Lima cobrou do presidente o veto do banco à presença dos sindicatos e das APCEFs nos cursos de ambientação dos novos empregados, que sempre foi uma tradição. “Esse espaço sempre foi aberto para o Sindicato conversar com os novos empregados sobre seus direitos. Não entendemos o motivo do veto”, questionou.

Guimarães reconhece que poderia ter sido diferente, mas foi lacônico ao dizer que o banco atravessava “um momento delicado…”. Ele se comprometeu em rever essa restrição para as próximas contratações, quando houver.

Pedro Guimarães, que se disse um homem de diálogo, afirmou que gostaria de continuar conversando com o Sindicato.

As representantes do Sindibancários/ES avaliaram que foi importante ter aberto o espaço para colocar em discussão pautas importantes para os empregados da Caixa, mas, ao mesmo tempo, consideraram frustrante o posicionamento do presidente sobre a ameaça de privatização do banco. “Não era o que queríamos ouvir. Nossa expectativa era que ele firmasse o compromisso com a Caixa 100% pública e cancelasse os leilões das subsidiárias que, como ele mesmo admitiu, é irreversível”, disse Rita Lima.