A última reunião (19/06) do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central confirmou o esperado: a manutenção da taxa Selic em 10,50% ao ano. Com a decisão, descontando a inflação de de 3,71%, a taxa real de juros da economia fica em 6,79% – a segunda maior no ranking de 40 países (gráfico abaixo). Talvez o trabalhador que não está tão familiarizado com termos como Selic, Copom, autoridade monetária, BC independente, taxa real de juros e outros vocábulos do economês mais erudito, se pergunte por que raios o presidente Lula declarou guerra a Roberto Campos Neto. Para Lula, a decisão do presidente do BC de manter a Selic nas alturas tem viés político e ideológico e impede o crescimento econômico do país. Campos Neto foi indicado por Bolsonaro e permanece à frente do BC até 31 de dezembro deste ano.

Para entender por que Lula está tão insatisfeito com Campos Neto, é preciso entender primeiro como a Selic afeta o dia a dia do brasileiro. Quem entrar num banco para pedir dinheiro emprestado, financiar um carro ou um imóvel vai pagar mais caro. Se para essas modalidades de financiamentos os juros já são altíssimos, o consumidor que recorrer ao cartão de crédito rotativo verá que o céu é o limite. Segundo o BC (dados de junho), a taxa de juros do Bradesco para o rotativo do cartão de crédito está em 390%; Santander 391%.
A taxa elevada de juros não afeta somente a pessoa física, os empresários também são obrigados a girar na ciranda dos juros altos. Quem pretende investir para ampliar seu negócio terá que encarar uma taxa média de juros de 60%. O dirigente do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional dos Bancários, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), diz que a taxa de juros alta beneficia exclusivamente a especulação no setor financeiro e prejudica os empresários que querem produzir e gerar emprego e renda. “Os bancos, as operadoras de crédito, as agências de investimentos se esbaldam com a segunda maior taxa de juros real do mundo. Pudera, o Brasil é o paraíso dos juros altos, só fica atrás da Rússia. De outro lado, a maioria esmagadora da população é penalizada por essa Selic imoral. A taxa de juros alta é inimiga da geração de empregos e, por tabela, da classe trabalhadora. Com o crédito mais caro, os empresários deixam de investir e, consequentemente, freiam as contratações. Sem contar que essa asfixia nos investimentos provocada pela alta taxa de juros, muitas vezes, resulta em demissões”, adverte Carlão.
São os micros e pequenos empresários que geram mais empregos no Brasil. Nos quatro primeiros meses de 2024, foram registradas 958.425 novas contratações no país. As micro e pequenas empresas respondem por 61% dessas vagas. São justamente os micros e pequenos o elo mais frágil da cadeia empresarial. São os primeiros a converter a queda do consumo em demissões. Mas o efeito devastador da Selic não para por aí. Sem renda, o trabalhador reduz o consumo, a roda da economia gira mais lentamente ou chega a travar em alguns setores. “A taxa de juros alta, que leva à retração da economia, também flerta com a pobreza. Não podemos deixar Campos Neto fazer o país retroceder nesse quesito”, sublinha o diretor.
O governo Lula conseguiu aumentar a renda do brasileiro em 2023. Essa alta reduziu a pobreza extrema a 8,3% – nível mais baixo da série histórica, que começou a ser medida a partir de 2012. No final do ano passado, havia 16,8 milhões de pessoas vivendo com rendimentos médios mensais abaixo de R$ 300. Sob Bolsonaro, em 2021, esse índice chegou a 14% (Fonte: FGV Social/CPS a partir dos dados da PnadC/2023 do IBGE).
Mas a quem interessa a Selic nas alturas?
Enquanto a maioria da população brasileira padece com o crédito mais caro, a nata que ocupa o topo da pirâmide social, que vive da especulação financeira sem precisar produzir um parafuso ou gerar um único emprego, torce para que a Selic se mantenha alta para que possam multiplicar mais rapidamente suas fortunas. É sempre oportuno lembrar que o Brasil lidera o ranking mundial de concentração de riqueza. Segundo dados da Global Wealth Report (2023), 1% da população brasileira concentra 48,4% da riqueza (gráfico abaixo).

“Em números, os dados apontam que cerca de dois milhões de abastados têm nas mãos quase metade de toda a riqueza do país. Agiu corretamente o presidente Lula ao criticar publicamente a política monetária do BC e declarar guerra a Campos Neto. A pergunta que todos nós fazemos é a seguinte: a dita autonomia do BC está servindo exatamente a quem? A resposta está aí para todo mundo ver: a essa elite que ocupa o topo da pirâmide”, critica o dirigente.
Eixo da Conferência Nacional
Carlão afirma que os impactos da Selic são tão determinantes para a classe trabalhadora, que o tema está entre os eixos da pauta de reivindicações aprovada na 26ª Conferência Nacional dos Bancários. A categoria bancária pede a redução da taxa de juros para induzir o crescimento econômico e geração de emprego e renda. “As centrais sindicais estão mobilizadas contra a política monetária do Banco Central que retrai o crescimento econômico e geração de emprego e renda. Essa é uma pauta de toda a classe trabalhadora. Basta de juros altos. Fora Campos Neto!”.
(Foto capa: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

