Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Desde o início do atual Governo, as elites empresariais e a grande imprensa, em sua maioria, procuraram separar Bolsonaro de Paulo Guedes. Aprenderam a engolir os rompantes reacionários do presidente e a incentivar a agenda de reformas prometida pelo ministro da Economia. A dissociação que sempre pareceu utópica se tornou impossível com a pandemia. O boletim de conjuntura do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que a inépcia do Governo em relação à pandemia, além de aprofundar o caos sanitário, traz impactos econômicos para o país.

De acordo com o estudo, os países que agiram a partir de preceitos científicos e com planejamento público e adotaram procedimentos como testagem e vacinação em massa, lockdown seletivo aliado a estímulos fiscais consistentes e efetivos, a economia caminha para a recuperação em 2021, ao mesmo tempo em que caem as taxas de mortalidade.

O Brasil, afirma a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, segue na contramão dos países que abraçaram a ciência e estão vendo a pandemia arrefecer e a economia reagir. “A política necroliberal de Bolsonaro já abriu quase meio milhão de covas para enterrar as vítimas da covid-19”, critica.

A dirigente destaca que desde o início da pandemia Bolsonaro se posicionou contra o isolamento social, alegando que o lockdown traria prejuízos à economia. “Não salvou nem as vidas, nem a economia. Não bastasse, Bolsonaro empurrou o Brasil para o final da fila mundial da vacina, e ainda impôs um placebo, a hidroxicloroquina, como passaporte para a população ir para as ruas e enfrentar o vírus com a cara e a coragem. Resultado: o Brasil responde por quase 13% das 3,6 milhões de vítimas mundiais da covid; o desemprego e a inflação batem recordes e milhares de brasileiros e brasileiras engrossam as estatísticas da miséria, como aponta o estudo do Dieese”.

Negligência

Segundo o Dieese, o Governo Federal nada fez para prevenir o contágio e a propagação do vírus: não realizou a testagem em massa, não restringiu atividades e nem mesmo comprou vacinas. Em relação à imunização, o país chegou a rejeitar a compra de um lote de 100 milhões de doses de vacinas em 2020. O Brasil, que representa cerca de 3% da população mundial, virou, juntamente com a Índia, o epicentro da pandemia. Segundo estimativas do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME, na sigla em inglês), da Universidade de Washington, “os números reais, somadas as subnotificações, são significativamente piores”, o que demonstra que o país pode alcançar meio milhão de mortos por covid-19 ainda no primeiro semestre de 2021.

Aumento da pobreza

As medidas sanitárias e emergenciais para mitigar os impactos da pandemia são lentas, tardias e, atualmente, menos efetivas do que as tomadas no ano passado, aponta o boletim do Dieese. Segundo estimativa do Made (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades), da Universidade de São Paulo (USP), a redução do auxílio emergencial elevará a quantidade de pessoas pobres e extremamente pobres no Brasil. Os pobres, estimados em 61,1 milhões de pessoas, terão que sobreviver com R$ 15,63, e os extremamente pobres, 19,3 milhões de pessoas, com R$ 5,40. Essa população supera o número de ocupados no Brasil. O gasto médio diário do Executivo Federal no combate à pandemia de covid, nos primeiros 100 dias de 2021, equivale a modestos 8,3% do gasto médio diário do ano passado.

“Mesmo antes da pandemia, este Governo já havia eleito a classe trabalhadora como seu principal alvo. A pandemia apenas deixou esses ataques mais evidentes. O auxílio emergencial retornou tardiamente e com valores irrisórios [R$ 150 a R$ 350]. O maior valor (R$ 350), segundo o Dieese, equivale a pouco mais de 55% do custo de uma cesta básica suficiente para alimentar uma pessoa adulta por um mês numa capital. Os segmentos mais vulneráveis da população estão passando fome na rua, sem-teto, porque Bolsonaro também destruiu o programa de moradia popular”, assinala Rita Lima.

O Governo Federal, segundo o Dieese, cortou a verba destinada à continuidade das obras da Faixa 1 do programa “Casa Verde e Amarela” (antigo “Minha Casa, Minha Vida”), cujo orçamento, inicialmente previsto pelo Congresso Nacional (R$ 1,540 bilhão) foi praticamente zerado: caiu para R$ 27 milhões – redução de 98,2%.

Inflação e perda do poder de compra

Em abril, de acordo com o boletim, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IPCA-IBGE), indicador oficial da inflação, registrou alta de 0,31%, com desaceleração em relação a março (0,93%). De janeiro a abril de 2021, a inflação acumulada atingiu 2,37% e, nos últimos 12 meses, 6,76%. Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, oito tiveram alta em abril. A maior alta ocorreu no grupo “Saúde e cuidados pessoais”, com taxa de 1,19%, a que mais teve impacto sobre o índice. O grupo “Alimentação e Bebidas” apresentou a quarta maior alta (0,40%).

Espírito Santo

Os impactos da crise econômica são evidentes no Espírito Santo. Segundo dados do Instituto Jones dos Santos Neves (IPJN), a atividade industrial capixaba registrou a pior variação (-14,1%) no comparativo com as outras unidades federativas no acumulado dos últimos 12 meses (atualizado até fevereiro). O setor de serviços também apresentou queda de -6,6% no período. O pior resultado foi registrado na atividade turística (-39,7%). Puxado pelos supermercados e equipamentos de escritório e informática (provavelmente por causa do home office), o setor varejista foi o único que escapou dos resultados negativos, registrando 10,6% de variação no acumulado de 12 meses.

A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada mensalmente pelo Dieese captou a variação de preços de 13 produtos alimentícios. Entre março e abril de 2021, o custo médio da cesta aumentou em 15 cidades e diminuiu em outras duas. Vitória ficou com a terceira maior alta: 2,36%.

“Os números mostram que a economia do Espírito Santo, a exemplo de outros estados, também padece com a pandemia. Mas aqui, também seguindo a tendência da maioria dos estados, o governador priorizou a economia em detrimento das vidas”.

Rita Lima recorda que, desde o início da pandemia, o Sindicato, sempre se balizando pela ciência, reivindicou ao governador a adoção do lockdown para conter as transmissões, o colapso do sistema de saúde e, consequentemente, reduzir as mortes. “Mas o governador deixou a ciência de lado e cedeu à pressão das elites empresariais, que sempre foram contra o isolamento”.

Segundo a coordenadora-geral do Sindicato, assim como a crise econômica, os números da pandemia no Espírito Santo revelam que o Governo do Estado fracassou nas duas frentes: sanitária e econômica. “Com mais de 10.800 mortes, somos o sexto estado do país em óbitos por 100 mil habitantes. Em abril vimos as curvas de casos e mortes irem às alturas, ao mesmo tempo em que o sistema de saúde colapsava pressionado pelas taxas de ocupação das UTIs acima de 94%. Mesmo em meio a esse caos, o governador resistiu em decretar lockdown e optou pela chamada quarentena, mais flexível, para atender, mais uma vez, à demanda dos empresários”, critica Rita Lima.

Bancos não conhecem crises

O boletim do Diesse chama atenção para o papel fundamental que o crédito tem na economia, sobretudo neste momento em que a recuperação da atividade é tão urgente. Contudo, mesmo com a taxa básica de juros fixada em 3,5% ao ano – patamar historicamente baixo, para padrões brasileiros -, os juros oriundos de empréstimos com recursos livres continuam exorbitantes. Empréstimos livres, explica o Dieese, são aqueles cujas taxas são definidas livremente entre os bancos e os consumidores, em geral, que incluem, entre outros, o cheque especial, o empréstimo consignado, o rotativo do cartão de crédito e o financiamento de veículos. Em março de 2021, a taxa de juros média para empréstimos com recursos livres foi de 33,7% ao ano (a.a.). Para crédito consignado, ficou em 18,9% a.a. em média; para os não consignados, chegou a 87,3% a.a. em média; e, para o rotativo do cartão, alcançou 121% a.a. em média.

“Esses números revelam a indiferença do setor financeiro com as crises sanitária e econômica. Não há responsabilidade social dos bancos nem com os clientes e tampouco com os bancários e as bancárias. Em plena pandemia, os bancos demitiram (2020) mais de 12 mil trabalhadores. ‘Ah, mas os bancos também sofrerão os reveses da pandemia e tiveram que fazer cortes?’ Longe disso. Os bancos não conhecem crises”. A dirigente lembra que em 2020, os cinco maiores bancos do país (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa) lucraram mais de R$ 79 bilhões.

Os cinco gigantes, no primeiro trimestre deste ano, que também coincidiu com o período mais letal da pandemia, registraram, somados, R$ 26,4 bilhões de lucro. “O resultado do primeiro trimestre já nos dá uma pista do que será o ano de 2021 para os bancos. Como disse, a crise nunca chega para os bancos”.

6 milhões de desalentados

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), do IBGE, o número de desempregados no Brasil atingiu 14,4 milhões de pessoas no trimestre encerrado em fevereiro de 2021. Eram 2,4 milhões de pessoas desocupadas a mais do que no trimestre encerrado em fevereiro do ano passado. Trata-se do maior contingente de desocupados desde 2012, início da série histórica da pesquisa, divulgada em 30 de abril, pelo IBGE.

Ainda com base nos dados da Pnad-C, o Dieese aponta que a população desalentada (falta de expectativa de obter trabalho no momento, doença, falta de dinheiro etc.) alcançou perto de seis milhões de pessoas, maior patamar da série histórica da pesquisa. No confronto com o mesmo período do ano passado, houve acréscimo de 25,6%, ou 1,2 milhão de pessoas a mais nessa situação de desalento.

Havia 29,7 milhões de empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado. A taxa de informalidade atingiu 39,6% da população ocupada. O número de informais chegou a 34 milhões de trabalhadores. No trimestre anterior, a taxa havia ficado em 39,1% e, no mesmo trimestre de 2020, em 40,6%.

Negociações coletivas

A estagnação da atividade econômica, a alta inflação de alimentos, o desemprego elevado e a queda no número de greves, destaca o Dieese, repercutiram nas negociações coletivas, que revelaram alto percentual de reajustes abaixo da inflação (63,9%), na comparação com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC-IBGE).

O percentual de reajustes iguais ao INPC cresceu cerca de 15 pontos percentuais (p.p.) em relação à data-base de fevereiro, passando de 11,7% para 26,5%; já os reajustes acima desse índice caíram cerca de 14 p.p. (de 23,5% para 9,3%). Até o momento, a distribuição dos reajustes salariais de 2021, em comparação com o INPC, está assim: 13% acima, 26% iguais e 61% abaixo da inflação em 12 meses, na data-base.

Rita Lima diz que essa conjuntura exposta no boletim do Dieese é o retrato da opressão que vem sofrendo a classe trabalhadora sob Bolsonaro. “Essa opressão, que ganhou contornos dramáticos com a pandemia, aprofundou ainda mais o fosso da desigualdade social no Brasil. Quando analisamos esses dados temos a convicção de que a volta às ruas no último dia 29 era urgente. É só com luta que vamos neutralizar esses ataques à classe trabalhadora e transformar essa realidade. Por isso os movimentos sindicais, estudantis, populares e partidos políticos já planejam um novo ato para reafirmamos a mesma pauta: Fora Bolsonaro-Mourão; Vacina Já para todos e todas; auxílio emergencial de R$ 600; não à reforma administrativa, não às privatizações e o fim da violência policial”.

(Foto capa: Tânia Rego/Agência Brasil)