Novaes diz que venda do BB foi descartada por Bolsonaro

11/12/2019 17:46

Em audiência pública na Câmara, o presidente do BB, Rubens Novaes, deu explicações contraditórias sobre a privatização do banco. Ele reafirmou que é favorável à venda, mas que o presidente é contra

Durante cerca de três horas, em audiência pública na Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara, nessa terça-feira, 10, o presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, deu explicações sobre os rumores que circulavam no mercado e na imprensa de que o banco estava sendo preparado para a venda. Novaes admitiu que continua sendo um defensor inveterado da privatização do banco, mas disse que o presidente Bolsonaro “puxou sua orelha” e se manifestou contrário à venda. “Podemos ficar aqui discutindo durante horas a privatização do banco, mas sempre em tese, porque esse assunto já está encerrado. O presidente é contra”, reafirmou.

As explicações de Novaes foram necessárias para desfazer os rumores que ele mesmo criou afirmando ser favorável à privatização do banco. Nas últimas semanas essas declarações ganharam grande repercussão na imprensa (inclusive repercutida por este site) e mexeram com o mercado. Na audiência, a fala de Novaes se resumiu em reafirmar que o assunto privatização estava encerrado, mas, de forma contraditória, ele enalteceu o tempo todo as vantagens da privatização. Novaes deu exemplos de empresas públicas que cresceram após a privatização. “Tudo que se diz contra a privatização é equivocado”.

Em resposta a um dos deputados que participavam da audiência, ele justificou a declaração na qual afirmou que a “empresa pública tem uma bola de ferro no pé”, que a impede de ser competitiva. Novaes citou o fato de ter perdido recentemente cerca de 50 executivos de ponta, que, segundo ele, teriam deixado o BB e migrado para os bancos privados. “Eles [bancos privados] levaram e eu não pude fazer nada”, disse como exemplo de limitação da empresa pública.

Para o diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Thiago Duda, as explicações de Rubem Novaes foram repletas de contradições. “Se o presidente do BB diz ser contra o modelo de gestão pública, que só a gestão privada dá resultados, por que ele ainda permanece à frente do banco público. Se ele não acredita na empresa pública, que volte para o setor privado”, afirmou.

Duda também analisa com reservas as declarações de Novaes descartando a privatização do banco. O dirigente sindical lembrou que o Supremo Tribunal Federal retirou a obrigatoriedade de as privatizações de empresas subsidiárias passarem pela aprovação do Congresso Nacional. “Isso nos preocupa. Com essa veia privatista pulsante, é completamente possível que amanhã Novaes anuncie a venda de subsidiárias do banco. Se vender a DTVM, a BB Seguridade e a BB Tecnologia, praticamente ele acaba com o banco”, advertiu Duda.

Segundo o dirigente sindical, entregando essas subsidiárias à iniciativa privada, o banco se encolhe no mercado porque perde sua capacidade de financiar crédito. “Sem essas subsidiárias, o BB seria facilmente engolido pelos grandes bancos privados, que estão ansiosos para morderem os ativos de bancos públicos como BB e a Caixa. Dessa maneira, o presidente Bolsonaro poderia manter seu discurso de que não vendeu a ‘empresa-matriz’. De fato o banco continuaria público, mas ficaria todo fatiado, ou seja, a parte que vale já teria passado para mãos dos bancos privados, que passariam a usar os bancos públicos, assumindo o papel de regulares do mercado. Função que hoje é exercida pelo BB, Caixa, BNDES e pelo próprio Banco Central”, criticou.

A audiência pública, proposta pela deputada Érika Kokay, foi conduzida pela deputada Professora Marcivânia. Além do presidente do BB, Rubem Novaes, compuseram a mesa Mariel Lopes, representante do DIEESE e Reynaldo Fugimoto, presidente da ANABB. Deputados de diversos partidos participaram da audiência.

Veja algumas “pérolas” de Rubem Novaes durante a audiência pública

Fugimoto (ANABB): “Um líder de uma empresa afirmar que é a favor da privatização […] é uma desmotivação a todo o corpo funcional do BB”.
Rubem Novaes disse que a notícia sobre privatização, ao contrário, valoriza as ações da empresa na bolsa. Ele citou como exemplo a Eletrobrás. Disse ainda que a “motivação dos empregados do BB está no ponto mais alto. O grosso do funcionalismo está satisfeito com a minha gestão”.

“O presidente Bolsonaro deixou claro que não iria privatizar e me deu um puxão de orelha. Do meu ponto de vista seria vantajoso para o BB, mas nós estaríamos chovendo no molhado porque a decisão está tomada”.

Novaes enfatizou que quando se fala em privatização, se cogita em pulverizar mais o capital do banco de forma que o Estado não chegue a ter 50%, o que na sua visão, daria uma série de flexibilidade à instituição.

“Essa história de que o banco seria vendido para uma grande empresa estrangeira nunca passou pela minha cabeça. Fantasia total”. Embora tenha chamado de “fantasia” a aproximação com grandes bancos, seja no sentido de privatizar ou de estabelecer fusões, o ministro de Economia Paulo Guedes, também entusiasta da terceirização do BB, fez a seguinte declaração em maio deste ano: “Vamos procurar fazer uma fusão entre o Banco do Brasil e o Bank of America. São bancos bons para empréstimos agrícolas. Já fizemos uma nova relação entre a Embraer e Boeing. Vamos construir empresas transnacionais”, disse Guedes.

“Bancos estatais ficaram com todos os ônus e perderam todos os bônus de ser estatais. Essa que é a realidade”, disse Novaes, mais uma vez insistindo na tese que banco público é inviável.

Questionado pela deputada Érika Kokay sobre mensagens misóginas que ele teria postado nas redes sociais, Novaes respondeu com ironia. A deputada deu como exemplo uma das postagens em que presidente do BB diz que o “tablete da mulher é uma tábua de carne”,

Novaes disse que foram piadas que recebeu de amigos e replicou nas redes sociais. “Tudo bobagem”, desdenhou.