Representantes do Comando Nacional dos Bancários e da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) se reuniram nessa segunda-feira, 19, para o lançamento do Programa Nacional de Prevenção à Violência contra as Mulheres. A iniciativa tem o propósito de conscientizar a sociedade, especialmente as bancárias e os bancários no ambiente de trabalho, sobre o combate à violência de gênero.
A luta por igualdade de oportunidades entre homens e mulheres sempre esteve entre as bandeiras de luta das mulheres bancárias. Na virada do século XXI, o tema esteve presente nas mesas de negociação com os bancos e se transformou em conquista. Nessas mais de duas décadas o movimento sindical seguiu firme na luta pela igualdade de gênero e no combate e prevenção à violência contra as mulheres.
Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Bethânia Emerick, o Programa de Prevenção à Violência de Gênero é uma ótima iniciativa e se soma a outras conquistas que a categoria vem acumulando ao longo dos anos. “Mas temos consciência de que precisamos fazer muito mais. Ainda convivemos com índices de feminicídio e violência contra a mulher inaceitáveis em nosso país e, especialmente no nosso estado, Espírito Santo”, aponta.
Uma mulher morta a cada 6h
A dirigente destaca que em 2022 o Brasil bateu recorde de feminicídio, com uma mulher morta a cada seis horas. Ela se refere ao levantamento feito pelo portal G1, que compilou dados dos 26 estados e do Distrito Federal. Segundo o levantamento, 1,4 mil mulheres foram mortas simplesmente pelo fato de serem mulheres. Este número é o maior registrado no país desde que a lei de feminicídio entrou em vigor, em 2015.
O Espírito Santo tem uma taxa de homicídios de mulheres de 4,4 assassinatos para cada grupo de 100 mil. A média nacional ficou em 3,6 (2022). Com relação à taxa de feminicídio – homicídio cometido contra mulheres que é motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero – a taxa do estado capixaba por 100 mil ficou em 1,5, também superior à média nacional, que foi de 1,3.
“Observando esses dados, temos a certeza de que a discussão sobre o combate à violência precisa ser pautada com frequência. É imperativo debatermos esse assunto para que consigamos avançar em conquistas para construirmos o Brasil que sonhamos, com cidadãos de comportamentos sadios e conscientes do direito da mulher de existir e viver sem violência. Não há como relegar esse problema ao âmbito pessoal, temos que discutir publicamente essa questão. Não podemos normalizar a violência”, afirma Bethânia.
Políticas públicas
Na mesa “Igualdade das mulheres na sociedade”, a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, que participou virtualmente do lançamento, destacou a retomada de uma série de políticas públicas direcionadas, especialmente, para combater a desigualdade social entre homens e mulheres e a violência de gênero, com destaque para o projeto de lei, enviado pelo governo Lula ao Congresso, que determinada igualdade salarial entre homens e mulheres. “A diferença desta lei, em relação ao que tínhamos até hoje, pela CLT, é que ela determina quem fiscaliza e a aplicação de multa para as empresas que não cumprirem a legislação”, pontuou a ministra.
ONGs
Na mesa “Iniciativas de negociação nacional do movimento sindical e os bancos para a sociedade, bancárias e bancários”, representantes das três organizações não-governamentais (ONGs) Papo de Homem, Me Too Brasil e IMP Instituto Maria da Penha, apresentaram suas propostas de trabalho. As entidades foram contratadas pelos bancos para responder às demandas do movimento sindical, inseridas na Convenção Coletiva de Trabalho (CCT).
Ana Addobbati, do Instituto Maria da Penha, ressaltou que o papel da entidade é atuar com embaixadoras e embaixadores voluntários em escolas e empresas, para conscientizar sobre a violência e como combatê-la, “em uma linguagem que todos entendam”.
Marina Ganzarolli, presidenta da Me Too Brasil, destacou que a organização trabalha diretamente com mulheres e homens vítimas de violência sexual, incluindo assistência psicológica. A entidade também atua na linha da prevenção, dando ferramentas para a identificação de relacionamentos abusivos e caminhos para construir interações saudáveis.
Já Marina Moreira, coordenadora do Instituto Papo de Homem (PDH), explicou que a ONG tem como foco desenvolver materiais para conscientizar os homens. “Nossa estratégia é na comunicação. Nos preocupamos em explicar a questão da violência de gênero, que precisa ser combatida, e isso passa pela transformação social do homem, mas com o cuidado para não desconectar com quem precisamos conversar.”, completou.
Entre as ações que as ONGs vão entregar, no âmbito do Programa Nacional de Prevenção à Violência contra as Mulheres, estão treinamentos, cartilhas, um livro, além de palestras em várias regiões do país, voltadas tanto ao público bancário quanto à sociedade civil.
Fosso da desigualdade
Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) mostra que, no mercado de trabalho brasileiro, as mulheres ganham, em média, 21% menos que os homens. Na categoria bancária, a remuneração delas é 22,2% menor que a média dos colegas do sexo masculino. Ao analisar o recorte racial, a desigualdade é ainda mais aprofundada: a remuneração da mulher preta é, em média, 40,6% inferior à remuneração do homem bancário branco.
Bethânia afirma que a luta pela igualdade de oportunidade e contra a violência de gênero é coletiva. “Como sociedade, devemos nos posicionar e nos educar para combater a violência de gênero, inclusive conhecendo as suas diversas nuances para que possamos identificá-la e repeli-la nas suas formas mais sutis”, sublinha a dirigente do Sindibancários/ES.
Avanços da categoria:
Inclusão do tema Igualdade de Oportunidades / Diversidade na CCT, em 2000
Comissão Bipartite de Igualdade de Oportunidades / Diversidade, constituída em 2001
Construção coletiva sobre o Programa de Valorização da Diversidade, em 2006
Programa de Valorização da Diversidade, instituído em 2007
Censo da Diversidade 2008
Censo da Diversidade 2014
Censo da Diversidade 2019
Destaques:
11.03.2020 – Assinatura de CCT Aditiva, dispondo sobre a Prevenção à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, para as bancárias, prevendo:
Comunicado interno sobre os tipos de violência
Disponibilização de canal apoio para acolhimento da bancária vítima de violência doméstica e familiar
Possibilidade, a critério do banco, de realocação para outra dependência, oferta de linha de crédito/financiamento especial e alternância de horários de entrada e saída;
04.09.2020 – Inclusão, na CCT Data-Base, das cláusulas de Prevenção à Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher;
01.09.2022 – Negociação coletiva sobre iniciativas voltadas à sociedade para conscientização da Prevenção à Violência Contra a Mulher.
Reforço às iniciativas dirigidas às bancárias e aos bancários:
Entidades Sindicais – Treinamento para representantes indicados pelas entidades sindicais signatárias da CCT; e
Grupos Técnicos de Diversidade – Consultoria e aconselhamento sobre o tema, aos integrantes dos grupos de diversidade da Fenaban do Movimento Sindical Bancário.
As ações de conscientização da sociedade, em todas as regiões do país, contarão com a atuação das ONGs, das 453 mil bancárias e bancários, das 237 entidades sindicais que agrupam 5 mil dirigentes sindicais, e dos 172 bancos.
(Foto capa: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)
Com informações da Contraf









