Os mais de 85 mil empregados da Caixa que conferiram o extrato bancário na manhã desta sexta-feira, 24, devem ter ficado decepcionados com o valor da 2ª parcela da Participação nos Lucros ou Resultados, a popular PLR. A decepção coincide com o anúncio do resultado apurado pela Caixa no 4º trimestre de 2022. O lucro de R$ 2,2 bilhões ficou 31,3% abaixo dos R$ 3,2 bilhões registrados no mesmo período de 2021. Essa queda derrubou a projeção de lucro para 2022, estimada em R$ 13,2 bilhões. Com lucro líquido de R$ 9,8 bilhões, a Caixa foi obrigada a fazer ajustes para baixo no valor da PLR. 

Nessa quinta-feira,23, logo após o banco divulgar os resultados, os integrantes da Comissão Executiva de Empregados (CEE-Caixa) se reuniram com a direção da instituição para discutir os impactos da queda do lucro sobre a PLR. Na reunião, a Caixa explicou que os cálculos para o pagamento da PLR levaram em consideração as regras do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) e os limites impostos pela Secretaria de Coordenação das Estatais (Sest). Para reduzir os impactos nos valores da PLR, a Sest ampliou excepcionalmente o limite de dividendos pagos de 25% para 75%. Esse arranjo garantiu que 92% dos empregados recebam mais de R$ 4 mil nesta 2ª parcela da PLR. O valor médio será de R$ 5.137, e o total distribuído nas duas parcelas vai superar R$ 1,2 bilhão, que estão sendo pagos a mais de 85 mil empregados e empregadas da Caixa. 

Devolução
Esse arranjo, no entanto, não alcançou 1.306 empregados, que serão obrigados a devolver valores recebidos antecipadamente. Apesar dos protestos da Comissão de Empregados, a Caixa alegou que não poderia dispensar os empregados da devolução. O banco informou, porém, que a devolução poderá ser parcelada em até 10 vezes.

Para Lizandre Borges, diretora do Sindicato dos Bancários/ES e integrante da CEE, a Caixa não deveria cobrar a devolução dos empregados. “Quem construiu a projeção de lucro foi a Caixa. Se depois esse lucro caiu em cerca de R$ 3,4 bilhões, o empregado não pode pagar essa conta”, critica.

Lizandre reconhece que a queda da PLR não é responsabilidade da atual gestão. “Pedro Guimarães, seguindo a política econômica de pilhagem das empresas públicas idealizadas por Bolsonaro e Paulo Guedes, impôs um processo de desmonte ao banco. Se avaliarmos os resultados da gestão Guimarães, perceberemos que foram todos inflados com venda de ativos”. 

Desmonte
A dirigente lista a abertura de capital da Caixa Seguridade; a alienação de ações do Banco Pan, ganho com conclusão de parcerias da Caixa Seguridade e Caixa Cartões e o lucro na venda de imóveis como exemplos de operações de venda de ativos que mascararam os resultados do banco nos últimos anos. “Agora a conta chegou. Esses ativos que foram rifados por Pedro Guimarães deixam de gerar dividendos para a instituição. O encolhimento dos ativos compromete os investimentos nas políticas sociais do banco, além de ter reflexos, por exemplo, na PLR”, afirma. 

A dirigente acrescenta ainda que em 2022 Pedro Guimarães aceitou transformar a Caixa em “comitê de campanha eleitoral” de Bolsonaro. “Só o empréstimo consignado do Auxílio Brasil, que superou a casa de R$ 8 bilhões, impôs uma provisão gigante ao banco. Esse tipo de operação eleitoreira compromete os resultados do banco, provocando impactos na PLR”, aponta. 

Lucro inflado
À época em que era conselheira da Caixa, Rita Serrano analisou os lucros do banco nos anos de 2019, 2020 e 2021. A atual presidenta do banco explicou, à ocasião, que R$ 7,15 bilhões (41,43%) do lucro de R$ 17,3 bilhões de 2021 eram oriundos de eventos não recorrentes. Essa situação se repetiu nos anos de 2019 e 2020, quando os eventos não recorrentes representaram, respectivamente, 68% e 34% do lucro líquido da Caixa (veja tabela abaixo).

Mais transparência
Lizandre Borges afirma que os empregados devem cobrar transparência da atual gestão. “Informação é sempre vital, e praticamente ficamos às cegas na gestão de Pedro Guimarães. Por exemplo, a PLR Social precisa receber urgentemente uma camada generosa de transparência. Precisamos entender melhor, com mais detalhes, a memória dos cálculos que são considerados para o pagamento da PLR Social. Para cobrarmos com mais propriedade, precisamos antes mergulhar fundo nos dados para compreender esses mecanismos”, sugere a integrante da CEE. 

100% pública
Durante a reunião, a CEE entregou um manifesto em defesa da Caixa 100% pública. Conheça o documento aqui.

Temas e reuniões
A CEE também solicitou a revisão dos indicadores da PLR Social e reforçou a cobrança de novas contratações. As próximas reuniões entre CEE e Caixa ocorrerão nos dias 28 de março (GT caixas e tesoureiros) e 4 de abril (GT condições de Trabalho).