O teletrabalho, trabalho remoto ou home office já fazia parte dos planos de reestruturação dos bancos bem antes da Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciar, no dia 11 de março deste ano, que o vírus Sars-Cov-2 (coronavírus) fora elevado à condição de pandemia. Com a covid contaminando e matando a população mundial em escala logarítmica, o isolamento social, única medida efetiva para conter a propagação do vírus, tornou-se uma questão de sobrevivência.
A nova realidade imposta pela crise sanitária fez os bancos acelerarem o processo de home office. Da noite pro dia, bancários e bancárias levaram literalmente o escritório para casa. Espaços outrora destinados ao convívio e ao lazer familiar passaram a ser ambiente de trabalho, quase uma propriedade dos bancos.
O home office instalado na pressão das curvas do vírus fez com que muitos bancos protelassem a regulamentação do teletrabalho ou apresentassem propostas que não atendessem às reais demandas do trabalhador. “Nas negociações da Campanha Salarial deste ano, a Fenaban alegou ao Comando Nacional que os bancos tinham especificidades e uma regulamentação única para toda a categoria seria inviável. Restou a negociação banco a banco”, afirma o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Fabrício Coelho.
Bradesco
Em setembro, os empregados do Bradesco foram os primeiros a trabalhar em home office com regulamentação. A proposta do banco foi aprovada por 82,61% dos bancários e bancárias do Bradesco no Espírito Santo. “O teletrabalho já estava no plano dos bancos para ser implantado em três ou quatro anos. A pandemia, no entanto, impulsionou esse processo. O isolamento social passou a ser uma necessidade para conter as curvas de crescimento do coronavírus. Os bancos adotaram o modelo, mas muitos ainda não chegaram a um consenso sobre a regulamentação. É estritamente nesse sentido que a regulamentação garantida no acordo com o Bradesco pode ser considerado um avanço”, afirma.
O dirigente pondera que o teletrabalho vai exigir avaliações constantes e serão necessários ajustes. “Temos que acompanhar com atenção para identificarmos as demandas e aprimorarmos o acordo. Mesmo porque, o banco segue cobrando metas cada vez mais intangíveis. Os bancários têm sido vítimas de doenças físicas e mentais provocadas por esse ritmo alucinante de cobrança, que não deixou de ser perverso à distância”, aponta Fabrício.
“Mato alto”

Octavio de Lazari Júnior
Ele acrescenta a esse ambiente de pressão, as demissões, a instabilidade no trabalho e no emprego e os retrocessos na legislação trabalhista como componentes que contribuem para o adoecimento da categoria. Fabrício cita as recentes declarações do presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, que comparou os empregados a “mato alto”.
Durante uma teleconferência, Lazari afirmou que no quarto trimestre deste ano terminaria de “cortar o mato alto”, comparando os empregados que vêm sendo demitidos em massa a um mato indesejável.
“A comparação desrespeitosa revela como os bancos veem seus empregados. Para Lazari, o bancário do Bradesco é comparado a um mato alto, um estorvo, do qual ele quer se livrar com urgência”.
“Empregado-voluntário”
Fabrício recupera também a declaração do presidente do Santander. Em junho deste ano, também durante uma live, Sérgio Rial afirmou que o teletrabalho trazia uma série de vantagens ao empregado e sugeriu: “Se tua vida fica mais fácil até sob o ponto de vista econômico, por que não dividir algumas coisas dessas com a empresa? Por que não pode ser um voluntário com a abdicação de algum benefício, de algum salário?”.
Segundo Rial, o empregado que fizer a opção pelo home office deve encarar o novo modelo de trabalho como uma “abdicação voluntária” de benefícios e parte do salário. “É um acinte o presidente de uma dos maiores bancos do mundo dizer publicamente, sem constrangimento algum, que o home office é um benefício tão grandioso que o empregado deve pagar por ele. São empresários com essa visão que estão planejando e construindo esse novo modelo de trabalho para a categoria bancária. Temos de ficar não com um, mas com os dois pés atrás com essas propostas de regulamentação de teletrabalho que estão sendo apresentadas pelos bancos”, assinala o dirigente.
7,9 milhões em trabalho remoto
Além do Bradesco, Itaú e Banco do Brasil também apresentaram proposta de regulamentação do teletrabalho aos empregados. A proposta do BB foi aceita pelos bancários, já a do Itaú foi rejeitada em assembleia por 92,8% dos empregados do banco no Espírito Santo. As negociações da proposta de teletrabalho sugerida pelo Banestes estão em discussão.
Mesmo os que votaram a favor das propostas de regulamentação, caso dos empregados do Bradesco e BB, as condições impostas pelos bancos não contemplam as demandas e necessidades do trabalhador que está em home office.

Com ou sem regulamentação, 7,9 milhões de brasileiros estão trabalhando em home office no período medido entre 20 e 26 de setembro (Tabela acima). Em junho, na primeira onda da epidemia, esse número esteve próximo de 9 milhões. Segundo o IBGE/Pnad-Covid, desse total, 28,3% dos trabalhadores têm formação superior ou pós-graduação. Esse recorte representa a maior proporção dos trabalhadores em home office; a menor, 0,3%, inclui as pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto.
Privado se mistura com trabalho
A professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Maria Aparecida Bridi, em episódio do podcast da Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (Remir), analisa os impactos do trabalho remoto em meio à pandemia do novo coronavírus a partir de uma pesquisa feita pelo Remir e UFPR. No podcast, a pesquisadora aponta as características “objetivas” do home office, como espaço físico, equipamentos tecnológicos, infraestrutura, tempo de trabalho e jornada ampliada.
Com relação às condições subjetivas que caracterizam essa modalidade de trabalho, a professora da UFPR destaca a dificuldade de o trabalhador em separar sua vida privada da laboral, a partir do momento em que o trabalho se estende para todos os espaços, tornando indivisível o privado do trabalho.
Na direção dos dados do IBGE/Pnad-Covid, a pesquisa feita pelo Remir com 906 trabalhadores em home office apontou que a maioria tinha elevada escolaridade, com formação superior ou acima. A formação acaba sendo um fator determinante para a empresa filtrar quem pode desenvolver a atividade remotamente.
Chamou atenção na pesquisa que apenas 30% dos trabalhadores disseram ter ótimas condições para desenvolver o trabalho em casa. Segundo a professora, a jornada sem limites e a dificuldade de separar o tempo de trabalho e o de não trabalho são alguns dos principais problemas apontados pelos entrevistados em home office. “O teletrabalho impactou ambos os sexos, mas não de maneira igual. As mulheres são mais impactadas, visto que prevalece a desigualdade na divisão do trabalho doméstico e de cuidados, levando as mulheres a jornadas super extensas de trabalho”.
Ainda, segundo a professora Maria Aparecida Bridi, as condições piores têm a ver também com o tipo de vínculo de contrato de trabalho. Ela diz que a desproteção dos trabalhadores sem vínculo formal foi desnudada pela pandemia. “Pode se dizer que esse é um novo marcador de desigualdade que coloca novos desafios para a classe trabalhadora”.









