2020, o ano que insiste em não terminar

28/12/2020 11:04

Retrospectiva 2020: um ano tão inverossímil que parece estar alheio ao pragmatismo ditado pelo tempo

Os dias derradeiros de um ano costumam representar o encerramento de um ciclo e a perspectiva de um novo começo, geralmente, melhor do que aquele prestes a jazer no calendário. Mas 2020 é um ano tão inverossímil que parece estar alheio ao pragmatismo ditado pelo tempo. Suscita-nos uma estranha angústia de que o ano simplesmente não irá sucumbir em 31 de dezembro para dar lugar ao sucessor que nasce com a aurora do primeiro dia de 2021. Nos faz lembrar daquela sensação desesperadora de querer despertar de um pesadelo que insiste em não ter fim. E suplicamos: “Alguém me acorda, por favor!”

Talvez esse sentimento de não vislumbrar o epílogo se explique na certeza de que os infortúnios de 2020 não se encerrarão com o desfecho do ano. Bolsonaro, ao que tudo indica, continuará presidente e seguirá convicto na sua empreitada de impor um cruel massacre à classe trabalhadora e aos segmentos mais vulneráveis da população.

Não bastassem os reveses políticos e econômicos impostos pela cruzada neoliberal, que na virada do ano, com o fim do auxílio emergencial, deve empurrar mais de 17 milhões de brasileiros para a miséria, temos um (re)encontro marcado com a covid logo nos primeiros dias de 2021. O vírus mais letal dos últimos 100 anos, que já varreu do mundo mais 1,7 milhão de vidas – mais de 188 mil só no Brasil – está a postos, como o barqueiro da morte, nos esperando na outra margem do rio.

Nós, brasileiros, além do vírus, temos que lutar para sobreviver à política genocida empreendida pelo mandatário que ocupa o Palácio do Planalto e se regozija com escárnio às mortes. Com um presidente negacionista à frente da pandemia, nossa perspectiva de sentir a agulhada salvadora da vacina se torna cada dia mais distante e os efeitos deletérios da crise sanitária mais prolongados.

Em meio a todas essas mazelas, seria demasiado utópico desenhar a imagem do ano novo, com um esmaecido contorno que fosse, de otimismo. Seria também ingênuo pensar que a simples virada do calendário, como num passe de mágica, seja capaz de levar com ele essa maré tenebrosa que se insurgiu no Brasil com a eleição de Bolsonaro.

Os fatos são inclementes e nos alertam que não teremos vida fácil pela frente. Aliás, o movimento sindical brasileiro nunca teve momentos de calmaria. Longe disso. Da virada do século XX para cá, a estrada tem sido sinuosa e repleta de emboscadas. Mas o Governo Bolsonaro, com sua política neoliberal premeditada para dizimar a classe trabalhadora, nos reserva um confronto apoteótico pela sua dramaticidade: há toda uma história de lutas em jogo. Por isso, não podemos baixar a guarda um só minuto. Precisamos virar o ano entrincheirados, prontos para o confronto iminente.

Entretanto, para nos postarmos no front com chances de vitória, precisaremos nos manter unidos: sindicatos e classe trabalhadora irmanados para proteger as empresas estatais das investidas do projeto privatista empreendido pelo ministro Paulo Guedes. Pelo menos cinco gigantes estão na alça de mira do Governo: Caixa, Banco do Brasil, Eletrobrás, Correios e Petrobras. Ao mesmo tempo, será imperativo nos unirmos para enfrentar os ataques aos direitos e garantias da classe trabalhadora, que seguirão ameaçados por medidas provisórias arbitrárias e especialmente pela reforma administrativa, que já tramita num Congresso pautado pelo lobby das elites financeiros cujo rentismo é o único propósito.

Não por acaso, por representarem uma das derradeiras muralhas de resistência às investidas neoliberais, os sindicatos têm sido o alvo preferencial do Governo Bolsonaro e dos donos do capital. Dentre as estratégias para neutralizar a luta de classes, urge à política neoliberal motivar o ambiente de competição entre os trabalhadores para dividi-los e enfraquecer o coletivo, que se aglutina justamente em torno dos sindicatos.

É oportuno recordar que a organização da classe operária inglesa, no século XIX, como nos ensinou Engels, começa a ser fortificar e a se impor por meio das associações sindicais, que se mostram capazes de quebrar essa competição entre os trabalhadores e fortalecer o proletariado para lutar unido por direitos e garantias comuns. “Essa competição dos trabalhadores entre eles mesmos é o pior lado do atual estado de coisas para o operário, a arma mais afiada contra o proletariado nas mãos da burguesia. Daí o esforço dos trabalhadores de anular esta competição por associações, daí o ódio da burguesia para com essas associações, e seu triunfo a cada derrota sucede a ele”, escreveu Engels em “Situação da Classe Operária Inglesa no século XIX”.

Em 2021 e nos anos que se seguirão, vamos, unidos, à luta! É pela luta que poderemos reescrever essa história e virarmos essa página maldita chamada bolsonarismo. Fora Bolsonaro! Fora Mourão!