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Imagine que os habitantes dos dois mais populosos municípios do Brasil acordem amanhã sem saber se irão comer nas próximas 24 horas. Somadas, as populações de São Paulo e Rio de Janeiro passam de 19 milhões de habitantes. É exatamente esse contingente de pessoas que encaram a fome todos os dias, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil. A pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) fez uma amostra com 2.180 domicílios localizados nas zonas rurais e urbanas de municípios das cinco regiões do Brasil.
O levantamento da Rede Penssan classificou os entrevistados em segurança alimentar, segurança alimentar leve, moderada e grave. Os que disseram não saber se comeriam ao longo de um dia representam esses quase 20 milhões de brasileiros em insegurança alimentar grave (tabela abaixo). Segundo o estudo, eram 10,3 milhões de
pessoas em Insegurança Alimentar (IA) grave em 2018, passando para 19,1 milhões, em 2020. Isso significa que mais de nove milhões de brasileiros e brasileiras entraram para o mapa da fome nos primeiros dois anos do governo Bolsonaro.
Pandemia agravou miséria
De acordo com o estudo, a pandemia afetou ainda mais as condições de renda e trabalho da população em todas as regiões do país. Entretanto, nas regiões Norte e Nordeste foram observados os maiores percentuais de perda de emprego, redução dos rendimentos familiares, endividamento e corte nas despesas de itens considerados essenciais: todas essas condições referidas como consequência da pandemia.
“É mais um levantamento que confirma o caos provocado pelo governo Bolsonaro. Temos consciência de que o governo vai mal em todas as áreas sem exceção: saúde, educação, saneamento, direitos humanos, meio ambiente…Não salva nada! Mas esses dados da miséria extrema sempre chocam. São quase 20 milhões que não sabem se terão um prato de comida para se alimentar ao longo do dia”, afirma a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima.
Segundo a pesquisa, quase metade dessas pessoas em insegurança alimentar se concentram nas regiões Norte e Nordeste, têm entre 18 e 49 anos e estão tentando sobreviver com menos de meio salário mínimo per capita mensal (tabela abaixo).

“Os dados comprovam o que testemunhamos todos os dias Brasil afora. A miséria grita nas ruas. Vemos famílias inteiras esmolando. Homens e mulheres desalentados, que perderam seus empregos já faz algum tempo e não conseguem retornar ao mercado nem para a atividade informal. As cenas que circulam na imprensa e nas redes sociais de pessoas disputando ossos de descarte não são conteúdos sensacionalistas. Infelizmente, são imagens reais que resumem o governo Bolsonaro: fome, miséria, perda da esperança e da dignidade”, desabafa Rita Lima.
Inflação e carestia
Se o desemprego e a pobreza já eram indicadores críticos antes da crise sanitária iniciada em março de 2020, com a pandemia esses dados foram se agravando ainda mais, pressionados pelo aumento da carestia e da inflação, que atingiu dois dígitos (10,25%) no acululado de 12 meses – maior índice dos últimos cinco anos e meio.
De acordo com o estudo da Rede Penssan, além dos mais de 19 milhões que flertam com a fome diariamente, do total de 211,7 milhões de brasileiros, 116,8 milhões enfrentam algum grau de insegurança alimentar. Destes, 43,4 milhões não contam com alimentos em quantidade suficiente para atender suas necessidades.
Para a dirigente, as pessoas que fazem parte dos segmentos mais vulneráveis da população são justamente as que mais estão sofrendo com a crise sanitária e com a política ultraliberal imposta por Bolsonaro e Paulo Guedes (ministro da Economia). “O auxílio emergencial foi liberado tardiamente. Este ano, quando a doença registrou mais casos e causou mais mortes no Brasil em relação ao ano passado, o governo reduziu o valor do auxílio pela metade e restringiu os beneficiários do programa de socorro. O resultado dessa política perversa está aí todos os dias diante de nossos olhos”, lamenta a dirigente.
Rita Lima acrescenta que, não por acaso, os sindicatos, os movimentos populares e os partidos políticos de esquerda já foram para as ruas cinco vezes do final de maio para cá (a última foi no dia 02 de outubro) pedir o impeachment de Bolsonaro e Mourão. “Vamos continuar pressionando o Congresso Nacional, sobretudo o presidente da Câmara, a pôr em votação o impedimento do presidente e do vice. Fizemos cinco protestos nos últimos qautro meses e vamos fazer um novo ato no próximo dia 20 de novembro cada vez mais convictos de que essa luta é travada nas ruas. O impeachment é urgente. Cada dia do governo Bolsonaro representa o desmonte de mais um pedaço do país, agrava a miséria, agudiza a fome e traz mais mortes. Essa mortandade precisa parar”, protesta.

