Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base nos dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), aponta que a categoria bancária fechou 2021 com o saldo positivo de 6.934 empregos. No geral, o emprego formal no Brasil apresentou a geração de 2.730.597 novas vagas, decorrência de 20.699.802 admissões contra 17.969.205 desligamentos, apesar do saldo negativo de 265.811 postos de trabalho, em dezembro de 2021. O saldo positivo do ano, segundo o Dieese, ocorreu em todos os grandes grupos de atividades econômicas: Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (+ 140.927); Indústria Geral (+ 475.141); Construção (+244.755); Comércio (+643.754) e Serviços (+ 1.226.026).

No caso da categoria bancária, o saldo positivo esconde uma outra realidade, pondera a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima. Ela lembra que em 2021 foram fechados 5 mil postos de trabalho no setor. A dirigente destaca ainda que 63% (4.346) dos 6.934 empregos gerados na categoria vieram das contratações da Caixa. Ações judiciais obrigaram o banco público a convocar candidatos aprovados no último concurso. Ela pontua ainda que a Caixa demitiu quase 20 mil empregados de 2014 a 2020.

Rita Lima, com base nos dados do Dieese, aponta também que em 2021 houve a ampliação de 3.722 empregos nas áreas ligadas à tecnologia da informação. De acordo com o estudo do Dieese, em todos os meses de 2021, se nota o crescimento de vagas específicas nesse setor em detrimento do fechamento de postos nas demais ocupações bancárias.

Esse dado reflete a política de digitalização dos bancos, que se intensificou ainda mais com a pandemia. “Os bancos abertamente investem nas áreas de tecnologia com o propósito de reduzir o número de bancários e bancárias em outras ocupações. Essa política também se manifesta no fechamento de agências físicas tradicionais ou na conversão dessas agências em unidades de negócios, que têm uma proposta elitista e excludente”, adverte a sindicalista.

Esse processo, alerta Rita Lima, se mostra ainda mais perverso quando é replicado em bancos como Caixa, BB, Banco do Nordeste, Banestes e outros regionais estatais, que deveriam se manter fiéis aos propósitos sociais de um banco público e não impor processos radicais de reestruturação à busca de lucro a qualquer custo. “Essa lógica de encolhimento do setor bancário, que enfraquece a categoria e os sindicatos, só interessa ao grande capital”, critica Rita Lima.

Estudo revela o encolhimento da categoria bancária

Um outro estudo do Dieese, coordenado pelo economista Gustavo Cavarzan, recortando um período mais extenso, entre 2011 a 2020, aponta como as transformações do setor financeiro têm sido determinantes para o encolhimento da categoria. Cavarzan mostra que a categoria perdeu 83 mil postos de trabalho entre 2013 e 2020. É como se a Caixa fechasse hoje e extinguisse de uma só vez mais de 80 mil postos de trabalho.

O economista, baseado no livro do teórico britânico da Geografia Urbana David Harvey, “A Condição Pós-Moderna”, classifica o setor financeiro em esferas. A categoria bancária estaria no núcleo central desse universo. São os trabalhadores celetistas, com garantias e vínculos mais duradouros. Em seguida, numa esfera chamada de periférica, aparecem trabalhadores, ainda celetistas, mas vulneráveis do ponto de vista das garantias, com salários mais baixos e cargas horárias médias mais elevadas. Esse grupo costuma ter perfil mais rotativo, com duração média de 12 meses, contra cerca de 8 anos do grupo central.

Cavarzan diz que Harvey chama esse processo de capitalismo de acumulação flexível. Basicamente, explica o economista, é o capitalismo financeirizado como prática do neoliberalismo, que desponta nos anos 1970 nos Estados Unidos e aporta no Brasil com força duas décadas depois. Nessa proposta do capitalismo, esse grupo central, segundo Harvey, tende a encolher ao mesmo tempo em que o grupo periférico se expande.

Esse fosso comparativo entre demissões e admissões nas duas esferas se refletem nos dados de 2021 do setor financeiro. Excluindo a categoria bancária, verifica-se saldo positivo em todos os meses da série apresentada, com geração de cerca de 51.533 postos de trabalho durante o ano de 2021.

Trazendo a teoria do geógrafo britânico para o setor financeiro, os números confirmam essa tendência. Cavarzan afirma que mudanças na área de tecnologia, na legislação trabalhista, nas regulamentações do Banco Central, nas políticas econômicas e na inversão do papel dos bancos públicos, ajudam a explicar os impactos dessa reestruturação no setor financeiro.

O gráfico abaixo mostra que a partir de 2013 esses elementos de transformação se tornaram mais presentes no setor. Essa mudança coincide com a queda do saldo de empregos na categoria bancária, com as demissões sempre superando as admissões. No período de 2013 a 2020, esse saldo chegou a 83 mil postos de trabalho cortados. De outro lado, o ramo financeiro, excluída a categoria bancária, gerou 117.915 vagas no mesmo período, comprovando o crescimento da periferia do setor financeiro.

O gráfico a seguir exibe o peso da categoria bancária no emprego formal do ramo financeiro entre 1994 e 2018.

No estudo, Cavarzan também revela como o perfil ocupacional da categoria foi alterado nos bancos privados. Ele destaca o crescimento das funções gerenciais, que saltam de 19% (2003) para 24% (2018); e o encolhimento da função de técnico bancário, que cai de 43% para 28% no mesmo período. O economista alerta que a base da pirâmide da categoria, que é o técnico bancário, está cada vez mais achatada.

Para Rita Lima, esse é um dado preocupante de transformação do setor financeiro que pode ser facilmente notado nos processos de reestruturação impostos pela maioria dos bancos. Ela cita como exemplos a extinção da função de caixa e a redução das vagas em concursos e processos seletivos para a contratação de técnicos bancários. “O balanço de 2021 do Dieese aponta que 54% das vagas criadas no setor foram destinadas às ocupações ligadas à tecnologia”, afirma Rita Lima.

A dirigente diz que a redução da base da pirâmide da categoria, como aponta Cavarzan, combinada com a “gerencialização” das funções, têm impactos no trabalho sindical. “Sabemos que a luta pela defesa de direitos e de novas conquistas é feita a partir, principalmente, da mobilização da base da pirâmide. Quando há um encolhimento dessa base, isso compromete a ação do movimento sindical. É muito importante que a categoria entenda o projeto neoliberal que está em curso e se organize com os sindicatos para resistir e lutar. Não podemos perder de vista que o setor financeiro só se mantém com a nossa força de trabalho e não o contrário. Sem a classe trabalhadora, o setor sucumbe”, sublinha Rita Lima.

Periferia precarizada

O crescimento da esfera periférica do setor financeiro, sustenta Rita Lima, tem como um dos seus principais objetivos a redução de custos dos bancos com vista a lucros ainda mais altos. “A ganância dos bancos não tem limite. Os banqueiros usam como desculpa que estão se reestruturando para acompanhar as mudanças tecnológicas do mercado, mas na verdade se aproveitam para reduzir salários, retirar direitos e aumentar as cargas horárias. É a lógica perversa de tirar mais do trabalhador, gastando menos”. O crescimento da esfera periférica, completa a dirigente, está aprofundando o processo de precarização do trabalhador do setor financeiro.

O gráfico de comparativo de salários de admitidos e desligados em 2021 (abaixo) comprova que a precarização do setor financeiro, que é uma marca na esfera periférica, já pressiona para baixo os salários da categoria bancária.

Nos bancos comerciais, que inclui os grandes, a queda entre salário de admissão e desligamento foi de 32,7%. A queda se repetiu, um percentual menor, nos bancos múltiplos e nas caixas. Apenas nos bancos de investimentos, que tem um outro perfil de profissional, que esse percentual se inverteu.

No gráfico abaixo, que recorta apenas a categoria bancária, esse achatamento salarial é ainda mais visível. Em janeiro de 2021, o salário médio do bancário admitido era de R$ 6.070 e o do desligado, R$ 6.112. Em dezembro de 2021, o do admitido caiu para R$ 5.254 e do desligado para R$ 7.010.

O estudo do Dieese destaca ainda que o salário de admissão de um trabalhador bancário é quase três vezes superior ao salário de admissão do trabalhador formal brasileiro geral. Rita Lima ressalta que esse fosso salarial que ainda existe entre a categoria e outros setores do mercado de trabalho, só se mantém em função da luta sindical travada nas últimas décadas com os banqueiros. “Esse campo de batalha entre o capital e a classe trabalhadora sempre foi árido para nós, trabalhadores. Mas, muitas vezes, e não foram poucas, desafiamos as adversidades e vencemos. Nunca foi sorte. As conquistas só vêm com engajamento, união e luta”, finaliza Rita Lima.