Santander volta a demitir, rompendo compromisso com movimento sindical

09/06/2020 17:52

Banco ignora situação de vulnerabilidade gerada por pandemia e descarta empregados sem motivação. Pressão por metas também aumentou na última semana, aumentando cobrança sobre bancários

Atualizado às 18h07

Quebrando compromisso assumido em negociação com o movimento sindical, o banco Santander voltou a demitir seus empregados, mesmo em período de grave crise econômica e de saúde pública.  Na cidade de São Paulo foram registradas ao menos 15 demissões sem justa causa desde a última sexta-feira, 5, além de uma demissão no Espírito Santo.

Informação divulgada pela Folha de São Paulo nesta terça, 09, indica que o processo de desligamento iniciado na última semana pode atingir até 20% do quadro de empregados do banco. Se confirmada, 9.438 trabalhadores do Santander perderão o emprego neste momento de instabilidade.

Em março, como resposta à reivindicação do Comando Nacional dos Bancários, o Santander havia informado que, como medida adicional para mitigar as incertezas do momento atual, não iniciaria “nenhum processo de demissão em todo o território nacional durante o período mais crítico da epidemia de covid-19, à exceção de casos de justa causa ou de violação do Código de Ética da organização”.

O diretor do Sindibancários/ES Cláudio Merçon (Cacau), integrante da Comissão de Organização dos Empregados (COE), questiona o que seria para o banco um período mais crítico da epidemia senão o atual, ressaltando o quadro ascendente de contaminação e de óbitos pela covid no Brasil. Dados desta terça-feira, 09, apontam mais de 700 mil casos confirmados e 37 mil mortes, números em plena ascensão, que colocam o país em terceiro lugar entre os que mais perderam vidas para a covid.

Para Cacau, a postura do banco é desumana. “Demissões imotivadas são condenáveis em qualquer contexto, mas considerando o momento de vulnerabilidade gerado pela pandemia de coronavírus, demitir trabalhadores sem justa causa assume ares de crueldade. O banco se alinha com a política de desprezo pela vida demonstrada pelo presidente Jair Bolsonaro”, condena.

Segundo o diretor, o descompromisso do banco com seus trabalhadores e com a sociedade fica mais evidente quando as demissões são confrontadas com os resultados recentes do Santander. O banco apresentou lucro líquido gerencial de R$ 3,705 bilhões no terceiro trimestre de 2019, uma alta de 19,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Já o lucro acumulado dos 9 primeiros meses do ano foi de R$ 10,824 bilhões, um crescimento de 20,4% se comparado a 2018.

“Os resultados deixam claro que a redução da atividade econômica não pode ser justificativa para demissão. Uma empresa de porte internacional como o Santander deveria contar com responsabilidade social, com compromisso real com o emprego e com o desenvolvimento econômico local. O que vemos é justamente o contrário. Os bancários, além de estarem trabalhando sob o risco de contaminação, já que estão na linha de frente do atendimento bancário, não têm sequer segurança em relação ao emprego”, salienta Cacau.

Cobrança por metas também aumenta

Outro problema casado com as demissões é a pressão por metas. Segundo denúncias recebidas pelo Sindicato, a cobrança de metas está aumentando cada vez mais, com monitoramento de resultados várias vezes ao dia, mesmo dentro de um cenário de epidemia, adoecimento e demissões.

“É inadmissível que o banco, num período em que as atividades estão restritas ao essencial, intensifique a cobrança de metas para venda de produtos e ainda demita seus empregados, mesmo com lucro crescente. Não estamos em uma situação de normalidade e isso precisa ser respeitado pelo banco”, critica a diretora Cláudia Garcia.

A Comissão de Organização dos Empregados aguarda confirmação de mesa de negociação específica com o Santander ainda nesta semana, quando deve pautar o tema das demissões e da cobrança de metas. O Sindicato orienta aos empregados que, em caso de demissão, faça contato com a entidade para buscar orientações. Situações de assédio moral no local de trabalho também podem ser comunicadas por meio do canal de denúncias.