Conecef

Foto: Contraf/CUT

Na última sexta-feira, 22, durante a mesa que debateu Saúde, Saúde Caixa e condições de trabalho no 40º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa (Conecef), os bancários reafirmaram a urgência do fim do teto de gastos imposto pela Caixa, que impossibilita a divisão do custeio do plano de saúde na proporção 70/30.

“O teto de gastos impossibilita que o banco faça os aportes necessários para o Saúde Caixa de forma a garantir que o nosso plano de saúde seja sustentável e viável para todos os trabalhadores. Com esse teto não conseguimos garantir a proporção 70/30 no custeio do plano, sendo 70% responsabilidade da Caixa e 30% dos empregados. Sem o fim do teto vamos continuar arcando com muito mais que os 30% que nos cabe. Por isso, é nossa prioridade lutar para derrubar esse teto!”, explicou André Tosta, dirigente do Sindibancários/ES.

Os palestrantes da mesa ressaltaram a importância de fazer o debate sobre o adoecimento mental na categoria conectando essa pauta à discussão sobre o futuro do Saúde Caixa e a importância da manutenção do plano garantindo seus princípios basilares.

75% dos afastamentos na Caixa são relacionados à saúde mental

O diretor de Saúde e Previdência da Fenae, Leonardo Quadros, ressaltou os dados alarmantes referentes aos afastamentos na Caixa. Os dados de 2024 mostram que quase 75% dos afastamentos foram causados por doenças mentais e comportamentais. “A própria Caixa fez uma estimativa de que os custos relacionados a tratamentos de doenças mentais e comportamentais, em 2024, representaram um total de quase R$ 200 milhões em despesas do Saúde Caixa. Não temos ideia de quais são os elementos considerados para fazer essa apuração, se foram apenas terapias ou se também incluiu internação ou outros. Então esses custos podem estar subestimados”, disse.

Para André Tosta, a mesa apresentou dados alarmantes e palpáveis e é fundamental que a categoria se aproprie de todas as pesquisas realizadas em todo o país, como a feita aqui no Espírito Santo, que comprovam que o aumento do adoecimento mental é sistêmico. “A mesa foi muito elucidativa e trouxe dados palpáveis e irrefutáveis pra gente ver como houve, de fato, uma evolução na categoria bancária dos processos de adoecimento, com predominância até 2012 das doenças osteomusculares (Dort/LER) e como isso foi migrando até os dias atuais em que a predominância dos afastamentos é por questões de adoecimento mental. As pesquisas só comprovam o que a categoria vem sentindo na pele todos os dias e o movimento sindical vem denunciando nos últimos anos: o adoecimento mental na categoria é sistêmico, não são casos isolados, e é resultado de um assédio moral cada vez maior devido às mudanças nos modelos de negócios e também à introdução das novas tecnologias no mercado de trabalho”, avaliou André.

Durante a palestra, Leonardo ressaltou ainda que as entidades sindicais dos trabalhadores vêm cobrando, há muito tempo, o aperfeiçoamento da política de gestão de pessoas, em especial a mudança dos programas de prevenção e promoção da saúde e pontuou as recentes mudanças na NR1 do Ministério do Trabalho. “A partir do próximo ano, as empresas serão obrigadas a incluir os riscos psicossociais entre os riscos ocupacionais. E até hoje a Caixa não tem uma política efetiva para reduzir este percentual de adoecimento. Por isso reforçamos esta nossa cobrança, já que uma política de prevenção mais efetiva certamente se refletirá em uma melhoria da qualidade de vida das pessoas e, de forma colateral, em uma redução dos custos do plano”.

Ansiedade, estresse e depressão são as principais causas de adoecimento

A doutora em Economia e técnica do Dieese Hyolitta Araújo apresentou números sobre os registros de afastamentos no INSS e, também, da pesquisa da Fenae realizada em 2025, com mais de três mil trabalhadores da Caixa. Ela observou que são duas pesquisas de metodologias distintas, mas ambas apontaram a ansiedade, o estresse e a depressão como as principais causas de adoecimento mental na Caixa.

Entre os pontos apresentados, Hyolitta destacou que a mudança no modelo de trabalho ocorrida nos últimos anos fez com que os transtornos mentais passassem a ocupar lugar de destaque nos problemas de saúde dos bancários. “Os novos modelos de organização, os ataques aos direitos trabalhistas, o ritmo acelerado de trabalho, a falta de pessoal, a pressão e o assédio moral fazem com que entre os bancários haja uma incidência maior de transtornos mentais do que em outras categorias de trabalhadores”, informou.

Dos afastamentos registrados pelo INSS entre bancários em 2024, mais de 50% foram motivados por questões relacionadas à saúde mental. Na Caixa, o número é ainda maior.

Na pesquisa da Fenae, um número que chama a atenção – e que pode significar que o problema de saúde mental na Caixa é ainda mais grave – é o não registro da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). 82% de empregados afirmaram que não registraram a CAT, sendo que 37% afirmaram ter medo de retaliação.

Adoecimento por causa da gestão

O psicólogo, doutor e mestre em Psicologia Social André Guerra, um dos responsáveis pela pesquisa da Fenae, explicou que os resultados ainda são preliminares, mas ressaltou que os números mostram que hoje as pessoas não adoecem mais apenas por questões físicas, mas também por questões mentais.

“E este adoecimento não ocorre por características dos indivíduos nem da categoria. É a gestão. E, na Caixa, a aproximação da gestão do banco com a forma de atuação dos bancos comerciais”, disse.

A pesquisa traz ainda informações sobre os elementos que justificam o adoecimento e quais as funções estão mais suscetíveis. Do total de respondentes, 55% sentem-se pressionados a vender produtos de baixa qualidade e não indicados aos clientes. O risco de descomissionamento atinge 41%. E 28% não veem sentido no seu trabalho.

“Estes três elementos em seu conjunto mostram que uma parcela significativa dos trabalhadores, mesmo sem diagnóstico, é afetada. Mesmo sem adoecimento, está em sofrimento”, observou o psicólogo. “Com isso, conseguimos compreender os elementos que podem contribuir para esse desfecho alarmante na Caixa”, completou.

André ressaltou que a falta de condições de trabalho, como problemas de ergonomia, e problemas nos sistemas contribuem para o adoecimento, mas que “a questão mais grave é a organização do trabalho, que é onde ocorre a cobrança de metas”, explicou.