A quarta rodada das negociações que vão resultar na construção do novo Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) dos empregados do Banestes abordou nesta quarta-feira (24) as cláusulas econômicas da minuta aprovada em assembleia pela categoria. A comissão de negociações do Sindicato dos Bancários/ES defendeu a reposição da inflação do período mais o aumento real de 10% sobre todas as verbas salariais. 

Para fazer a sustentação técnica do reajuste, o Sindicato contou com a assessoria técnica da economista Sandra Bortolon, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Espírito Santo. A economista apontou que no recorte analisado (2014 a 2024), a reposição da inflação não impôs perdas salariais significativas aos banestianos. Sandra ponderou, no entanto, a importância da correção de valores que a reposição da inflação não é capaz de corrigir. Ela destacou a cláusula da minuta que reivindica o ganho real de 10%.

“A função do ganho real é corrigir valores que a inflação por si só não corrigiu. Nós sabemos que a inflação é uma medição, uma média de uma cesta de produtos. Mas a sensação da inflação é outra. Ela vai depender da renda, do orçamento, do tamanho da família”, explicou. 

A economista afirmou que a maioria das empresas têm a prerrogativa de aumentar o patrimônio líquido, mas lembrou que os trabalhadores não têm como aumentar seu próprio salário. A economista enfatizou que há uma perda de massa salarial que foi se acumulando ao longo dos anos. Sandra acrescentou que as empresas brasileiras têm o histórico de pagar salários mais baixos. Ela citou como exemplo um estudo que o Dieese fez a partir de dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Segundo a economista, as empresas brasileiras gastam de 12 a 14% com a folha de pagamento. Nas empresas localizadas em países centrais, esse percentual gravita na casa dos 19%. 

Perdas históricas

O dirigente Jonas Freire, que integrou a comissão de negociação ao lado de Vanessa Espíndula, Marcelo Giacomin e Paulo Soares, falou sobre as perdas históricas dos banestianos. Ele apontou que somente entre os anos de 1995 e 2008, as perdas para os empregados do Banestes passaram de 46% (quadro abaixo).

“O Banestes chegou a pagar um piso inferior ao nacional. Isso resultou num processo à época, que obrigou o banco a igualar ao valor do piso nacional. Acho que faltou sensibilidade aos dirigentes dos bancos para repor essas perdas históricas”. Jonas afirmou que os resultados do Banestes nos últimos anos confirmam que o banco tem capacidade financeira para arcar com essas perdas. “Hoje o banco tem condições financeiras muito melhores se comparadas ao passado, mas parece faltar vontade política hoje para resolver esses problemas”, criticou. 

Jonas destacou ainda que a mesa de negociações não pode ficar amarrada às discussões que estão sendo travadas entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban na Campanha Nacional. “Temos uma negociação específica justamente para discutir as reivindicações dos banestianos e construirmos um Acordo Coletivo de Trabalho para a categoria”, frisou. 

Bancários querem PCS

Marcelo Giacomin acrescentou que o Banestes, ano a ano, vem conquistando classificações de rating (saúde financeira a potenciais credores ou investidores) cada vez melhores. Ele afirmou que a classificação de 2023 do Banestes foi A++, “mas o trabalho do bancário e da bancária não está sendo reconhecido. O presidente [do Banestes] elogia o trabalhador em entrevistas, mas não há reconhecimento, por exemplo, na recomposição dessas perdas salariais históricas”, pontuou. 

Vanessa afirmou que a ausência de um Plano de Cargos e Salários (PCS) também contribui para esse processo histórico de perdas. “Hoje o empregado do Banestes só tem duas formas de ascender: através do processo de seleção interna, que lhe permite concorrer a alguma função comissionada ou ser indicado pelo banco para assumir uma vaga de gerente, coordenador ou consultor. A seleção interna, aliás, está suspensa neste momento. Um PCS bem estruturado poderia oferecer possibilidade de formação, promoção e dar uma perspectiva ao empregado de construir uma carreira dentro do banco”., reforçou a dirigente.

Ainda sobre o aumento real de 10%, Paulo Soares afirmou que os lucros recordes seguidos do Banestes mostram que o banco tem capacidade para pagar o reajuste reivindicado. Ele apontou ainda que os salários pagos pelo Banestes são os mais baixos na comparação com outros bancos públicos estaduais. “O banco precisa conceder esse aumento real para começar a tirar os banestainos da lanterna do ranking dos salários mais baixos da categoria bancária”, sublinhou. 

A comissão de negociação do Banestes, coordenada pelo gerente-geral de Recursos Humanos, Alexandre Carlquist, ficou de levar à diretoria do Banestes as reivindicações referentes às cláusulas econômicas, mas admitiu que o reajuste de 10%, em comparação aos 5% que estão sendo pleiteadas na Campanha Nacional, “assusta”. 

Na avaliação da rodada, Jonas afirmou que a pauta econômica é sempre uma das mais sensíveis, porque mexe diretamente com o bolso do trabalhador. Ele destacou a assessoria técnica do Dieese, que fundamentou o reajuste de 10% de aumento real e reafirmou que o banco tem capacidade financeira para conceder o reajuste e mitigar essas perdas históricas.  “O reajuste que assusta o banco, na nossa avaliação é totalmente viável. Vamos aguardar o desdobramento das negociações para analisar a proposta do banco. Esperamos que seja uma proposta tão boa quanto toda a dedicação e entrega que damos ao banco. Estamos juntos nesta luta. Só ela nos permite ousar novas conquistas”, finalizou Jonas.