O rito para a nomeação de André Brandão para suceder a Rubem Novaes no comando do Banco do Brasil pode levar alguns dias. Seu nome ainda precisa passar por um comitê interno do banco. Mas isso tudo é apenas burocracia. O executivo, que é hoje diretor de Global Banking para as Américas do HSBC, foi escolhido por Paulo Guedes e já tem o aval do presidente Bolsonaro, que se comprometeu a carimbar a indicação do ministro da Economia. Caso o nome de Brandão se confirme nos próximos dias, o escolhido de Guedes deve acelerar o processo de privatização do BB.

O executivo chega com a missão de liquidar a carteira de investimentos da BB DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), com valor que beira a casa do trilhão de reais. A Previ, caixa previdência dos empregados do banco – que tem cerca de R$ 180 bilhões em ativos -, é outra fatia lucrativa do BB que está na mira de Guedes. Embora a Previ não seja do Banco do Brasil, a instituição tem hoje representantes na diretoria e nos conselhos que estariam dispostos a atender aos pedidos de Guedes e levar à frente a proposta de capitalizar parte das operações do fundo de pensão.

Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Goretti Barone, os planos de Guedes para a Previ não são favas contadas. Ela destacou o quanto foi importante a Chapa 1 ter vencido agora em julho as eleições que garantiram por mais quatro anos a representação nos conselhos da Previ do grupo alinhado aos interesses dos associados. “O grupo representado pela Chapa 2 queria vencer de qualquer maneira para facilitar os planos de Guedes de aparelhar a Previ. Mas a Chapa 1 foi a vitoriosa com o apoio da grande maioria das entidades do movimento sindical e do funcionalismo, e agora, mais do que nunca, tem o compromisso, com o apoio dos associados, de fazer a defesa da Previ”, sublinhou Goretti.

Sobre a venda de ativos como DTVM, a dirigente afirmou que já havia a ameaça constante de privatização de áreas lucrativas do banco sob a gestão de Novaes, que se renovariam com a iminente chegada de Brandão.

Segundo Goretti, a pandemia do novo coronavírus tem mostrado a importância dos bancos públicos para a população brasileira, sobretudo para os segmentos mais vulneráveis. “Chega ser uma afronta Guedes e Bolsonaro, em plena crise sanitária, indicarem um executivo do mercado que assumirá o banco com o compromisso de atender aos interesses do capital”. A dirigente lembra que a BB DTVM, que tem capital 100% estatal, é alvo de cobiça de grandes empresas do setor financeiro nacional e internacional, que pressionam Guedes para liquidar esse ativo do banco o mais rápido possível.

“O momento é de resistir. Temos que lutar juntos, movimentos sindicais, categoria bancária e sociedade civil, para defender um patrimônio que é de todos os brasileiros. Não podemos permitir que Guedes e Bolsonaro ponham a mão na Previ, na BB DTV e nos demais ativos das empresas públicas. Temos que nos mobilizarmos agora para que André Brandão não assuma a presidência do Banco do Brasil”, afirma Goretti.

Quem é André Brandão

André Brandão entrou no HSBC em 1999. Em 2003, se tornou diretor executivo do banco e em 2012 CEO no Brasil. Ele assumiu o comando do HSBC e logo depois veio à tona o escândalo internacional Swissleaks, de sonegação fiscal e evasão de divisas envolvendo as operações do HSBC no Brasil.

Em maio de 2015, Brandão foi convocado para prestar esclarecimentos à CPI do Senado que investigava movimentações suspeitas de brasileiros com contas nas agências do HSBC em Genebra. Essas contas teriam chegado a movimentar mais de 7 bilhões de dólares. O executivo simplesmente alegou à CPI que a filial brasileira do HSBC não tinha dados a respeito.

A CPI que fora aberta com a expectativa de desvelar um grande escândalo envolvendo um dos bancos mais poderosos do mundo teve desfecho patético. Correu à época nos bastidores do Senado que um poderoso lobby do banco teria ajudado a sepultar a CPI, que no relatório final não indiciou ninguém. Por votação simbólica, com parecer do então senador-relator Ricardo Ferraço, a CPI, que pretendia investigar contas ilegais de brasileiros no exterior, foi arquivada.

Logo depois, o Bradesco compraria o HSBC e o banco inglês encerraria suas operações no Brasil. Brandão deixaria a presidência do HSBC no Brasil com a venda, mas seguiria como diretor de Global Banking and Markets para as Américas do HSBC, cargo que exerce atualmente.

“É para um executivo com esse currículo que o governo Bolsonaro quer entregar o comando do BB. O sepultamento da CPI do HSBC deixou de revelar a verdade sobre as operações do banco, que à época estava sob a gestão de Brandão. Ficaram muitas perguntas sem respostas nesse escândalo. Tudo que não queremos para o BB neste momento é um executivo com perfil privatista e envolvido em episódios nebulosos”, criticou Goretti.

(Foto capa: Bancários DF)