Experimente prender a respiração por 30 segundos. Ufa, que alívio sentir a lufada de oxigênio invadindo novamente os pulmões, não é? Para alguns, o breve hiato será quase imperceptível, um desconforto passageiro; para outros, causará uma leve ansiedade na briga com o cronômetro que parece não correr; mas haverá aqueles que entrarão em pânico e provavelmente puxaram o ar abreviando o término do exercício. Esse último grupo, certamente, incluem as pessoas que durante a apneia imaginaram o desespero de parentes, amigos ou mesmo personagens anônimos que tentaram respirar e acabaram asfixiados pela doença que já matou quase 2,7 milhões de pessoas no mundo, 11% (295 mil) desse total só no Brasil. O exercício também nos permite uma constatação: durante os mesmos 30 segundos, em algum lugar do país, um brasileiro tenta puxar desesperadamente um sopro de ar pela última vez e acaba virando estatística.

Por trás da frieza dos dados, que todos os dias registram médias móveis de óbitos, calculam projeções, catalogam novas variantes do vírus ou atualizam os índices de internação nas UTIs, há um ser humano com nome e sobrenome e protagonista de uma história pregressa. Mas isso parece não fazer a menor diferença para a fúria avassaladora do vírus que se ocupa em dragar vidas. O resultado são corpos empilhados lacrados em caixões; vidas convertidas em números; números em gráficos e estatísticas que estampam o lúgubre noticiário diário.

Números com cifrões

“Se de um lado os números da pandemia desumanizam as vidas que se perdem aos milhares, os números que trazem cifrões na frente encaram a mais grave crise sanitária da nossa história sem empatia com as vítimas e preocupados tão e somente com os lucros. Aliás, são os detentores dos grandes cifrões que até agora, de modo geral, deram os rumos das políticas de estados e municípios de combate à covid”, diz o coordenador geral do Sindicato dos Bancários/ES, Jonas Freire. Para o dirigente, a maioria dos governadores e prefeitos tenta fazer a gestão da pandemia sem mexer na equação dos lucros para evitar entrar em rota de conflito com os interesses dos grandes empresários.

A pandemia, de dezembro para cá, recrudescida com as novas variantes do vírus, tem pressionado governadores e prefeitos, que não podem mais ignorar o colapso dos sistemas de saúde e os corpos se acumulando nos cemitérios, a adotarem medidas restritivas como única saída para conter o vírus e evitar caos completo. “O colapso no Espírito Santo, que se repete hoje em quase todos os estados do país, era uma tragédia anunciada. Havia uma expectativa que, ante a gravidade da crise, o governador Renato Casagrande, desta vez, priorizasse as vidas e ouvisse mais a ciência. Mas ao anunciar medidas pouco restritivas, acenou novamente para os grandes empresários, que não aceitam aderir ao lockdown para evitar mais mortes”, critica Jonas.

O dirigente acrescenta que o próprio Casagrande tem sido um crítico contumaz à política negacionista de Bolsonaro, mas quando as ações necessárias de combate à covid esbarram nos interesses das elites, as posições do Planalto e do Anchieta se convergem. Essa contradição entre discurso e prática, segundo ele, fica evidente na hora de o governador decidir por regras mais rígidas como o lockdown. Jonas afirma que o lockdown tem sido apontado pelos cientistas, nessa fase mais crítica da pandemia, a medida mais eficaz (aqui e em outros países) para brecar a transmissão do vírus e aliviar a pressão sobre o sistema de saúde, a essa altura, colapsado praticamente em todo o país. “O problema é que na hora ‘H’, governadores e prefeitos, em sua maioria, têm posto os interesses das elites empresariais na frente das vidas”. Ele complementa que a maioria dos grandes empresários tem se mostrado refratários à ideia de abrir mão dos lucros para salvar vidas.

Saúde financeira em primeiro lugar

Na opinião de Carlos Pereira de Araújo (Carlão), representante da Intersindical, essa lógica de priorizar a saúde financeira das empresas e preterir a das pessoas tem prevalecido no Espírito Santo desde a primeira onda da covid. Ele recorda que o governador Renato Casagrande, em abril do ano passado, no início da pandemia, decretou uma quarentena que não durou 30 dias. Mesmo adotando medidas brandas, continua Carlão, o governador não resistiu à pressão dos grandes empresários.

Em maio, praticamente todos as atividades essenciais já funcionavam normalmente, apesar de o Espírito Santo enfrentar naquele momento a fase mais crítica da covid, que se estenderia até julho. “Aliás, o próprio governador confidenciou numa recente coletiva à imprensa que o Espírito Santo é o Estado menos restritivo do país em relação a regras de quarentena durante toda a pandemia”. Nas entrelinhas, critica o dirigente, Casagrande passa a falsa ideia de que o privilégio de não restringir as atividades econômicas se deve ao mérito de sua “exemplar” gestão à frente da pandemia.

Recorde de mortes

“É preciso pôr os pingos nos is e dizer aos capixabas que a gestão da pandemia no Espírito Santo é caótica desde o início. As estatísticas apontam que o Espírito Santo detém a sétima posição nacional se considerarmos os óbitos por 100 mil habitantes [dados do Ministério da Saúde atualizados até o dia 12 de março]. Estados como Amazonas, Rondônia ou Roraima, que ocupam as primeiras posições no ranking de óbitos, têm uma rede de saúde acanhada. O Espírito Santo, como o próprio governador costuma enaltecer, tem uma das melhores médias de leitos por habitantes do país, o que, em tese, não justificaria índices de óbitos tão elevados”.

Nesta terça-feira, 23, o Espírito Santo bateu, depois de um ano de pandemia, o recorde de óbitos. Foram 72 mortes nas últimas 24 horas. O recorde anterior, durante a fase mais aguda da pandemia, havia sido registrado no dia 22 de junho: 59 mortes. “Os números são impassíveis e perturbadores. Estamos falando de três pessoas mortas a cada 20 minutos. O aumento exponencial de novos casos, o colapso do sistema de saúde e as novos variantes do vírus, infelizmente, devem fazer as médias de mortes subirem nas próximas semanas. Por isso decretar o lockdown passou a ser uma questão de vida ou morte. E esse apelo que fazemos ao governador ao pedir o fechamento total”.

Na avaliação de Carlão, a fase mais crítica da pandemia tem seu desfecho melancólico com recordes de mortes e o colapso do sistema. “Essas são evidências incontestes de que a gestão da pandemia falhou no Espírito Santo. O Governo do Estado esperou o sistema de saúde colapsar para anunciar medidas que consideramos insuficientes para controlar a pandemia e evitar mais mortes. Se Casagrande se diz preocupado com as vidas, ele teria de ter coragem para contrariar os empresários e fechar tudo. Lockdown por 21 dias, como recomendam os especialistas, é a medida que nos resta para evitarmos mais mortes”, enfatiza Carlão.

Trabalhadores fora da mesa

Centrais e entidades sindicais têm se queixado que desde o início da pandemia Casagrande jamais chamou a classe trabalhadora para dialogar. Essa interlocução, critica Jonas Freire, tem sido com meia-dúzia de empresários que respondem pelo PIB capixaba. O dirigente chama a atenção para a coletiva na qual Casagrande anunciou a quarentena no último dia 16. “Ele disse, com todas as letras, que chamou as instituições, Assembleia, Justiça, Ministério Público, Tribunal de Contas e o setor produtivo do Espírito Santo para pactuar o plano de quarentena. Mas o setor produtivo, na visão de Casagrande, não inclui a classe trabalhadora. Para ele, o setor produtivo se restringe à Findes e à Fecomércio. Na mesa de Casagrande, não há assento para o trabalhador. Somos invisíveis aos olhos do governador, sublinha Jonas”.

Pra inglês ver

Carlão chama atenção para a incoerência do decreto com relação ao funcionamento de atividades não essenciais. “Nem podemos considerar as medidas anunciadas uma quarentena, como classificou o governador. Na minha opinião, as medidas impõem apenas restrições bem pontuais, mas que não são suficientes, como apontam os especialistas, para reduzir a circulação de pessoas e desacelerar as transmissões”.

O dirigente da Intersindical diz que ainda é cedo para avaliar os primeiros dias da quarentena, que começou na última quinta-feira, 18. “Mas observando o movimento em ônibus e terminais nesses primeiros dias, conversando com as pessoas e acompanhando os noticiários, percebemos que, ao menos em relação ao transporte público, as meditas não tiveram efeito significativo para reduzir a circulação. Como tem repetido a epidemiologista Ethel Maciel, só vamos conseguir conter a transmissão se reduzirmos drasticamente a circulação de pessoas”.

Os especialistas defendem que as medidas só têm efetividade quando as taxas de isolamento chegam a 70%. No último dia 21, o Espírito Santo tinha 39% de isolamento social, 17a marca do país. “Essa quarentena do Casagrande é só pra inglês ver”, protesta Carlão, que adverte: “Com a taxa de ocupação das UTI na casa dos 95% [dados do dia 22 de março], está semana, infelizmente, caminhamos a passos largos para o colapso total do sistema de saúde. A saída será o governador reconsiderar as medidas e anunciar restrições mais rígidas, ou seja, o lockdown”, afirma Carlão.

Essencial para quem?

Na polêmica em torno de quais serviços seriam ou não essenciais nas medidas de quarentena, Jonas Freire dá como exemplo as agências bancárias. Segundo ele, ao definir que as agências bancárias são serviços essenciais e devem funcionar normalmente, o governador se contradiz com a matriz de risco que vinha vigorando até o anúncio da quarentena.

De acordo com a matriz de risco, os municípios classificados como risco alto, deveriam restringir o atendimento nas agências bancárias às demandas urgentes. O decreto suspende a matriz de risco porque classifica todos os 78 municípios capixabas automaticamente para a fase mais crítica, que o governador nomeou de roxa. “Ora, como a fase mais crítica regride ao classificar uma atividade que tinha seu funcionamento restrito na fase anterior (vermelha) para liberá-la completamente agora. Não faz sentido. Se as agências bancárias deveriam atender somente a emergências na fase vermelha, agora voltam a atender sem restrições nessa classificação mais crítica. Subimos um degrau na classificação de risco e descemos dois com relação ao funcionamento das agências. O governador precisa rever urgentemente a classificação, não só das agências bancárias, mas de outras atividades que foram consideradas essenciais”, aponta Jonas.

Lockdown

Essa fase mais aguda da pandemia no Brasil, que começou ainda em dezembro, em Manaus, com a descoberta de uma nova variante (P.1) do coranavírus, que se espalhou rapidamente por todo o país, provocou uma espécie de efeito dominó que vem colapsando os sistemas de saúde dos estados um a um. Nesta terça-feira, 23, o Espírito Santo registrava recordes de internações, com 1.602 pessoas internadas entre leitos de UTI e enfermaria.

Para Carlão, o Governo do Estado falhou ao anunciar medidas restritivas só após a ocupação dos leitos de UTI ultrapassarem 90%. “Há pouco mais de duas semanas, o Estado estava recebendo pacientes de Santa Catarina e o governador indo para mídia para transmitir que a pandemia estava sob controle no Estado. Duas semanas depois o sistema de saúde entra em colapso. Na minha opinião, houve erro de planejamento. Não dá para esperar colapsar o sistema para, só então, no afogadilho, anunciar medidas restritivas. E quando as medidas vêm, tardiamente, ainda são insuficientes para conter o vírus”.

O dirigente informa que o Sindicato dos Bancários/ES iniciou uma ampla campanha na TV, no Rádio e nas redes sociais em defesa do lockdown imediato no Espírito Santo. “Reivindicamos ao Governo do Estado a decretação do lockdown já. Contamos com o apoio da sociedade capixaba. É hora de fechar tudo e só manter funcionando os serviços estritamente essenciais”.

Carlão reforça a urgência do lockdown e dá como exemplo a realidade da categoria bancária. “Ao longo da pandemia, nossa categoria tem sido uma mais vulneráveis ao vírus. As agências têm uma arquitetura propícia à propagação do vírus. Estamos falando de uma caixa de concreto sem ventilação natural onde circulam centenas e até milhares de pessoas todos os dias. É inevitável não pensar na situação dos empregados da Caixa, ainda mais dramática. Esses trabalhadores encararam o vírus por mais de oito meses para pagar o auxílio emergencial a mais de 67 milhões de pessoas e agora retornam à linha de frente para pagar o benefício na fase mais crítica da pandemia, com o número de casos e óbitos batendo recordes todos os dias e com o sistema de saúde estrangulado”.

Pacote de socorro

Na última sexta. 19, o Governo do Estado anunciou um pacote de R$ 1,8 bilhão para enfrentar os impactos da pandemia. Segundo o governador, o pacote é destinado aos setores mais atingidos pelas medidas restritivas, como bares e restaurantes, hotéis e pousadas, eventos sociais, culturais e atividades esportivas e que atuem com turismo.

Segundo Jonas Freire, o socorro especialmente às micro, pequenas e médias empresas é importante para garantir os empregos. “Precisamos registrar que essas linhas de crédito especiais só são possíveis porque o Estado possui o Banestes e Bandes. Num momento de crise, percebemos o quanto os bancos públicos são fundamentais para cumprirem a função social. É por isso que o Sindicato sempre vai lutar para que o Banestes e o Bandes continuem sendo do povo capixaba”, sublinha o dirigente.

O sindicalista pondera que, no entanto, o pacote de socorro deixou de fora o trabalhador desempregado. “No início da pandemia o Sindicato reivindicou que o Governo do Estado garantisse um salário mínimo para o trabalhador desempregado. Mas Casagrande sequer aceitou dialogar. Nesta fase mais aguda da crise o trabalhador, mais uma vez, não é contemplado pelo pacote de socorro do Governo do Estado”, critica Jonas.

Para Carlão, as linhas de crédito abertas às empresas podem ajudar a garantir a manutenção da vaga do trabalhador empregado, mas não ampara aqueles que estão desempregados e que não têm a quem recorrer. “Sabemos que o auxílio emergencial do Governo Federal, além do valor reduzido, vai atender a menos da metade dos brasileiros beneficiados em 2020. O Espírito Santo não é um estado pobre. O Governo concede há anos, sem crise sanitária, isenções milionárias às grandes empresas capixabas, através de programas como o Compete e o Invest que, a propósito, também foram estendidos no pacote anunciado. Entretanto, Casagrande não cogita sequer discutir um auxílio emergencial estadual aos capixabas que estão vivendo na linha da pobreza ou abaixo dela. O Sindicato vai se manter mobilizado para exigir, além do lockdown, uma linha de socorro a esse segmento mais vulnerável da população que não pode continuar invisível aos olhos do Estado”, enfatiza Carlão.