O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base nos dados do 4º trimestre de 2023 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, publicou um estudo sobre a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Um dos recortes do levantamento aponta que a trabalhadora negra ganha menos da metade (46%) do trabalhador não negro. Em valores, significa que o salário médio de uma trabalhadora negra é de R$ 1.957 contra R$ 4.228 do trabalhador não negro. Mesmo entre as mulheres, existe diferença salarial. As trabalhadoras negras ganham em média 60% em relação às não negras.
Independentemente da raça, as mulheres ganham em média 21% menos que os homens: R$ 2.562 contra R$ 3.233. “Em qualquer recorte que se faça, vamos encontrar um degrau salarial entre homens e mulheres. Essa média de diferença salarial apontada pela pesquisa do Dieese para a classe trabalhadora de maneira geral, é muito próxima da realidade da categoria bancária, onde esse percentual de diferença chega a 22%. Mas o ponto que é ainda mais perturbador é a diferença salarial entre as trabalhadoras negras, que ganham menos que os negros, as mulheres não negras e os homens não negros. Esse é um dado que revela o quanto o racismo está presente nas estruturas corporativas e é ainda mais perverso com a trabalhadora negra”, diz Claudia Garcia, que coordena a Secretaria de Mulheres do Sindicato dos Bancários/ES.
O levantamento do Dieese revelou que até o final de 2023 o Brasil contava com 90,6 milhões de mulheres com mais de 14 anos de idade ou mais. Deste universo, faziam parte da força de trabalho feminina 47,8 milhões e outras 42,8 milhões estavam fora. Das que estão na ativa, 43,4 milhões estão ocupadas e outras 4,4 milhões desocupadas. Entre as ocupadas, as trabalhadoras negras são maioria (quadro abaixo).

Ensino superior
A diferença salarial entre homens e mulheres se reproduz nos segmentos de trabalhadores mais qualificados. As mulheres com nível superior ganham em média R$ 4.701 contra R$ 7.283 dos homens. Novamente, o degrau é mais acentuado em relação às trabalhadoras negras, que ganham em média R$ 3.721. Na comparação com os trabalhadores não negros, as negras ganham praticamente a metade. O estudo também compara a remuneração entre cargos de gerência. A diferença entre homens mulheres é de 27%: trabalhadores nessa função ganham em média R$ 9.183 contra R$ 6.672 das trabalhadoras
O levantamento também analisa a proteção social das trabalhadoras. Novamente, as trabalhadoras negras são mais vulneráveis que as não negras. Ao todo, 37,5% das trabalhadoras estão na informalidade. Desse total, 41,9% são negras e outras 32,6% não negras. “À medida que o estudo aprofunda os dados, as diferenças entre homens e mulheres se agravam. Novamente, no entanto, os dados mostram que essa diferença é ainda mais aguda no comparativo com as trabalhadoras negras, que são mais vulneráveis em relação a direitos e proteção social”, afirma Claudia.
A dirigente enfatiza que a luta por igualdade salarial é constante entre as trabalhadoras de maneira geral e também entre as mulheres bancárias. Ela diz que, não por acaso, temas como igualdade de oportunidades e assédio moral e sexual foram amplamente debatidos durante a Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias, estão presentes na Conferência Interestadual RJ/ES e devem ter espaço cativo no Congresso Nacional dos Bancários e das Bancárias, que acontece de 7 a 9 de junho em São Paulo.
Claudia destaca que durante a Conferência Estadual, Emilly Marques, mestra em Política Social (Ufes), especialista em Gênero e Sexualidade (Uerj), assistente social e militante feminista, fez um importante debate sobre machismo estrutural no ambiente de trabalho. Na mesa citada pela dirigente, a especialista afirmou que quando se discute os assuntos da classe trabalhadora é preciso considerar que as questões do mundo do trabalho não estão apenas ali naquele expediente, no cenário do banco. “Elas não começam ali. Não tem como a gente pensar em relação de produção social sem pensar em relação de reprodução social. E isso sim está nas costas das mulheres, como mostrou o esquete teatral. Então não adianta querer um trabalhador, e eu vou falar do masculino, um trabalhador pronto, se alguém não pensou na reprodução dessa força de trabalho. Porque esse trabalhador precisa descansar, precisa ter roupa limpa, precisa se alimentar para estar pronto para o capital explorá-lo no dia a dia. E isso fica no encargo de nós, mulheres, num trabalho não remunerado que é útil para a exploração capitalista”, afirmou.

