Três dos cinco candidatos assinam termo em defesa do Banestes público e estadual; Pazolini fica em cima do muro e Breno promete assinar

24/08/2026 18:44

Durante o Congresso em Defesa do Banestes Público e Estadual, que aconteceu sábado (22), em Vitória, os candidatos a governador Ferraço, Helder e Demuner assinaram o termo presencialmente. Breno Barcelos enviou vídeo em defesa do Banestes, mas ainda não assinou o termo

Mais de duzentas pessoas acompanharam o Congresso em defesa do Banestes (Fotos: Sérgio Cardoso/Sindibancários/ES)

O Congresso em Defesa do Banestes Público e Estadual, que aconteceu sábado (22), no hotel Golden Tulip, em Vitória, reuniu organizações da sociedade civil, centrais sindicais e bancários. O congresso debateu a importância dos bancos públicos para o desenvolvimento socioeconômico dos estados. Durante o evento, os candidatos a governador do Espírito Santo Helder Salomão (PT), Ricardo Ferraço (MDB) e Rafael Demuner (UP) assinaram o termo se comprometendo a manter o Banestes público e estadual. O candidato Breno Barcelos (Missão) alegou conflito de agenda, mas mandou um representante e também gravou um vídeo comprometendo-se a não vender o banco, mas ainda não assinou o termo. O candidato Lorenzo Pazolini (Republicanos) foi o único que não justificou a ausência e tampouco manifestou posição sobre o compromisso de manter o Banestes público e estadual. 

O termo é uma iniciativa do Comitê em Defesa do Banestes Público e Estadual, cuja coordenação é do Sindicato. O coordenador-geral do Sindicato, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), fez um balanço positivo do evento, que reuniu mais de 200 pessoas. “Já está se tornando uma tradição. A largada da corrida eleitoral ao Palácio Anchieta passa obrigatoriamente pela assinatura do termo de compromisso. É muito importante que três dos cinco candidatos tenham assinado o termo na primeira convocação. O candidato do Missão garantiu que irá assinar o termo. Vamos aguardar. Faremos também novamente contato com a assessoria do candidato Pazolini para cobrar uma posição. O eleitor capixaba tem o direito de saber qual é a posição dos candidatos em relação ao futuro do Banestes”, afirmou Carlão. 

Comitê

A parte inicial do evento foi dedicada às organizações da sociedade civil que compõem ou apoiam o Comitê em Defesa do Banestes Público e Estadual. O dirigente Claudio Merçon (Cacau) representou a Federação dos Bancários do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Fetraf RJ/ES). Cacau, que justificou a ausência do presidente da Fetraf, Nilton Damião, lembrou que a população fluminense sofreu muito com a privatização do Banerj, que foi vendido em 1997 ao Itaú. “Como todos os bancos públicos que foram liquidados na onda privatista dos anos 1990, o Banerj também foi vendido a preço de banana”. O dirigente reforçou a importância do Comitê, que conseguiu impedir por meio de mobilizações e luta a venda do Banestes. 

Idelmar Casagrande, da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, que acompanhou in loco as ações em defesa do Banestes nessas três décadas, ressaltou que o banco não foi privatizado até hoje devido à capacidade de mobilização das organizações da sociedade civil e da população, que foram para as ruas para impedir a privatização. 

A liderança do Movimento de Resistência e Luta pela Terra (MRLT) Agnaldo Cardoso ressaltou a importância do Banestes, sobretudo para os municípios do interior do Estado. Ele afirmou que o banco público tem caráter estratégico para os trabalhadores e trabalhadoras que vivem da agricultura familiar, caso dos assentamentos do MRLT. Agnaldo também reiterou a disposição do Movimento em continuar apoiando a luta em defesa do Banestes. “Nós sabemos plantar e fazer luta. A luta de vocês é nossa também!”. 

A presidenta da CUT-ES também marcou presença no evento. Clemildes Cortes Pereira enalteceu a história de luta da categoria bancária do Espírito Santo. “Essa luta tem sido decisiva para manter o Banestes público e estadual. A CUT sempre acompanhou essa luta e continuará apoiando”. Clemildes falou ainda da importância das mulheres ocuparem posições de destaque na sociedade. Parabenizou a trajetória de luta da dirigente do Sindicato Rita Lima e elogiou a eleição de uma mulher para representar os empregados no Conselho de Administração do Banestes.  

A conselheira eleita Sibia Karen Ribeiro Bozetti é a primeira mulher a ocupar o Conselho de Administração do Banestes. Ela disse que defender a manutenção do Banestes público, é defender a soberania do Espírito Santo. Sibia afirmou que será o canal dos empregados e empregadas do Banestes no Conselho de Administração do banco. 

Ricardo Gobbi, diretor de Seguridade da Fundação Baneses (Fundação Banestes de Seguridade Social) comparou os bancos privados a um serviço de transporte de luxo. “Eles só vão querer circular onde têm pessoas com dinheiro”. Gobbi usou a analogia para apontar que se o Espírito Santo não tivesse o Banestes, diversos municípios com menor capacidade financeira estariam sem agência bancária hoje. Ele destacou a capilaridade do Banestes, presente nos 78 municípios capixabas. “O banco público não pode ter o lucro como objetivo direto”. Ele alertou ainda que a sanha da privatização nunca parou no Brasil, advertindo que é preciso se manter sempre em vigília ante as ameaças privatistas. 

Figura presente em quase todos os atos em defesa do Banestes, a diretora da Banespar (Associação de Participantes, Assistidos e Beneficiários da Fundação Banestes de Seguridade Social), Arlete Pavezi Paulo, na mesma linha de Gobbi, também reforçou a importância do Banestes, especialmente no interior do Estado. “Se a agência do Banestes fechar em alguns municípios, a economia dessas cidades morre. Os bancos privados não se preocupam com a função social de uma instituição financeira. Nós, aposentadas e aposentados, iremos estar sempre ao lado desta luta em defesa do Banestes”. 

“Reafirmo o compromisso do nosso partido com a manutenção do Banestes público e estadual no fomento em garantir o desenvolvimento socioeconômico do Estado”, afirmou o presidente estadual do PSOL, Wellington Barros. Também do PSOL, a deputada estadual Camila Valadão afirmou que é uma defensora histórica do banco capixaba. Ela contou que desde criança tem uma relação afetiva com o banco. “Minha avó ía ao Banestes todos os meses para sacar o benefício da aposentadoria e muitas vezes eu a acompanhava. Ela confiava nos servidores do Banestes porque se sentia acolhida. O Banestes sempre teve essa tradição de oferecer um atendimento qualificado e humanizado”. A deputada destacou a importância da luta histórica para impedir a privatização do banco. Camila afirmou que a defesa do banco é uma pauta permanente. Ela acrescentou ainda que hoje há um modelo de privatização fatiada que ameaça as empresas públicas. “Não parece privatização, mas é”, alertou. 

O senador Fabiano Contarato (PT) também fez uma fala em apoio à manutenção do Banestes público e estadual. Contarato destacou a presença do banco nos 78 municípios capixabas, as diversas linhas de crédito que o banco oferece à população, às microempresas e à agricultura familiar. Ele falou que a vocação social do banco fomenta o desenvolvimento do Estado e ajuda a reduzir as desigualdades sociais. “O Banestes é nosso!”, bradou.

Importância dos bancos públicos estaduais

Na mesa central do Congresso, representantes dos sindicatos dos bancários do Espírito Santo, Pará e Rio Grande do Sul debateram a importância dos bancos públicos em seus estados. Carlão apresentou dados que comprovam a participação do Banestes no desenvolvimento socioeconômico do Estado. Ele fez um recorte do ano de 2025. Carlão destacou que do lucro de R$ 413 milhões, R$ 219 milhões (53%) retornaram para os cofres do governo e foram revertidos em políticas públicas para a população capixaba. Outra parte, R$ 176 milhões (42,7%), foi incorporada ao patrimônio líquido do banco. “O lucro que vai para o patrimônio líquido também retorna indiretamente para a população. Esse dinheiro irá ampliar a capacidade de operação do banco, ou seja, o banco pode abrir mais linhas de crédito para fomentar a agricultura, as micro, pequenas e médias empresas e outras iniciativas que gerem desenvolvimento para o Estado”. O dirigente lembrou que R$ 18 milhões (4,4%) foram distribuídos aos acionistas. “Se o Banestes fosse privado, 100% do lucro iria para os bolsos dos acionistas. A essa altura esse lucro estaria sendo especulado em paraísos fiscais fora do Brasil”. 

O dirigente também destacou a importância estratégica do banco nos momentos de grandes crises. Ele citou a pandemia da Covid-19. Carlão lembrou que durante a pandemia, o governo, por meio do Banestes, abriu linhas de crédito de emergência para socorrer pessoas físicas e jurídicas impactadas financeiramente pela crise sanitária. 

Durante as enchentes de 2020 e 2024, Carlão relembrou que o Banestes também teve papel decisivo para mitigar os efeitos da tragédia climática. “Foram abertas diversas linhas de crédito, como o Cartão Reconstrução, que destinou R$ 3 mil às famílias de baixa renda de municípios que haviam decretado calamidade”. O programa Nosso Crédito também destinou até R$ 21 mil, a juro zero, para MEIs e micro empresas, com 12 meses de carência e mais 36 meses para pagar. “São exemplos que mostram a importância do banco público para a população capixaba. Não podemos e não vamos abrir mão do Banestes. O Banestes será sempre da nossa conta!”. 

Dirigente do Sindicato dos Bancários do Pará, Gilmar Santos compartilhou com os colegas capixabas a experiência do Banpará. Ele também destacou a capilaridade do banco público em um estado com desafios geográficos, no qual muitos municípios só têm acesso por vias fluviais. 

Diferentemente do Banco do Brasil, Caixa e Banco da Amazônia — que vêm reduzindo presença física nos municípios —, o Banpará é o único banco público que segue contratando, abrindo novas agências, com a meta de chegar a todos os 144 municípios do Pará.

Gilmar também destacou a importância social do banco para a população paraense. Ele falou sobre as linhas de crédito que o banco oferece para pequenos e microempreendedores, com destaque para o Programa Empodera, que destina linhas de crédito especiais para mulheres empreendedoras. 

O presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região, Luciano Fetzner, após ouvir os relatos de Carlão e Gilmar, afirmou que viu vários pontos em comum com o Banrisul. “Acho que as experiências positivas têm de ser copiadas”, disse Luciano, destacando a importância das trocas e das experiências positivas que podem servir de inspiração. 

Ele tomou como exemplo o caso do plebiscito. O dirigente gaúcho lembrou que o movimento sindical, em conjunto com a sociedade civil, conseguiu incluir na Constituição estadual do Rio Grande do Sul uma “trava” que impedia a venda direta do banco. A PEC do plebiscito, contou Luciano, foi aprovada na gestão do governador Olívio Dutra. “A PEC protegeu o Banrisul por quase 20 anos — até ser derrubada pelo governo Eduardo Leite, em 2021”, lamentou.

O dirigente relatou que à ocasião houve uma luta ferrenha do movimento sindical e da sociedade para impedir que Leite derrubasse a trava do plebiscito. “Infelizmente, perdemos por um voto”. A PEC 280 que derrubou o plebiscito, além do Banrisul, tornou vulnerável outras duas empresas públicas: a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio Grande do Sul (Procergs) e a Corsan – companhia de água e saneamento. O Banrisul e Procergs ainda são públicas, mas a Corsan foi privatizada logo depois da aprovação da PEC. 

Luciano afirmou ter ficado feliz em saber que a proposta de uma PEC para criar um plebiscito para impedir a venda direta do Banestes está consignada no termo de compromisso apresentado aos candidatos ao governo. O dirigente acrescentou ainda que o intercâmbio entre os cinco bancos públicos sobreviventes – Banrisul, Banestes, Banpará, Banco de Sergipe e BRB – é um ativo estratégico que precisa ser expandido. Ele sugeriu um encontro nacional entre os cinco bancos públicos estaduais para a troca de experiências. 

Termo de compromisso

Em horários diferentes, devido às agendas de campanha, os candidatos foram passando pelo Congresso para assinar o termo de compromisso. O candidato petista Helder Salomão foi o primeiro a assinar o termo. Ele manifestou seu apoio incondicional ao Banestes público e estadual. “Assinei o termo de compromisso para que o nosso banco seja cada vez mais forte e fortaleça nosso trabalho no Espírito Santo”.

 Demuner acompanhou o Congresso e cravou de pronto sua assinatura no termo. Além de reiterar a manutenção do Banestes público e estadual, o candidato ao governo afirmou que a União Popular também defende a estatização do Sistema Financeiro Nacional. “Só assim garantiremos a nossa soberania”. Demuner também criticou a criação da mais nova subsidiária do Banestes, a Banestes Loterias. Ele ressaltou que os aplicativos de apostas, as chamadas bets, vêm endividando as famílias, sobretudo as mais pobres. 

O governador Ricardo Ferraço, candidato à reeleição, conseguiu uma janela na agenda de campanha e passou para assinar o termo quase no final do evento. Ferraço reiterou seu compromisso de manter o Banestes público e estadual. O candidato do MDB lembrou que o banco completa 89 anos em outubro e falou da importância do Banestes para o desenvolvimento do Estado. Destacou também os lucros recordes que o banco vem batendo ano a ano. “Quando o Banestes cresce, o Espírito Santo se fortalece. Enquanto for governador, o Banestes continuará sendo público e dos capixabas. Os resultados positivos do Banestes mostram que a empresa pode ser pública e eficiente”. 

O diretor-presidente do Banestes, Carlos Artur Hauschild, que estava acompanhando Ferraço, também enalteceu os resultados do Banestes. Destacou que o lucro de R$ 226 milhões nos primeiros seis meses deste ano é um novo recorde histórico para um semestre. Hauschild também falou que o Banestes foi recentemente avaliado como melhor banco público e estadual do Brasil. Sobre a manutenção do Banestes público e estadual, Hauschild lembrou que o Banestes detém 92,37% das ações do banco. “Esse 92% são dos quatro milhões de capixabas que são os verdadeiros acionistas do banco”, afirmou. 

O candidato Breno Barcelos alegou conflito de agenda, mas mandou para representá-lo o candidato a deputado estadual Danley Vieira (Missão). Ele reiterou a posição do candidato Breno de manter o Banestes público enquanto o banco for lucrativo. “Reforçamos a manutenção do Banestes como banco público de forma pragmática. Se a empresa pública está cumprindo sua missão social e é superavitária, continuaremos apoiando. O Banestes cumpre sua missão social e tem resultados positivos”. Em seguida, Vieira pediu para exibir um curto vídeo de Barcelos com essa mesma posição. 

Carlão encerrou o evento agradecendo a presença das mais de 200 pessoas que prestigiaram o congresso. O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários reafirmou a importância de três dos cinco candidatos terem assinado o termo. Registrou que o Sindicato fez contato com a assessoria do candidato Pazolini, mas que ele não deu retorno. “Vamos cobrar uma posição do candidato do Republicanos. Até o momento, ele não se posicionou. Vamos aguardar também a formalização da assinatura do termo do candidato Breno Barcelos”. 

Confira as fotos do Congresso

Fotos: Sérgio Cardoso (Sindibancários/ES)