O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, foi para a mídia nesta quinta-feira, 24, exaltar o lucro de R$ 17,3 bilhões apurado em 2021 pelo banco público. Guimarães destacou que a Caixa alcançou os maiores lucros dos seus 161 anos de história nos últimos três anos, acumulando R$ 51,5 bilhões. A empolgação de Guimarães, frente aos resultados, esconde a realidade dos números.
A conselheira de Administração da Caixa, Rita Serrano, joga luz sobre os resultados alcançados pela gestão Guimarães de 2019 para cá, e revela que os lucros apurados nos últimos três anos foram inflados pela venda de ativos.
Segundo Rita Serrano, R$ 7,15 bilhões (41,43%) do lucro de R$ 17,3 bilhões de 2021 são oriundos de eventos não recorrentes. Essa situação ocorreu também nos anos de 2019 e 2020, quando os eventos não recorrentes representaram, respectivamente, 68% e 34% do lucro líquido da Caixa (veja tabela abaixo).
QUADRO COMPARATIVO EVENTOS NÃO RECORRENTES X LUCRO LÍQUIDO DA CAIXA

O diretor do Sindicato dos Bancários/ES Igor Bongiovani tem acordo com a crítica da representante dos empregados da Caixa. “Como fica evidente no quadro comparativo [acima], separando os eventos não recorrentes, a gestão Pedro Guimarães tem mascarado os reais resultados”. Bongiovani afirma que dos R$ 51,1 bilhões festejados por Guimarães nos últimos três anos, R$ 25,95 bilhões, ou seja, mais da metade, vieram de eventos não recorrentes. “Isso ficou muito claro com o aumento do lucro em razão da venda da Caixa Seguridade, no ano passado”, aponta Bongiovani.
O dirigente ressalta que os resultados decorrentes da venda de ativos comprometem a sustentabilidade da instituição. “Preocupa-nos o fato de a metade do lucro dos últimos três anos não ter sido produzido por atividades financeiras. Este ano não temos mais a Caixa Seguridade para inflar o lucro ou tampouco para fortalecer a rentabilidade do banco. Essa política de canibalização de ativos vai deixar só o esqueleto da Caixa”, adverte Bongiovani.
“Venho atuando como conselheira contra o cenário de privatização das operações que, aliado a outros fatores, como perda de participação de mercado, mudanças no FGTS, loterias, quebra de monopólio do penhor e, outros, poderá, no médio prazo, causar problemas para a sustentabilidade da Caixa e sua manutenção como instituição pública”, assevera Rita Serrano.
Eventos não recorrentes acumulados em 2021
R$ 1,472 bilhões – acordos operacionais CAIXA Seguridade (TokioMarine, IcatuSeguros, CNP e TempoAssist)
R$ 1,863 bilhões – Venda de ações Banco Pan
R$ 3,270 bilhões – Venda de ações CAIXA Seguridade
R$ 315 milhões – Acordo CAIXA Cartões
R$ 136 milhões – Venda imóveis FII CAIXA Agências
R$ 97 milhões – PDV
Caixa aparelhada
O dirigente chama a atenção para o aparelhamento político-eleitoral do banco, que está abertamente a serviço do projeto de reeleição de Bolsonaro. Dentro dessa política de favorecimento, Bongiovani destaca que as receitas com operações de crédito voltadas para o agronegócio, por exemplo, registraram crescimento em 2021 de 187,9%. Ele lembra também que foram abertas 100 agências geograficamente posicionadas para atender ao agronegócio.
“Essa injeção de crédito e a abertura de novas agências não vão beneficiar os segmentos mais vulneráveis da população. Esse deveria ser o propósito da Caixa como banco público: manter políticas voltadas para o social. Mas Guimarães usa a Caixa para beneficiar o agronegócio, uma das bases eleitorais mais importantes de Bolsonaro”, aponta o dirigente.
Empregados na berlinda
Se Pedro Guimarães diz ter motivos de sobra para comemorar os resultados, os empregados e as empregadas da Caixa não podem compartilhar desse clima festivo. A atual política do banco, ressalta Bongiovani, não valoriza os empregados. “Muito ao contrário, a gestão Guimarães tem imposto metas cada vez mais desumanas; endurecido as negociações com os empregados quando o assunto é direitos e garantias trabalhistas. Não há preocupação com a saúde do trabalhador. Os protocolos contra a covid são frequentemente ignorados. A direção do banco não leva em consideração que os empregados e as empregadas, desde o início da pandemia, não se omitiram em encarar o vírus para assegurar o pagamento do auxílio emergencial e outros benefícios sociais cruciais à população mais vulnerável”, diz o dirigente.
Rita Serrano também destaca a importância dos empregados e das empregadas da Caixa, especialmente durante a pandemia. “Os empregados, verdadeiro patrimônio humano do banco, que mesmo sob forte pressão por resultados, sob risco de contágio pela covid, estiveram e continuam à frente, sem trégua, do atendimento a milhões de brasileiros desamparados pela crise social, sanitária e econômica”, sublinha a conselheira.

