Em sua obra antológica “Vigiar e Punir”, Michel Foucault descreve o modelo panóptico (do grego pan, “tudo”, e óptico, “visão”) como um mecanismo no qual um indivíduo é constantemente visto, mas não sabe se está sendo observado. Em 1975, quando publicou o livro, o filósofo francês não imaginava que a tecnologia poderia elevar o modelo de vigilância e punição a níveis tão perversos. Pois o Itaú conseguiu. O banco recorreu à Inteligência Artificial (AI) para monitorar (vigiar) e demitir (punir) mais de 1.000 bancários e bancárias. 

Ainda sob o impacto das demissões que foram anunciadas na segunda-feira (08), a coordenação da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Itaú se reuniu nesta terça-feira (09) com os representantes do banco. A coordenação da COE exigiu a revisão imediata das demissões. O banco, porém, aceitou avaliar apenas as demissões de pessoas adoecidas. Justificou que os empregados estavam sendo monitorados há mais de seis meses e foi detectada “baixa aderência ao home office”.

O Sindicato dos Bancários/ES repudia veementemente a demissão em massa promovida pelo Itaú. “Esses desligamentos são arbitrários e mostram o total desrespeito do Itaú pelos seus funcionários. As demissões também são uma afronta ao povo brasileiro. Internamente o banco promove uma política draconiana, tratando seus funcionários como peças que podem ser descartadas de uma hora para outra; para seus clientes impõe juros escorchantes e demonstra ter compromisso zero com o papel social que um banco deveria cumprir”, assinala Marcelo Dalarmelina, que completa: “É inaceitável que um banco que lucrou mais de R$ 40 bilhões em 2024 e R$ 22 bilhões só nos seis primeiros meses deste ano, bote mais de mil trabalhadores na rua. Estamos falando de trabalhadores e trabalhadoras que entregaram anos de suas vidas para construir os resultados recordes do banco”. 

IA como ferramenta de avaliação
Marcelo, que também integra a COE, chama a atenção para o processo das demissões. O dirigente critica o uso da IA para avaliar os empregados. “Soubemos que a IA avaliou os colegas por seis meses, mas em nenhum momento alertou esses trabalhadores sobre essa suposta ‘baixa aderência’. É no mínimo polêmico. Em última análise, os empregados foram demitidos por uma máquina. Esse é um critério pra lá de questionável do ponto de vista ético e moral”. Para Marcelo, o banco precisa abrir urgentemente uma mesa de diálogo para discutir o uso da IA no ambiente de trabalho. “Hoje a IA está sendo usada como uma ferramenta para vigiar e punir, como explicou Foucault meio século atrás”. 

A intenção do banco com este sistema perverso de controle, continua o dirigente, é gerar autodisciplina e medo nos empregados. A vigilância constante tem como objetivo fazer com que o trabalhador se autocontrole. “No limite, o sistema quer que o empregado pense duas vezes para ir ao banheiro ou para pegar uma xícara de café”.

Lucro não justifica demissões
O lucro somado do Itaú de janeiro do ano passado a junho deste ano passa de R$ 62 bilhões. O maior banco do país em ativos e com lucros recordes recorrentes segue fechando postos de trabalho e agências bancárias. Em 12 meses, o Itaú cortou 518 postos de trabalho, reduzindo o quadro de pessoal da holding a 85.775 empregados.

Nos anos de 2023 e 2024, 57,1% das licenças por acidente de trabalho concedidas a bancários foram causadas por transtornos mentais e comportamentais. “O resultado deste modelo opressor é o adoecimento mental dos empregados do Itaú. Se fizermos um levantamento, vamos constatar que muitos desses empregados demitidos sofrem de alguma doença mental. É estatístico, as pesquisas têm comprovado o adoecimento epidêmico da categoria. Agora com a IA fazendo as vezes de capataz da opressão, a tendência é de que esses índices aumentem ”, lamenta Marcelo.