Isolamento intensifica cenário de violência doméstica

04/03/2021 09:09

O convívio prolongado com os agressores no ambiente doméstico elevou os números de violência contra a mulher nos primeiros meses da pandemia. Os dados, referentes ao primeiro semestre de 2020, foram publicados e analisados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Romper ciclo de violência ainda é desafio para muitas mulheres

Passados um ano da confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil, completos no último 26 de fevereiro, a sociedade ainda calcula os impactos econômicos e sociais da pandemia. A perda mais grave certamente é a humana, esta, infelizmente, irreversível: já são mais de 250 mil mortes, numa batalha que acontece contra o vírus, mas também contra a inoperância dos governos estaduais e do governo federal. 

Mas a crise sanitária também deixou outras fraturas, às vezes menos visíveis. É o caso do aumento dos casos de violência doméstica e de feminicídio no Brasil. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, analisou estatisticamente o impacto da pandemia nos seis primeiros meses do ano, ou seja, primeiros meses da crise sanitária, em relação aos casos de violência de gênero. Tanto homicídios dolosos de mulheres quanto feminicídios tiveram crescimento. 

Em relação aos homicídios, as vítimas do sexo feminino foram de 1.834 para 1.861, um crescimento de 1,5%. Já as vítimas de feminicídio, quando a morte é motivada diretamente por fatores de gênero, passaram de 636 para 648, aumento de 1,9%. Nacionalmente, o 190, telefone de emergência da Polícia Militar, recebeu um número 3,8% maior de ligações referentes à violência doméstica. 

A análise dos dados indica que o isolamento social, apesar de eficaz para conter o avanço da pandemia, contribuiu para que mulheres em situação de violência doméstica ficassem ainda mais expostas a seus agressores — em geral seus próprios companheiros. 

Em relação às violências não letais, a pesquisa apresentou uma redução de diversos indicadores, como lesão corporal dolosa (-9,9%), ameaça (-15,8%) e estupro (-22,6%), seguindo tendência inversa aos indicadores de feminicídio. O relatório, no entanto, é cauteloso ao tratar os dados e aponta que não há o que comemorar. As quedas aconteceram justamente em crimes que exigem a presença física da vítima para a abertura de inquérito, o que significa que o registro dos casos também foi impactado pelas restrições impostas na pandemia. 

Além da orientação de distanciamento social, a presença quase permanente do agressor em casa também foi um fator inibidor para que as mulheres formalizassem as denúncias, favorecendo a subnotificação –um problema que já existia antes da pandemia, mas que nessas condições foi agravado. 

Para o Coletivo de Mulheres do Sindibancários/ES, os dados reforçam a urgência de promoção de políticas específicas de combate à violência de gênero que considerem os desafios impostos pela pandemia, sobretudo diante da imprevisibilidade do fim da crise sanitária. 

“Sabemos que a superação do machismo e da violência contra a mulher requerem mudanças estruturantes na sociedade. No entanto, não podemos ignorar que a quarentena cria condições para que essas relações opressoras sejam vivenciadas com maior intensidade no ambiente doméstico, ampliando o ciclo de dor de milhares de mulheres. O poder público não pode fechar os olhos para essa realidade”, diz Rita Lima, bancária da Caixa e diretora do Sindicato. 

“Completamos um ano de crise sanitária e, mesmo com o início da vacinação, não há certeza sobre quando teremos condições seguras de circulação. Além de ter que lidar com a instabilidade financeira e o aumento das responsabilidades domésticas, é doloroso e revoltante pensar que, na tentativa de se proteger do vírus, as mulheres ainda estejam se expondo a uma ameaça tão ou mais letal, dentro da própria casa”, completa Evelyn Flores, também dirigente sindical.

Como reconhecer o ciclo da violência

Se ficar em casa é a recomendação necessária para se prevenir da covid-19, como se prevenir de situações de violência dentro do próprio lar? Primeiro, é essencial reconhecer e desnaturalizar a violência doméstica para conseguir romper com o chamado “ciclo da violência”, ou seja, situações de agressão que se repetem num contexto de relacionamento conjugal abusivo ou violento. Essas situações podem ser organizadas em três fases, que são bem explicadas pelo Instituto Maria da Penha:

Fase 1 – Aumento da tensão

O agressor se mostra frequentemente irritado por pequenas coisas, demonstra raiva, humilha e faz ameaças à vítima. Nesse momento, a mulher tende a negar (para si e para os outros) o que está acontecendo e buscar justificativas para a postura violenta do agressor, como estresse no trabalho e etc. É comum que ela atribua para si a responsabilidade pelo ocorrido, pensando que pode ter feito algo de errado para provocar a situação. Num mix de sensações como tristeza, angústia, ansiedade e medo, a mulher tenta acalmar o agressor e evitar qualquer atitude que possa desagradá-lo.

Essa fase pode ser mais ou menos duradoura, mas se não for interrompida, provavelmente será intensificada e levará à fase dois.

 

Fase 2 – Ato de violência

Fase em que a tensão acumulada se materializa em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial, com a perda de controle por parte do agressor.

Apesar de saber que o agressor tem poder destrutivo sobre a sua vida, muitas vezes a mulher não esboça reação, demonstrando paralisia. Nesta fase ela sofre pressão psicológica severa, que pode resultar em insônia, perda de peso, fadiga e ansiedade. Ela também sente medo, ódio, solidão, pena de si mesma, vergonha, confusão e dor.

Mas também podem ocorrer tomadas de decisão, e geralmente é o momento em que ocorre o distanciamento do agressor, quando a vítima pede ajuda, denuncia, busca abrigo na casa de amigos ou familiares, pede a separação ou até mesmo tenta o suicídio.

 

Fase 3 – Arrependimento e comportamento carinhoso

Esta fase, também conhecida como “lua de mel”, é quando o agressor se demonstra arrependido e se torna amável na tentativa de obter a reconciliação.

Para a mulher, fica um sentimento confuso diante da promessa de que ele vai mudar. Há a demonstração de remorso do agressor e a lembrança de momentos bons da relação. Ela se sente responsável pelo cônjuge e pressionada a manter o relacionamento, especialmente quando o casal tem filhos.

Sentimentos de medo, ilusão e culpa se confundem nesse momento, até que o ciclo se reinicie com as tensões e agressões da primeira fase.

Denuncie

Conseguir identificar situações que ofereçam risco à mulher é mais que importante. Mas é preciso dar o passo seguinte para romper o ciclo da violência. Busque ajuda e denuncie. Você não está sozinha.

  • Ligue 180 Central de Atendimento à Mulher, para buscar informações sobre violência contra a mulher e orientações;
  • Ligue 181 Para fazer uma denúncia de violência
  • Ligue 190 Em caso de flagrante de violência, para acionar a Polícia Militar
  • Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher – DEAM Vitória: Rua Cândido Portinari, s/n. Santa Luíza, Vitória/ES. Aberta das 8h às 18h Telefone: (27)3137-9115
  • Defensoria Pública – Núcleo de Defesa dos Direitos da Mulher (NUDEM): Rua Pedro Palácios, 60, Ed. João XXIII, 2º andar, sala 204, Cidade Alta, Vitória/ES. Telefone: (27) 3222-2019 Núcleo especializado com objetivo de prestar assistência jurídica integral e gratuita às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, e promover a defesa de seus direitos