(Atualizada em 29/06/2020 às 12h51) A Conferência Estadual 2020 teve como primeira contribuição nessa sexta-feira, 26, uma live com a historiadora e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Virgínia Fontes, que abordou o tema “Bolsonarismo: avanço do fascismo e as crises econômica, política e a sanitária no Brasil”. A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, abriu a live com a poesia “Por que Cantamos”, do saudoso poeta e ensaísta uruguaio Mario Benedetti. Em seguida, a dirigente sindical deu as boas-vindas à historiadora e destacou o quanto era especial ouvi-la nesse momento em que categoria bancária está em luta.
O quadro da conjuntura nacional desenhado pela historiadora não foi nada animador. De um lado ela apontou a ameaça iminente de Bolsonaro e seu projeto de instalar o fascismo no Brasil; de outro, numa eventual queda do presidente, a historiadora considerou o risco de termos a volta de uma ditadura militar com Mourão no poder. Apesar do cenário nada promissor, Virgínia defendeu o caminho da luta: “A saída para as ruas é um grande dilema que vai precisar ser enfrentado com medidas de prevenção à doença e cuidados com os ataques da polícia. Mas será preciso ir às ruas ou morrer de covid ou morrer dentro de casa encolhido”.
Após contextualizar a conjuntura nacional que elegeu Bolsonaro, a partir do projeto construído pelas elites a partir do golpe que sacou Dilma da Presidência, a professora abriu a espaço para o debate. Durante duas horas ela respondeu às perguntas, garantindo um formato interativo e dinâmico à live.
“No Brasil, desde do golpe de 2016, estamos numa avalanche entre políticos corruptos, Lavajato e o empresariado. Para fazer frente à crise econômica de 2015, esses grupos decidem dar um golpe e tirar Dilma. Esses grupos se coligam para retirar direitos dos trabalhadores”. Segundo ela, o então presidente Temer inicia o “trabalho sujo” com a reforma trabalhista. Esse processo de retirada de direitos da classe trabalhadora tem sequência no governo Bolsonaro.
Para a historiadora, o golpe de 2016 é o encontro dos interesses de capitalistas que queriam se transformar em megaempresários. Ela cita como exemplo o caso do amigo do presidente Bolsonaro, Luciano Hang, dono da rede Havan, que saltou de escala nesse processo de luta interna do capital”.
Para Virgínia, a eleição de Bolsonaro teve o apoio e a complacência de parte daqueles que agora o criticam. “Todo mundo sabia quem era Bolsonaro. Temos um presidente fascista nas suas intenções, que promove o desmantelamento das estruturas públicas. Isso altera o funcionamento das empresas públicas e devasta todas as conquistas civilizatórias em todas as áreas. Destrói as poucas conquistas que tivemos a partir da Constituição de 1988”.
Pós-pandemia: um novo começo?
Na avaliação de Virgínia Fontes não haverá um novo começo se as massas não provocarem esse processo. “A pandemia pode abrir possibilidades para as lutas, mas não modifica o cenário. O mais esperado é que o custo da crise seja cobrado do andar de baixo, dos trabalhadores que estão sendo demitidos ou precarizados. A pandemia não garante nem um recomeço. O novo começo vai depender de muita luta. Ela enumerou as questões ambientais, o combate ao racismo, violência contra mulher, a uberização das relações de trabalho como problemas a serem enfrentados. “Temos uma sequência de catástrofes a enfrentar”.
Reorganização
A classe trabalhadora, segundo Virgínia, tem uma configuração completamente diferente do período da Constituinte [1988]. Ela explicou que há hoje trabalhadores com direitos, com pouco ou nenhum direito. “Temos de aprender a lutar com essa classe trabalhadora, que está muito fragilizada. Teremos que ir muito além. A defesa de direitos que é legitima precisa ser muito mais ampla”.
Protofascista, fascista ou neofascista
Avessa aos prefixos neo, pós e similares, Virgínia disse que prefere dizer que Bolsonaro é um protofascista com tendência fascista, em outras palavras, um fascista do século XXI. Para a professora, já vivemos sob ruptura das instituições democráticas. “Bolsonaro tenta dar um golpe dentro do outro golpe”, disse se referindo ao impeachment de Dilma. Ela avalia que Bolsonaro fez declarações durante a campanha e depois de eleito suficientes para sua deposição.
Virgínia alertou que com Bolsonaro no poder há sempre um risco de ruptura com as instituições democráticas. Mas ponderou que apesar da vontade de Bolsonaro de emplacar um fascismo ou uma ditatura militar não há até aqui um ambiente de aceitação interna ou externa para esse projeto. Ela disse ainda que o plano de Bolsonaro é radicalizar seus seguidores e emplacar um fascismo armado no Brasil, mas, segundo a professora, as Forças Armadas temem esse projeto fascista, apesar de continuarem com o presidente.
Home office
Virgínia acredita que o home office seja uma realidade. Ela advertiu que o modelo deve alcançar a educação privada e em seguida se impor ao ensino público. “Isso será uma degradação, porque muitas famílias não têm condições para lidar com o ensino remoto. “Mas o que vai acontecer após a pandemia é ainda uma miragem. Isso está muito distante. Mas é certo que o empresariado vai tentar degradar os contratos a partir da experiência com a pandemia. Muitos devem se acomodar à nova tragédia. E eles vão avançando sobre nós”.
Ação e reação dos trabalhadores
Os trabalhadores perderam muito com Bolsonaro (barulho de panelas interrompe a live). Todos os dias aqui onde moro, no Rio, por volta das oito horas da noite, os vizinhos batem panela contra Bolsonaro. Se não estivesse na live estaria lá batendo panela também [risos]. Então, os trabalhadores de vários setores estão perdendo e precisam enfrentar o Bolsonaro. As lutas estão aí. Os sindicatos estão com dificuldades de entrar nessa luta. As centrais estão imaginando se é melhor não mexer muito para não perder muito”.
Bolsonaro e a PM
“Bolsonaro construiu sua carreira como sindicalista ilegal das baixas patentes no Exército e nas polícias e introduziu seus filhos nesse meio. A Polícia Militar é uma excrescência. A montagem vem da ditatura empresarial militar. As polícias respondem aos governos estaduais, mas não são forças do governo. Esses grupos já eram base de apoio de Bolsonaro e esse apoio foi se intensificando após sua eleição”.
A historiadora afirmou que quando Bolsonaro fala que quer armar a população, está atendendo às demandas da sua base de apoio, incluindo aqueles que já andam armados. “Esses grupos já têm o hábito do assassinato nas cidades e no campo. Mas ele consegue hoje mobilizar esses grupos? Até aqui, não. Mas há um risco. Desarmar esses bandos é fundamental”.
Queda de Bolsonaro
Para Virgínia Fontes, Bolsonaro pode liderar alguma coisa como o fascismo no Brasil. “Tirar Bolsonaro é central. Com Mourão a proposta é de uma ditadura militar. Seria uma catástrofe também, mas ainda sim menos pior que o fascismo. Mas uma ditadura é inadmissível. Há risco? Há. A segunda parte do golpe está mais difícil. Mas depende da nossa capacidade de enfrentamento”, provocou a historiadora.









