Na semana do Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, ganhou repercussão no Brasil um crime bárbaro cometido contra uma travesti negra no Estado do Piauí, no último dia 19. As imagens divulgadas nas redes sociais causam repulsa a quem guarda sentimentos de humanidade.
Com braços e pernas amarrados, Paloma Amaral, a Amaral, como é conhecida, aparece presa no porta-malas de um carro, sendo torturada por dois homens com ajuda de um pedaço de madeira. Depois, é jogada ao chão, onde as agressões continuam. A violência foi acompanhada por uma equipe da Guarda Civil Municipal de Teresina, que assistiu passivamente.
O caso foi denunciado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais, a Antra, que tem cobrado das autoridades Piauienses apuração e providência. Segundo a Antra, após a repercussão do caso, Amaral foi acolhida pelos movimentos sociais e pela rede de proteção à violência LGBTIfóbica de Teresina.
As imagens de tortura de Amaral nos remetem ao passado escravista brasileiro, contra o qual lutou Tereza de Benguela, líder quilombola do século XVIII a quem é dedicado no Brasil o Dia da Mulher Negra, Latino-americana e Caribenha. Nos lembra porquê, mais de 130 anos após a o fim da escravidão no país, a luta e a resistência das mulheres negras continua viva e necessária. São elas, afinal, que amargam aqui os piores indicadores econômicos e sociais, sendo também as principais vítimas do feminicídio.
Em relação aos indicadores que incluem homens e mulheres negras, a população negra brasileira, apesar de ser pouco mais da metade da força de trabalho (54,9%), formava em 2018 cerca de ⅔ dos desocupados (64,2%) e dos subutilizados (66,1%). Entre os ocupados, o rendimento médio mensal das pessoas brancas (R$ 2.796) foi 73,9% superior ao das pretas ou pardas (R$ 1.608).
Incluindo o recorte de gênero na análise dos dados, enquanto as mulheres receberam 78,7% do valor dos rendimentos dos homens, em 2018, pretos e pardos receberam apenas 57,5% dos rendimentos dos brancos. Já mulheres pretas ou pardas recebem menos da metade do que os homens brancos auferem (44,4%). Os dados são do relatório “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, do IBGE, que aponta diferenças semelhantes nos levantamentos de acesso à moradia e à educação, por exemplo.
Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2020 destaca que, das 1326 mulheres vítimas de feminicídio em 2019, 66,6% eram negras.
Os dados nos mostram que ainda há um abismo social no Brasil profundamente marcado pelo preconceito racial e de gênero. O caso de Amaral é simbólico porque ilustra a realidade de inúmeras mulheres trans e travestis que se encontram em situação de vulnerabilidade social, cujo cotidiano conjuga a marginalização da pobreza com o racismo e a transfobia. E por mais difícil que seja visualizar cenas de tortura como a vivenciada por Amaral, é preciso tornar essa violência visível para que ela seja combatida. Sobretudo por que essa violência não é apenas um caso isolado, ao contrário, é mais um exemplo de uma violência sistêmica que se repete de diferentes formas no cotidiano das mulheres negras.
Falar sobre isso também é importante porque, se por um lado o racismo opera apagando a história de mulheres e homens negros, é nosso papel dar visibilidade às violências que persistem ao tempo, bem como aos processos de resistência e às conquistas que constituem nossa história, para que trajetórias como a de Tereza de Benguela não sejam apagadas. É preciso que essa dor vire revolta compartilhada e luta organizada, como fez Tereza.
Viva Tereza de Benguela; viva as mulheres negras, latino-americanas e caribenhas!
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