Os quatro maiores bancos brasileiros registraram um resultado de R$ 112,7 bilhões no ano passado. Em relação ao resultado 2023, os bancos cresceram 18,3%. O líder isolado da marca recorde é o Itaú, que registrou lucro de R$ 41,4 bilhões e responde por 38% desse resultado global. O CEO do Itaú, Milton Maluhy, revelou o segredo do sucesso. Ele atribuiu o resultado à estratégia do banco de apostar suas fichas nos clientes de alta renda. Praticamente imunes ao binômio Selic alta e juros indecentes, esse segmento não é candidato à inadimplência e ainda costumam surfar na farra dos juros altos, apostando em investimentos especulativos.

No rastro do Itaú, os concorrentes estão remodelando suas estratégias para conquistar os clientes de alta renda. O programa Inova do Banco do Brasil, por exemplo, tem o propósito de reestruturar o banco público para torná-lo mais competitivo nesse segmento. Uma das ações polêmicas do Inova é o encarteiramento dos clientes. Com base no perfil, os clientes foram redistribuídos a partir da seguinte premissa: cliente “bom” tem de ser atendido pelos melhores funcionários do banco. O BB também vem fechando agências e extinguindo funções, como a de caixa, que já não tem espaço nesse novo modelo de gestão.
Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional dos Bancários, os grandes bancos assumiram abertamente essa política segregacionista. “Isso já vem ocorrendo há alguns anos. Os bancos estão fechando postos de trabalho e agências porque não têm mais interesse em atender os clientes com saldo mais modesto e muito menos o usuário do sistema que procurava a agência para pagar um boleto ou pedir um pequeno empréstimo. Esses clientes foram empurrados para as franjas do sistema financeiro e hoje são atendidos pelos correspondentes bancários”, diz Carlão.
Segundo o dirigente, os bancos desprezam esses clientes e usuários, que são obrigados a recorrer ao subterrâneo do sistema financeiro, onde são atendidos por trabalhadores precarizados e em locais muitas vezes insalubres, que conjugam outras atividades comerciais com as bancárias.
Reestruturação para ampliar o lucro
O setor bancário está encolhendo enquanto outros segmentos do ramo financeiro seguem em franca ascensão. O assessor econômico de entidades sindicais bancárias do Dieese Gustavo Cavarzan explica como esse processo se intensificou na última década. Um dado da sua pesquisa mostra que os bancários, que representavam 80% do ramo financeiro em 1994, em 2021, eram apenas 44%. Segundo o pesquisador, o processo de encolhimento da categoria bancária se intensifica na última década e tem inúmeras facetas como terceirização, plataformização, fragmentação, pejotização e assim por diante. “Esse movimento tem o objetivo claro de reduzir custos com força de trabalho, à medida que os bancos seguem se apropriando do resultado do trabalho destes segmentos periféricos de trabalhadores do setor financeiro, com custo menor a base de precarização das condições de trabalho. É difícil dizer o peso exato da terceirização nesse processo, na medida em que um grande problema em estudar e compreender a terceirização é justamente a dificuldade em detectar esses trabalhadores nas bases de dados”, afirmou Cavarzan em entrevista ao Sindicato em no final de 2024.
Fragmentação
De acordo com dados do Banco Central (BC), disse Cavarzan, existem cerca de 240 mil estabelecimentos empresariais prestando serviço como correspondentes bancários, uma quantidade cerca de 14 vezes maior do que o número de agências bancárias no país. Ainda, de acordo com o BC, estes milhares de estabelecimentos são contratados por 293 instituições financeiras como bancos, cooperativas de crédito, financeiras, agências de fomento. “Portanto, ainda que não saibamos exatamente o número de pessoas envolvidas na terceirização nos bancos, é possível afirmar que esse mecanismo é sem dúvida o mais difundido quando pensamos na fragmentação do emprego no setor com objetivo único de redução de custos à base de precarização do trabalho”, apontou o assessor do Dieese.
Reforma sindical
Na avaliação de Cavarzan, é preciso pensar uma reforma sindical que dê conta de dar respostas a esse mercado de trabalho fragmentado, umas das características do capitalismo contemporâneo. “A partir da reforma sindical e da própria reestruturação interna do movimento sindical é possível sim pensar em formas de representar e defender condições de trabalho dignas para todos os trabalhadores que estejam na cadeia de valor dos bancos. O mesmo raciocínio vale para os demais setores da economia”, ressaltou.

