A última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (Bacen) foi acirrada e revelou que há um racha na direção da instituição que arbitra a Selic – a taxa básica de juros que norteia os principais indicadores econômicos do país. Além de Roberto Campos Neto, outros quatro diretores indicados por Bolsonaro têm sido resistentes em baixar a taxa. No primeiro ano do governo Lula, a Selic se manteve, na média, acima de 13%. Este ano caiu um pouco, mas seguiu alta: média de 10,8%. Na última votação, a ala bolsonarista do BC defendeu a queda de apenas 0,25%. Já o quarteto de dirigentes da cota do presidente Lula queria o corte dobrado: 0,50%. Campos Neto deu a voto de Minerva, é claro, a favor dos bolsonaristas. Com a decisão, a Selic ficou em 10,5% ao ano, índice que mantém o Brasil como vice-líder mundial da maior taxa real de juros.
A Selic elevada tem sido o principal ponto de tensão entre o ministro da Economia, Fernando Haddad, e o presidente do BC. Indicado por Bolsonaro, Campos Neto parece nutrir uma gratidão pelo ex-presidente e se mantém fiel à política econômica de Paulo Guedes.
A posição conservadora de Campos Neto, no entanto, não se justifica a partir dos indicadores econômicos do país. Essa tem sido a opinião de analistas que estranharam as projeções de inflação do Boletim Focus. Para entender se está havendo uma suposta manipulação da Selic, que gera instabilidade na economia, é preciso entender primeiro como funciona o Boletim Focus. O documento semanal é produzido pelo BC a partir de informações enviadas por bancos, corretoras e consultorias. O Boletim compila os dados enviados ao BC por cerca de 150 fontes financeiras, que, em última análise, vão definir os rumos da economia do país. Uma ou mais instituições que compõem esse poderoso grupo – não se sabe ao certo qual ou quais, porque os dados repassados pelos analistas ao BC ficam sob sigilo – praticamente dobraram as projeções de juros, ou seja, a taxa prevista para 2026 saltou da média de 4% para 8%.
O duplo twist carpado da taxa de juros chamou a atenção do ex-banqueiro Eduardo Moreira, apresentador do canal ICL Notícias, do qual também é o fundador. O site funciona como braço do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), que financia o canal. Moreira mostrou pedagogicamente que a projeção de 8% não corresponde à expectativa com relação à inflação. Ele afirmou que o ICL pediu, com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), a lista com as projeções das instituições para identificar qual ou quais delas elevaram a estimativa de inflação sem sustentação nos dados da economia. Moreira questionou ainda a dita independência do BC. “Independência do Banco Central é papo para boi dormir. A pergunta a ser feita é: o Banco Central é dependente de quem? A gente criou um modelo esdrúxulo, em que o BC é dependente do governo anterior. Olha que maluquice: temos hoje à frente da instituição alguém que era absolutamente ligado ao governo anterior. Roberto Campos Neto fazia contas para estimular e ajudar a campanha de Bolsonaro”, denunciou.
Outro analista que discordou do corte de 0,25% da Selic foi André Roncaglia, doutor em Economia do Desenvolvimento pela FEA-USP, professor da Unifesp e colunista da Folha de S. Paulo. O economista repercutiu a decisão do Copom à revista Carta Capital. Roncaglia disse que o racha na reunião do Copom não pode ser interpretado apenas como uma divergência técnica, mas como um possível aumento de volatilidade impulsionado pelo mercado em função do processo de sucessão de Campos Neto, que se aproxima. Para ele, a tendência é que o mercado eleve a chamada taxa terminal da Selic com o objetivo de assegurar um retorno maior ante o “risco” de, após a saída de Campos Neto, haver uma diretoria favorável a cortes mais acelerados.
Eduardo Moreira insistiu, no ICL Notícias, que algumas instituições elevaram a média para enfraquecer o ministro Fernando Haddad, o diretor de política monetária do BC, Gabriel Galípolo, que deve ser o sucessor de Campos Neto, e toda a área econômica do governo. Ele exibiu uma tabela do Boletim Focos para mostrar o salto exponencial da taxa de inflação projetada. Moreira aponta que a projeção máxima, no Boletim Focus de 22 de abril, previa o IPCA (Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo) máximo de 4,5%. No Boletim do dia 17 de maio, portanto, menos de um mês depois, esse índice foi para 8%.
Um outro site que faz essas mesmas projeções de mercado, apontou Moreira, divergiu dos dados do Focus. “O Broadcast faz uma pesquisa parecida com a Focus e pede para os bancos darem os nomes. Nessa versão, a expectativa de inflação para 2026 está em torno de 3% e não passa de 4,03%. No boletim Focus, botaram o 8% para poder manipular as notícias e queimar o filme do governo na economia. E forçar o BC a tomar decisão em cima de uma mentira, em cima de um respondente, que é anônimo”, criticou o apresentador do ICL.
“Esse é um dos maiores escândalos recentes, ao que tudo indica combinado com o banco que jogou a previsão de 8%”. Ele associou as notícias publicadas pela grande imprensa sobre piora de cenário econômico terem saído na mesma semana do jantar organizado por Luciano Huck para Roberto Campos Neto, com a presença do governador de São Paulo Tarcisio de Freitas. “Não tem como não conectar esses pontos”, assinalou Moreira.
Repercussão
O dirigente do Sindicato dos Bancários-ES e membro do Comando Nacional dos Bancários, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), diz que a taxa Selic tem sido alvo de críticas do movimento sindical desde o governo Bolsonaro, que decidiu entregar o comando do Banco Central para os bancos. “O governo mudou mas Campos Neto se mantém fiel à política neoliberal de Guedes e Bolsonaro. Quem paga a conta dos juros altos é a classe trabalhadora. As empresas que operam no setor financeiro, especialmente os bancos, são os maiores beneficiários da Selic alta. A taxa em 10,5% é excelente para os banqueiros e outros rentistas de ocasião que especulam no mercado e não investem um único real na geração de empregos, por exemplo. Acerta Eduardo Moreira na crítica quando diz que a independência do BC é uma falácia. Essa manobra desvelada pelo ICL no Boletim Focus é uma evidência inconteste de que Campos Neto está a serviço das elites empresariais deste país”, aponta Carlão.
O dirigente acrescenta que a resistência da ala bolsonarista do Banco Central em reduzir a Selic em 0,50% é mais um indicador da parcialidade da instituição para definir a taxa de juros. “Ora, se os economistas estão olhando para os números e vendo a inflação desacelerando, as taxas de emprego subindo e a economia girando, o corte mais acentuado na Selic, como defenderam os diretores indicados por Lula, seria o melhor cenário para o trabalhador e a trabalhadora do campo e da cidade, micros, pequenos e médios empresários, que dependem de taxas mais baixas de juros para fazerem seus negócios girarem. Mas esse não é o compromisso de Campos Neto e dos bolsonaristas remanescentes que continuam no BC enriquecendo ainda mais as elites e aprofundando o fosso da desigualdade social no Brasil”, afirma Carlão.
(Foto capa: Marcello Casal Jr/Ag. Brasil)









