Dirigentes do Sindicato dos Bancários/ES se reuniram nessa terça-feira (14) com representantes do Banestes para discutir as mudanças nos editais de seleção interna abertos no último dia 29. Na abertura da reunião, o coordenador-geral do Sindicato, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), afirmou que os novos editais do Banestes estão em desacordo com a Cláusula 23ª do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) vigente. O dirigente reivindicou que o Banestes retifique imediatamente os itens dos editais que ferem o ACT. “Não queremos a paralisação do processo de seleção, até porque, foi o Sindicato que recorreu à Justiça para obrigar o banco a retomar a seleção, interrompida desde 2024. Mas não podemos aceitar que as mudanças impostas prejudiquem os empregados e empregadas que buscam a progressão de carreira no banco”, ressaltou Carlão.
Em seguida, o diretor Marcelo Giacomin expôs os principais itens que estão em desacordo com o ACT, com base no edital de Gerente de Relacionamento/Rede. Ele explicou que a redação dos 14 editais abertos pelo banco seguem um mesmo padrão nas regras que definem o processo. Giacomin destacou o item 4.2.1, o qual prevê que o “resultado da seleção não será apurado por meio de ordem de classificação”. Os candidatos participantes serão considerados ‘Habilitados’ ou ‘Não Habilitados’”. O diretor criticou o caráter subjetivo do critério, que não define a ordem de classificação no chamado banco de talento por pontuação e sim por ordenação alfabética.
Giacomin também apontou problema no item 6.4.6 do edital, que não assegura o retorno para a função de origem, caso o candidato não seja aprovado na seleção. “Isso causa uma insegurança para o empregado. Como o processo é subjetivo, não depende apenas do mérito do candidato a disputa pela vaga. Se o empregado é reprovado, ainda corre o risco de ser realocado em local distinto ao de origem. Essa imposição pode desmotivar o empregado a concorrer à vaga”.
Outro item destacado pelo dirigente foi 8.6, que estabelece que os custos de transporte, alimentação e hospedagem, durante a segunda etapa da seleção, são por conta do candidato. “Esse item dificulta a participação dos candidatos e candidatas do interior do Estado, comprometendo a igualdade de condições dos empregados que almejam disputar a seleção”, pontuou.
Giacomin ainda questionou o banco sobre o impedimento de os empregados fazerem o download (baixarem) dos editais na rede interna. O banco reconheceu o problema e justificou que deve ser algum problema técnico, mas prometeu solucioná-lo.
Retrocesso
O assessor jurídico do Sindicato André Moreira firmou que as mudanças nos novos editais tornam o processo menos objetivo. “O que o banco considera um avanço é na verdade interpretado pelo Sindicato como uma piora no processo de seleção, que perdeu objetividade em relação ao ACT e aos editais anteriores à paralisação”. O advogado questionou especialmente a terceira etapa da seleção, na qual o candidato é submetido a um período de experiência na função de 90 dias. Moreira destacou o item 7 do edital, que versa sobre a eliminação do candidato. “São dispositivos completamente subjetivos”.
Os itens 7.1 e 7.1.1, citados pelo advogado, preveem que o candidato será automaticamente eliminado se “dirigir-se, verbal ou textualmente, com tratamento inadequado ou descortês, a qualquer dos envolvidos neste processo de seleção, colocando em dúvida a legitimidade das ações”, diz o texto. “Ora, o servidor público tem a obrigação de identificar um procedimento inadequado. Ele pode, por exemplo, no período probatório, discordar da maneira como a atividade é executada e fazer a crítica. Mas o edital poderá puni-lo por isso com a eliminação sumária. É melhor um trabalhador que questiona um procedimento inadequado pelas vias ordinárias do que aquele que vai fechando os olhos para as ilegalidades. O que vai ser considerado tratamento inadequado? Tratamento inadequado pode ser um monte de coisas. Às vezes uma pessoa que é mais direta, pode ser considerada descortês, mas ela está sendo somente objetiva”, ponderou Moreira.
Banco de talentos
A diretora Vanessa Espindula fez críticas gerais à seleção, que adota o chamado banco de talentos, mas também destacou a terceira etapa da seleção. “Se o candidato não receber avaliação favorável na terceira etapa, será eliminado, ou seja, o empregado fica totalmente vulnerável, nas mãos do gestor”. A dirigente comparou o edital atual com os anteriores. “Na seleção anterior, empregado com um ótimo currículo conquistava uma melhor classificação. Na atual, esse empregado não está sendo valorizado, porque o banco de talentos é organizado por ordem alfabética e não por pontuação”.
Vanessa criticou ainda a falta de transparência no processo de seleção e a enorme distância temporal entre a data de abertura da seleção (29/06/2026) e a finalização da última etapa do processo, quando o candidato efetivamente passará a exercer a função. No caso do edital do Encarregado de Turno, por exemplo, a primeira etapa do processo de seleção se inicia apenas em outubro de 2027 e se encerra em dezembro. Ela observou ainda que os processos suspensos em 2024, antes de terminarem todas as etapas, e que foram cancelados posteriormente, deveriam ser prioridade na retomada da seleção interna.
A dirigente citou como exemplos as funções de Assistente de Controles Internos (Edital 06) e Gerente de Administração de Créditos (Edital 09). “Embora tenham sido paralisados e depois cancelados, nesta nova seleção o edital de Assistente de Controles Internos só será aberto em janeiro de 2027 e o de Gerente de Administração de Créditos no final de abril do ano que vem, ou seja, o banco não considerou prioridade retomar os processos de seleção paralisados”.
Subjetividade
Carlão afirmou que não há uma questão objetiva que justifique as mudanças no processo de seleção. “O critério dos editais anteriores não afetou os resultados do banco. Ao contrário, o Banestes vem acumulando lucros recordes ano após ano”. O assessor jurídico ressaltou que o banco deve respeitar a Cláusula 23ª do ACT. “Para se chegar à redação da Cláusula 23º, houve um amplo debate entre o Banestes e o Sindicato. Nesse debate, se construiu o consenso de que a seleção objetiva, a partir do critério de pontuação em todas as etapas, é o melhor modelo”. O dirigente ainda acrescentou: “Se o empregado não pode contrapor um critério do processo de seleção, não existe objetividade”.
Rebatendo os argumentos dos representantes do banco, de que o novo edital cumpre o ACT, Moreira afirmou que os pressupostos consignados na Cláusula 23º, especialmente o Parágrafo 5º, que estabelece que o Banestes fará a divulgação formal da pontuação em todas as etapas, não deixam dúvidas de que o novo edital está em flagrante desacordo com o ACT.
No final, Carlão enfatizou a reivindicação do Sindicato. “Não queremos a paralisação da seleção interna, mas reivindicamos a retificação dos itens do edital que ferem o ACT”. Márcio Amorim Campos Bomfim, que estava coordenando a reunião pela Comissão de Negociação do Banestes, afirmou que levará o pleito do Sindicato à diretoria e trará uma resposta em breve.
Os representantes do Banestes e do Sindicato voltam a se reunir na próxima sexta-feira (17) para dar início à primeira rodada de negociações da campanha salarial. O tema desta primeira rodada vai tratar das demissões arbitrárias e das demandas relacionadas às pessoas com deficiência e neurodivergentes. Importante registrar que a reunião dessa terça-feira sobre seleção interna está sendo discutida à parte das rodadas de negociações da campanha salarial.









