Financeirização da economia e os obstáculos ao desenvolvimento do Brasil

20/06/2026 17:00

No painel que debateu conjuntura nacional e internacional, o economista fez um linha histórico do capitalismo e mostrou como a financeirização tem impedido o desenvolvimento de países como o Brasil

(Da esq./dir.): Elvira Ribeiro Madeira, secretária-geral do Sindicato dos Bancários do Ceará; Cristiane Paula Zacarias, presidenta do Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região; o economista José Kobori, José Eduardo Rodrigues Marinho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas do Ramo Financeiro no Estado do Ceará e Cacau, secretário-geral do Sindicato dos Bancários/ES

O economista José kobori, popular nos canais digitais que discutem finanças e política, abriu os trabalhos no segundo dia da Conferência Nacional das Bancárias e Bancários. Kobori fez uma análise histórica crítica do capitalismo, destacando sua evolução cíclica, o papel central da moeda e do poder estatal, e como a hegemonia do dólar representa uma fase imperial que prejudica os países do Sul Global, caso do Brasil. 

O economista fez uma linha do tempo sobre as origens do capitalismo.Segundo ele, o capitalismo surge com a acumulação imposta pela violência, expressa no colonialismo, escravização de mão de obra e pilhagem (Américas, Índia, África). Kobori afirmou que o processo de expansão do capitalismo nunca foi uma proposta de livre mercado, mas de extração estatal e privada.

O palestrante afirmou que política e economia são indissociáveis e que as mudanças na ordem mundial sempre foram impulsionadas por disputas de poder e interesses econômicos. “Política é economia e economia é política. Não existe economia separada das grandes decisões políticas e geopolíticas”.

 

Hegemonia do dólar

Após 1944, explicou o economista, o dólar se tornou a moeda de reserva global (lastreado em ouro inicialmente, depois em confiança e poder militar). Com o fim do padrão-ouro (1971) e acordos petrodólares (com Arábia Saudita e outros países árabes), os EUA ganharam o privilégio de emitir dólares para financiar déficits gigantes. Passam a importar a preços baixos e a exportar inflação, sobretudo para os países periféricos. “A revolução neoliberal iniciou esse período que conhecemos como capitalismo financeiro. O dinheiro passou a gerar dinheiro, e a economia real foi perdendo espaço para a especulação e para os ganhos financeiros”.

 

Fator China

A partir deste xadrez geopolítico que se estabelece, a China passa a investir em infraestrutura, tecnologia e parcerias. De outro lado, os EUA investem em guerras. BRICS, yuan, criptomoeda e acordos bilaterais ameaçam a hegemonia americana. Kobori vê sinais de declínio do poderio norte-americano, mas este processo pode ser lento e repleto de conflitos.

Na avaliação do economista, os chineses rejeitaram a cartilha neoliberal e seguiram uma trajetória gradual de desenvolvimento, priorizando primeiro a agricultura, depois a industrialização, os investimentos em ciência e tecnologia e, somente após consolidar sua capacidade produtiva, o fortalecimento da defesa nacional. “A China construiu primeiro sua capacidade produtiva e tecnológica. Sua expansão econômica não se dá pela imposição cultural ou religiosa, mas pelas relações comerciais”.

 

Obstáculos para o Brasil

Entre os obstáculos ao desenvolvimento brasileiro, Kobori apontou a predominância do capital financeiro sobre o setor produtivo, a concentração da economia na exportação de commodities e a falta de investimentos em ciência, tecnologia e educação. “Não existe país de primeiro mundo que tenha se desenvolvido apenas exportando soja e carne. O desenvolvimento exige indústria, ciência, tecnologia e planejamento de longo prazo”, concluiu.

 

Países emergentes e subdesenvolvidos

Os países que ficaram submetidos à hegemonia ditada pelos EUA, vêm atravessando crises sistemáticas. Os países periféricos e emergentes acumularam reservas em dólares (para estabilidade cambial), financiando o consumo e a dívida norte-americana. Segundo o economista, os juros altos nos EUA atraem capitais, gerando fuga, desvalorização cambial, inflação importada e recessão local. É exatamente o que acontece hoje no Brasil com Selic nas alturas para “atrair investimento” e “controlar a inflação”.

Na avaliação do professor, as transformações em curso apontam para uma transição da hegemonia unipolar norte-americana para uma ordem multipolar, na qual a China desponta como principal potência econômica do século XXI. “O mundo está mudando de eixo. A guerra hoje é tecnológica, envolvendo inteligência artificial, semicondutores e o domínio das plataformas digitais. Quem controlar essas tecnologias terá vantagem econômica e geopolítica”, afirmou.

Kobori alertou ainda que processos de mudança de hegemonia costumam ser marcados por tensões e conflitos. “Nós estamos vivendo uma transição histórica. E toda transição de poder gera tensões. Existe, inclusive, um grande risco de surgirem novos conflitos, especialmente na Europa, porque as mudanças na ordem mundial raramente ocorrem de forma pacífica”, alertou.

 

Delegação capixaba no debate

A delegação capixaba esteve presente na plateia e na mesa. O secretário-geral do Sindicato dos Bancários/ES Claudio Merçon (Cacau), que participou do painel com Kobori ao lado de outros dirigentes sindicais,, destacou a atualidade da fala de Kobori para o debate da campanha salarial deste ano. Após o término da mesa, Cacau comentou a apresentação do economista. 

Dirigentes, delegados e delegadas capixabas a postos para o segundo dia da Conferência Nacional das Bancárias e Bancários

“A exposição do professor Kobori deixou claro que é necessária uma maior intervenção do Estado no sentido de revisar as regras  que regulam o sistema financeiro brasileiro hoje. Essa revisão precisa pôr o desenvolvimento socioeconômico como prioridade. Não podemos aceitar que o sistema financeiro continue promovendo a farra de lucro dos bancos. Não por acaso, Kobori costuma afirmar que Santander Brasil entrega, proporcionalmente, um dos maiores lucros/rentabilidades do grupo no mundo”.
(Com informações da Contraf)