Organizações sociais fazem memorial pelas vítimas da covid-19 na Praia de Camburi

21/06/2020 12:44

Cento e trinta cruzes de madeira foram instaladas representando as quase 1300 mortes provocadas pelo coronavírus no Estado

A Praia de Camburi, importante ponto turístico da cidade de Vitória, amanheceu de luto neste domingo, 21. Na areia da praia, um memorial foi instalado para lembrar as vítimas da covid-19 no Espírito Santo. Cento e trinta cruzes de madeira, circundadas delicadamente por faixas brancas, demarcavam covas simbólicas representando as quase 1300 mortes provocadas pelo coronavírus no Estado. O memorial foi montado nas proximidades do quiosque k2, na altura do bairro Jardim da Penha.

 

“É por essas vidas, que não são números, e que não podem simplesmente ser calculadas sem atitudes firmes de enfrentamento ao avanço da covid-19, que diversas entidades e movimentos sociais se unem para lembrar dessas histórias que, devido ao contexto, não puderam ser veladas”, diz trecho da carta publicada em função do ato, que reúne a assinatura de 42 organizações.

O Estado já registra 1.297 óbitos e quase 35 mil casos confirmados de covid-19. Nas 24 horas compreendidas entre a tarde de sexta-feira e de sábado, 30 novos capixabas perderam a vida para a doença. No Brasil a crise sanitária avança sem sinais de regressão. O país já atingiu a marca de 50 mil mortos, ultrapassando todos os países do mundo exceto os EUA, que segue no topo do ranking mundial de mortes pela doença.

Veja vídeo do ato:

Diante do elevado número de vítimas, os organizadores do ato criticaram a política dos governos estadual e federal de flexibilizar o isolamento social e pediram medidas mais rígidas para conter a curva de contaminação.

“Queremos que o governo Casagrande olhe para a população com base na ciência e na medicina, e não nas orientações da Fecomércio. Há uma ameaça muito grande para a população e é necessário decretar o lockdown para preservar vidas. Também temos um governo federal que não reconhece que existe uma pandemia e que a população está padecendo. É tão nítido o desprezo com as vidas dos brasileiros que continuamos sem ministro da Saúde”, criticou o presidente estadual do Psol, Toni Cabano.

A manifestação conciliou a homenagem aos mortos pela covi-19 com a cobrança por medidas mais severas de prevenção.

“Essa manifestação é gesto de despedida das pessoas que perdemos, de respeito às vítimas e aos familiares. São muitas mortes que não tiveram sequer um enterro adequado em função da pandemia. Mas é também é uma cobrança ao governo Bolsonaro e, especialmente, ao governo Casagrande, que tem aberto o comércio e que não está sendo transparente, por exemplo, na divulgação dos dados de ocupação de UTI, questionados pelo próprio Ministério Público. O Espírito Santo tem um baixo índice de testagem e já temos cidades em situação de calamidade. Por isso é necessário instalar uma quarentena verdadeira e ampliar o isolamento social”, disse Filipe Skiter, dirigente do PSTU.

O ato também destacou o impacto da pandemia para os diversos grupos sociais. Para Wander Meirelles, do Coletivo Negro Minervino de Oliveira, a pandemia atinge de forma distinta a população negra e pobre, e há um debate racial, de classe e geográfico que precisa ser observado pelo poder público.

“Se o vírus chega ao país através de pessoas com maior condição social, hoje vemos claramente que quem mais está morrendo são os trabalhadores negros e periféricos. São eles que estão nos postos mais precarizados de trabalho e que, com a abertura da economia, terão que continuar trabalhando, correndo risco de infectar toda a família, muitas vezes sem acesso à uma boa estrutura de saúde. Bairros de classe média, como Jardim Camburi, por exemplo, tem altos índices de contaminação, mas baixo índice de mortes”.

A preocupação com grupos mais vulneráveis também foi manifestada por outras organizações. Para Mindú Zinek, da Pastoral do Povo de Rua, a ausência de políticas de prevenção faz com que o medo seja sentimento permanente entre a população de rua.

“Já temos mais de 10 registros de contaminação de pessoas em situação de rua, além de casos sintomáticos em abrigos noturnos e relatos de óbito feitos por profissionais da saúde.  Fazemos ações de entrega de kits de alimento e de higiene, que muitas vezes são o único suporte que eles têm, mas é preciso mais. Não há consultórios, orientação sobre prevenção, banheiros públicos para que eles possam fazer uma higienização adequada, e os Centros de Referência para Pessoas em Situação de Rua são limitados. Por isso essas cruzes representam também pessoas em situação de rua que morreram por covid, e que muitas vezes não são sequer identificadas pelos hospitais pela ausência de documentação, sendo enterradas como indigentes”.

A representante do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Galdene Santos, pôs em xeque o discurso de isolamento adotado pelo governo do Estado, apontando a contradição com a política de abertura do comércio.

“O discurso é que o governo está fazendo um trabalho pensando em todos, mas sabemos que não é verdade. Pensar a saúde é pensar principalmente nos meios de prevenção, que nesse contexto anda junto com o isolamento social. Então se o comércio é liberado, a saúde é a última preocupação”, salienta.

O ato foi realizado pelo Fórum em Defesa da Vida e dos Direitos dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Capixabas, que no início do mês realizou protesto semelhante em frente ao Palácio Anchieta, responsabilizando o governador Renato Casagrande pelas mortes no ES.

Apoiadora de Bolsonaro retira faixas do protesto

Ao final do ato, uma apoiadora do presidente Jair Bolsonaro que caminhava sem máscara pelo calçadão arrancou violentamente as faixas afixadas próximas ao memorial. Os textos continham críticas à política genocida de Bolsonaro, que sacrifica vidas para salvar a economia.

 

 

O gesto autoritário foi contestado pelos representantes das organizações que participaram no ato. Enquanto arrancava as faixas, a apoiadora do presidente repetia, em tom de voz alterado: “coloca na sua casa, na praia que é pública, não. Isso é democracia”.  Questionada se ela levaria as faixas para casa, ela afirmou que as jogaria no lixo.  Em outro momento, é possível ver a mesma mulher conversando com pessoas no calçadão e reafirmando que retiraria novamente as faixas se necessário.  Ela ainda acusa os manifestantes de serem “bandidos brasileiros”. “Na praia, onde eu pago imposto pra manter limpa, eu arranco. Eu arranco porque eu mantenho isso aqui”, disse.

O gesto, segundo o coordenador geral do Sindibancários/ES, Jonas Freire, reflete o crescimento da intolerância e do autoritarismo no país. “São tempos de arroubo de ideais fascistas. Para essas pessoas, democracia tem a ver com a submissão cega às suas ideias e projetos, e não com a divergência e o debate público. É um tipo de postura alimentada pelo comportamento do próprio presidente, que já se colocou inúmeras vezes contra as instituições democráticas, participando inclusive de manifestações que pediam a volta da Ditadura Militar e do AI-5, ato mais repressivo do regime ditatorial”, disse Jonas.

Apesar de espalhafatosa, a ação da eleitora bolsonarista foi minoritária entre quem circulava pela praia. Ao longo da manhã, muitas pessoas que passaram pelo memorial demonstraram solidariedade e respeito às vítimas da covid-19, com gestos de oração ou palavras de apoio aos participantes do ato.