O combate à pandemia tem gênero: é feminino

27/07/2020 15:05

As mulheres são a maioria na área da saúde, nos cuidados domésticos, na assistência social àqueles que estão em situação de vulnerabilidade e em inúmeras outras atividades essenciais

Do hemisfério sul ao norte, a pandemia do novo coronavírus mudou a vida de bilhões de pessoas. Até o dia 16 de julho, eram 584 mil mortos pela covid-19 no mundo e mais de 75 mil no Brasil. Nas telas dos jornais, os porta-vozes sobre o avanço da pandemia e suas consequências são, na maioria, homens. Mas por trás das fontes oficiais, são as mulheres que estão na linha de frente do combate à maior crise sanitária mundial dos últimos cem anos. Elas são a maioria na área da saúde, nos cuidados domésticos, na assistência social àqueles que estão em situação de vulnerabilidade e em inúmeras outras atividades essenciais para à sociedade.

Se por um lado a pandemia trouxe à tona o aumento da força do trabalho feminina no mercado e a massiva presença das mulheres nos serviços essenciais, por outro evidenciou como elas são exploradas e como é frágil, ou quase inexistente, a rede de apoio àquelas que são a base da economia do cuidado.

Dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) revelam que as mulheres brasileiras tiveram rendimento salarial 22% menor do que os homens no último trimestre de 2019. Entre os trabalhadores com ensino superior, essa diferença sobe para 38%. E apesar de ocuparem 40% dos cargos na diretoria e gerências de empresas, as mulheres, nesse segmento, ganharam 29% a menos do que os homes no mesmo período.

Com a explosão da pandemia no Brasil, em março deste ano, veio o aprofundamento da crise econômica, com aumento do desemprego, suspensão de contrato de trabalho, corte de salários, entre outras medidas. Para a diretora do Sindibancários/ES Rita Lima, homens e mulheres estão sendo afetados, mas a pandemia atinge de maneira distinta as trabalhadoras. “As longas filas nas agências da Caixa para recebimento do auxílio emergencial na pandemia são formadas majoritariamente por mulheres, revelando que elas são a maioria que necessitam do benefício”, aponta a diretora.

“Precisamos olhar essa nova realidade pela perspectiva de gênero, pois a pandemia afeta de forma diferente mulheres e homens. A economia mundial foi afetada e, no Brasil, as que mais sofrem são as trabalhadoras informais, que com o isolamento social perdem sua fonte de subsistência e não contam com rede de sustentabilidade por parte do Estado. Temos ainda as domésticas, que também desenvolvem um trabalho de cuidado. Na pandemia, foram convidadas a se retirarem das casas para não serem vetores de contaminação. Elas ainda carregam esse peso, que traz muitos danos psicológicos. As trabalhadoras de carteira assinada também são ameaçadas, seja com a perda do emprego, redução de salários, suspensão de contratos ou retirada de direitos”, destaca Rita Lima, que também é dirigente da Intersindical.

Na linha de frente

O combate à pandemia tem rosto e ele é feminino. Além de serem mais prejudicadas no período de crise econômica, as mulheres são também as mais expostas ao risco de contaminação, justamente por serem a maioria nos serviços essenciais básicos. Somente entre os profissionais de enfermagem, no mundo, as mulheres representam 90%, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Na assistência social, no atendimento às vítimas de violência, às pessoas em situação de rua e às famílias de baixa renda, as mulheres também são a maioria e continuam atuando mesmo em meio aos riscos de contaminação. Segundo Boletim da Secretaria de Nacional de Assistência Social, publicado em junho de 2018, no SUAS, o Sistema Único de Assistência Social, as mulheres correspondem a 76,9% dos profissionais que atuam nas redes de proteção social de média complexidade, que incluem os centros de acolhimento à população de rua (Centro-Dia e Centro Pop) e os CREAS, Centros de Referência Especializado de Assistência Social.

Mãe de um bebê de 11 meses, Giselle Roncatt Ferreira é assistente social há 10 anos, e há oito atua no Serviço de Abordagem de Rua de Vitória. Mesmo diante dos riscos de contaminação, Giselle fala sobre os desafios da profissão e a importância de garantir o atendimento a essa parcela da população invisível para a maioria da sociedade.

“Por mais que a gente tome os cuidados, não sabemos o que estamos trazendo para dentro de casa na volta. Fico ansiosa e preocupada principalmente por ter um bebê e por meu esposo ter pressão alta e bronquite. Trabalhamos apreensivas porque lidamos com um público que oferece risco de outras doenças e, nesta pandemia, está ainda mais exposto, pois são pessoas que não têm casa, não tem como fazer a higienização da forma correta. Mas, nesse momento, continuar com os atendimentos é crucial, pois eles estão muito expostos. Eles são detentores de direitos e não tem lógica ficarem desamparados. Mesmo em situação de risco, é a nossa função e nesse momento não podemos deixar de atendê-los”, relata Giselle.

Alguns setores do serviço bancário, como empréstimos a pequenos e médios empresários e pagamento de benefício também são atividades essenciais nessa pandemia. As empregadas da Caixa enfrentam uma situação peculiar. Com a concentração do pagamento do auxílio emergencial do governo federal na Caixa, as agências passaram a abrir mais cedo e longas filas se tornaram rotina. O isolamento social, tão recomendado pela OMS como prevenção à covid-19, não pode ser cumprido por centenas de bancárias em todo o Brasil. Monique Miranda, bancária da Caixa há seis anos, é uma delas.

“No início da pandemia foi bem angustiante por não ter certeza do que iria acontecer, se estaria bem no outro dia para trabalhar novamente. Vimos outras agências com colegas que foram acometidos pelo vírus. Você vê aquilo chegando mais perto e fica muito angustiada. Por outro lado, também sei do papel social da Caixa. As pessoas que estão ali, naquela fila, enfrentando chuva e sol, estão ali porque, talvez, a única fonte de renda delas é aquele benefício. Atendi muitos clientes em situação bem difícil. De certa forma, sei que estou ali ajudando alguém que precisa muito, operacionalizando para que pudesse receber esse dinheiro”, conta Monique.

Sem previsão para acabar, a pandemia do novo coronavírus joga luz sobre essas mulheres, sobre a desigualdade de gênero e suas múltiplas facetas na sociedade. Para a diretora do Sindibancários/ES, Rita Lima, o enfrentamento à pandemia também requer o combate ao machismo e ao neoliberalismo.

“Exigimos quarentena geral e a garantia de uma renda básica universal para que as mulheres possam garantir sua saúde e sua sobrevivência. Não vamos ter sucesso no enfrentamento a essa pandemia se não combatermos o machismo, os monopólios, o capital financeiro, o agronegócio. Nesse sentido, precisamos unir forças em torno do Fora Bolsonaro/Mourão e construir um projeto com o objetivo a longo prazo de defender uma sociedade igualitária, radicalmente democrática e ecologicamente equilibrada”, enfatiza Rita.