As demissões atingiram em cheio a categoria bancária em 2020. Mas, diferente de outros setores da economia, a culpa não foi da crise. Os bancos mantiveram a lucratividade em alta mesmo na pandemia. Juntos, Bradesco, Itaú e Santander lucraram nos nove primeiros meses do ano mais de R$ 35,6 bilhões. Mesmo assim, os três maiores bancos privados do país demitiram mais de 12 mil bancários e bancárias no período.
Crueldade define essa política de gestão adotada pelos bancos privados, que inclusive romperam o compromisso assumido em abril de não demitir durante a pandemia. O Sindibancários/ES, junto com entidades sindicais bancárias de todo o país, realizaram diversos atos em protesto contra as demissões. Mas os bancos não cederam e mantiveram em curso a perversa onda de demissões.

Bancários denunciaram demissões em protesto nas agências
Até mesmo bancários em tratamento médico, gestantes ou próximos à aposentadoria não foram poupados dessa crueldade. “Vimos ao longo do ano o quanto os bancos privados investiram em propagandas, tentando passar a imagem de instituições preocupadas com a crise que a maioria dos brasileiros enfrenta. No entanto, na prática os bancos agravaram ainda mais a crise econômica, jogando milhares de trabalhadores no desemprego e mantendo a cobrança de altas taxas de juros e de tarifas de serviços dos clientes. Foram vários momentos em que as entidades sindicais tentaram dialogar com os bancos para reverter esse processo, fizemos campanha, ato nas agências, mas mesmo assim os bancos privados mantiveram um corte cruel de empregados”, enfatiza o diretor do Sindibancários/ES, Carlos Pereira de Araújo (Carlão).
Desligamentos no ES
No Espírito Santo, 31 bancários e bancárias do Bradesco foram demitidos somente em outubro. Um bancário que preferiu não se identificar foi um deles. Após anos de dedicação, muito trabalho e de bater sempre as metas, o bancário foi demitido por telefone. Ele denuncia a falta de transparência nas motivações das demissões, que na maioria das vezes não está relacionada ao desempenho técnico do trabalhador.
“Atravessamos um momento econômico avassalador, com o crescimento dos níveis de pobreza e miséria nessa país marcado pela extrema desigualdade social. Mesmo com altos lucros, em meio à pandemia e a essa crise econômica, os bancos estão demitindo. É um oportunismo claro e evidente. Um pequeno comerciante demitir trabalhadores nessa crise é compreensível, mas os bancos não tem motivos. Somente com as tarifas cobradas dos clientes, eles pagam todo o quadro de funcionários. Então, é absurdo”, conta indignado.
Mato alto
Em dezembro deste ano, o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, não hesitou ao reafirmar qual a prioridade do banco. Em uma teleconferência, Júnior afirmou que no 4o trimestre terminaria de “cortar o mato alto”, em alusão às demissões em massa que o Bradesco realizou. A declaração é repugnante e causou revolta na categoria bancária.
“Mato alto é ele que não caminha embaixo com os trabalhadores. Ele não sabe o que fazemos e como nos desdobramos para conseguir resultados. Não sabe o que passamos nas agências para visitar clientes, implorar para que façam uma operação. Muitas vezes somos enviados para outros estados, com culturas diferentes da nossa, locais distantes, e enfrentamos tudo isso para vender produtos e serviços do banco”, declara o banco demitido do Bradesco.
A postura dos bancos privados em 2020 em meio a pandemia e grave crise econômica deixou evidente quais são a prioridade e o compromisso dessas instituições, como destaca o diretor do Sindibancários/ES, Fabricio Coelho, que também é membro da Comissão de Empresa do Bradesco.
“É um escárnio mais uma vez a falta de compromisso dos bancos privados com a sociedade. Com ou sem pandemia ou crise econômica, os bancos sempre alcançam lucros bilionários. Em um período difícil como esse, em que esses fatores se misturam, os bancos deixam claro que se preocupam apenas em obter lucro, não importa a que custo, mesmo que esse seja a manutenção da vida das pessoas. Essa declaração do presidente do Bradesco, que também afirmou que o importante é o que eles querem no mercado, também comprova que o compromisso dos bancos é com o lucro imediato”, frisa Coelho.






