
Correio Bancário (CB): Desde 2016, vimos crescer e ganhar força os movimentos da extrema direita, com suas pautas conservadoras e de repulsa aos movimentos populares e identitários. No Brasil, essa onda levou ao impeachment de Dilma Rousseff e, em 2018, à eleição de Bolsonaro. O que representou para o país a ascensão desse grupo ao poder?
Essa foi uma característica da conjuntura a nível global, variando muito de país para país. No caso especifico da América, incluindo os EUA, esse fenômeno se deu principalmente a partir da vitória de Trump nos EUA, de uma primeira derrota do peronismo na Argentina e do golpe que destituiu o Evo Morales na Bolívia.
No Brasil, esse fenômeno se manifestou com o impeachment de Dilma, o governo Temer e, depois, com a eleição de Jair Bolsonaro. Isso tudo é fruto de um conjunto de fatores. No Brasil, especificamente, do desgaste da experiência com o governo do PT, do próprio esgotamento do modelo que o PT vinha implementando, um neodesenvolvimentismo moderado, mitigado, que deu sinais de esgotamento e não conseguiu mais entregar as promessas que fazia, de desenvolvimento, crescimento econômico, redução da desigualdade social. Ao mesmo tempo, o PT não era o principal agente a realizar reformas de caráter ultraliberal. Então, houve primeiro um golpe e depois a eleição de Jair Bolsonaro. Tem, portanto, uma onda geral que gerou a eleição de Trump nos EUA e a de Bolsonaro no Brasil. Tudo isso em decorrência de uma crise social.
Mas há uma recuperação de terreno. Há um processo de mobilização intensa no Chile que culmina com uma constituinte que ainda está em definição do que vai ser exatamente, a vitória de Alberto Fernández na Argentina em 2019, a manutenção do governo Maduro, que conseguiu se sustentar apesar de toda tentativa de sabotagem.
No Brasil, Bolsonaro conquistou o governo, enfrentou uma oposição muito ambígua dos setores da esquerda. Teve um 2019 que até encontrou bastante mobilizações, não o suficiente para impedir as reformas, mas em 2020 com a pandemia, de fato o governo ampliou seu desgaste, perdendo progressivamente sua base de apoio. Agora, Bolsonaro consegue sustentar uma certa popularidade, mas ainda muito baseada no Auxílio Emergencial. Não sabemos se vai continuar com essa popularidade na virada de 2020 para 2021, até pela tendência geral de piora do quadro econômico.
CB: Quais são as consequências para a maioria da população brasileira da política econômica e social, alinhada aos interesses da extrema direita do país, adotada pelo governo Bolsonaro?
Bolsonaro é uma convergência de conservadorismo nos costumes com o ultraliberalismo na política econômica. Este movimento que ele encapa no país avança na destruição daquilo que minimamente se pactuou no Brasil a partir da Constituição de 1988. O Brasil passa por um processo acentuado de desmonte de direitos sociais, conquistados ao longo do século XX.
Esse desmonte de direitos sociais, especialmente a Reforma Trabalhista, não significou mais geração de emprego e maior desenvolvimento econômico. Pelo contrário, o Brasil vem sofrendo um quadro de estagnação, uma queda abrupta da economia. A população brasileira perdeu direitos trabalhistas, teve uma reforma da Previdência que impossibilita a uma grande parcela de brasileiros de chegar na aposentadoria.
Ao mesmo tempo, passamos por um processo de desmonte de outras estruturas. O SUS, apesar de ter tido seu papel muito celebrado durante a pandemia, também sofre ameaça de desmonte. Também tivemos uma tentativa recente de direcionar recursos públicos de parte do Fundeb para setores privados, que não obteve êxito. Mas o país passa por um desmonte progressivo, inclusive de outras políticas sociais e setoriais, como por exemplo do programa “Minha Casa, Minha Vida”. Até mesmo as políticas de assistência social sofrem uma série de desmonte que geram uma ampliação do quadro de desigualdade social no país.
CB: Como você avalia o resultados da eleições municipais deste ano?
Para o que chamamos genericamente de esquerda, e falo dos partidos de centro-esquerda até o Psol, não houve uma vitória eleitoral. Somente o Psol cresceu. Tanto o PC do B, PDT, como o PT ainda passaram por um processo de redução. O PT ainda teve derrotas significativas, como o fato de não eleger prefeito em nenhuma capital. Bolsonaro sofreu uma derrota parcial, os candidatos diretamente por ele apoiados, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, foram um fiasco. Crivella foi para o segundo turno e sofreu uma derrota acachapante. Em São Paulo, o candidato dele nem sequer foi para o segundo turno.
Mas o bolsonarismo, os valores, o discurso bolsonarista mostrou que ainda tem força social. Embora não tenha conquistado muitas cidades, o bolsonarismo conseguiu levar candidaturas para o segundo turno, como em Belém, Fortaleza e em Vitória, onde foi vitorioso. Então, o bolsonarismo continua sendo uma força existente na sociedade, expressiva e que, apesar de ter sofrido uma derrota neste ano, tem possibilidade de ser recuperar para 2022. Não podemos subestimar isso.
Por fim, o principal vitorioso foram os partidos da chamada esquerda liberal, especialmente o DEM. Esses partidos, de maneira geral, cresceram e conquistaram espaço político para se projetarem para 2022, tiveram bons resultados de norte a sul do país. Então, é um quadro em que a direita se fortaleceu, o Bolsonarismo sofreu uma derrota parcial e a esquerda ainda sofreu derrota. Mas o Psol dentro da esquerda conseguiu algum nível de vitória.
CB: Neste ano, a luta contra o racismo ganhou mais visibilidade com o retorno do movimento Vidas Negras Importam. O grito que veio dos EUA ecoou no Brasil, onde pessoas negras representam 75,7% das vítimas de assassinatos. Como você avalia o crescimento e maior visibilidade dos movimentos antirracistas e como isso reflete no campo político? Qual a importância da representatividade na luta antirracista?
O racismo, especialmente nas sua versão mais violenta que é o que estamos vendo com mais regularidade agora, não é maior ou menor do que em outros tempos. Ele está sendo filmado agora. Está se tornando mais visível, seja pelas novas tecnologias da informação, seja pelo fato de que se a extrema direita por um lado cresce e fortalece seu discurso reacionário, os segmentos populares que são vítimas desse discurso também se movimentam para enfrentá-lo.
Basta observarmos que Trump nos EUA, por exemplo, sofreu uma forte oposição social e política desde o primeiro dia de seu governo. Portanto, o movimento negro não apareceu como raio em céu azul em 2020. Ele já vinha realizando muitas mobilizações políticas e sociais nos EUA desde as eleições de Trump. Mesmo antes, com a experiência histórica limitada, do ponto de vista estrutural mas simbolicamente importante, que foi a eleição de Barack Obama nos EUA.
Na medida em que a extrema direita cresce, também cresce a resistência dos movimentos populares, do discurso antirracista e isso vai permeando as próprias instituições liberais, incluindo as grandes redes de televisão, que vêm mudando a linha de abordagem nos últimos anos. Sempre costumo dizer que representatividade importa. É suficiente? Não. Mas ela é importante para que as pessoas se referenciem, que possam se mover socialmente, se enxerguem um pouco mais no outro, possam construir novas referências que não sejam dentro do padrão branco.
O racismo exige um conjunto de políticas combinadas, inclusive para melhorar a representatividade da população negra nos espaços de poder, sejam eles públicos ou privados. É preciso uma série de outras políticas públicas, no campo da educação, no combate à violência, pelo fim da guerra às drogas, que ceifa milhares de vidas no Brasil, inclusive da juventude negra. É urgente desenvolver políticas de emprego e renda voltadas especificamente para esse público, para reduzir a desigualdade social que existe no mercado de trabalho, que atinge sobretudo os negros e negras, destacadamente as mulheres negras, que sofrem um duplo processo: tanto a discriminação por ser negra, como o machismo estrutural que coloca essas mulheres em situação de desvantagem.
Há, portanto, uma série de camadas nessa discussão. É muito importante que as lutas antirracistas conquistem o espaço público, apareçam na agenda pública. Com certeza, a maioria dos setores do movimento negro, que faz uma leitura mais rigorosa da realidade brasileira, sabe muito bem que isso é apenas o começo. Precisamos ter muito mais conquistas para que a gente supere a desigualdade social e marcadamente a desigualdade racial que existe no Brasil.
CB: O que os trabalhadores podem esperar para o ano de 2021 em meio à crise econômica e das consequências da pandemia, agravadas pela ineficácia dos governos, principalmente o federal, para lidar com a maior crise sanitária dos último cem anos?
O isolamento social foi uma realidade, do ponto de vista do segmento da classe trabalhadora, para aqueles setores mais organizados, que parcialmente conseguiram algum nível de proteção. Para a massa de trabalhadores que são precarizados, que estão em condições de subemprego, que não consegue trabalho regularmente, o isolamento social nunca foi total. As pessoas tiveram que se movimentar para ganhar o pão. Isso foi um pouco aplacado pelo Auxílio Emergencial, mas com a queda do benefício nesta virada do ano, a tendência principal é que esses setores voltem a procurar emprego e pressionem os índices de desemprego no Brasil.
Ao mesmo tempo, a pandemia da covid-19 não acabou. Está em um processo que, a depender do estado, nem podemos chamar de segunda onda. É uma retomada da primeira onda. Esse cenário vai ser uma convergência de manutenção da pandemia, inclusive de seu crescimento, com convergência de inflação, desigualdade social e desemprego em alta. Não existe possibilidade que esse governo dê solução para essas questões. Até porque nem sequer se mostrou interessado em resolvê-las.
Os movimentos populares durante a pandemia desenvolveram várias formas de organização e resistência para garantir inclusive a própria sobrevivência. Desde o movimento indígena, que criou uma rede nacional e internacional de suporte para evitar a proliferação do coronavírus em seus territórios, até os movimentos urbanos, principalmente de luta por moradia, que também desenvolveram formas de resistência nas ocupações para impedir a contaminação. As comunidades periféricas desenvolveram várias formas de organização solidária também com esse intuito. Existiu, portanto, muita resistência popular contra as medidas de Bolsonaro, contra a crise sanitária e que devem servir de modelo para nossa luta.
Já o movimento sindical, que em 2019 teve um ano irregular, com momentos de maior mobilização e outros de maior refluxo, em 2020 ficou basicamente restrito à questão das lives e das mobilizações virtuais. O ano de 2021 vai exigir repensar um pouco esse processo, ampliar o nível de mobilização social para lutar contra as medidas do governo Bolsonaro. É fundamental, portanto, provocar uma campanha “Vacina para todos, já”. Não têm condições ficar esperando essa medida do governo. É preciso defender a adoção de um programa de emergência, que faça tributação progressiva dos impostos, que mantenha o Auxílio Emergencial e o transforme em uma renda mínima cidadã permanente. Também é preciso uma ampla campanha em defesa do SUS, porque é ele quem está salvando vidas, que está enfrentando o esgotamento do setor privado.
Então, são diversas bandeiras como essas que serão centrais na conjuntura. É fundamental manter a luta contra os processos de privatização que Guedes até agora não conseguiu avançar muito, até mesmo pela inaptidão do governo, mas que em 2021 vai retomar com o apoio da direita liberal. A Caixa está sendo fortemente ameaçada nesse sentido. Precisamos enfrentar essa luta com mobilização social, denúncias, mas apresentando alternativas de programas e projetos para o país. Além disso, devemos retomar com peso a mobilização social, respeitando as condições sanitárias, da luta pelo “Fora Bolsonaro”. É muito arriscado esperar 2022, pois até lá Bolsonaro pode se recuperar e se viabilizar como candidato. O que nos aguada é uma convergência de crise social e econômica, que ao mesmo tempo vai desenvolver uma necessidade de mudarmos nosso patamar de mobilização social em relação ao que vimos em 2020 para conseguirmos enfrentar todas essas questões.









