O presidente da Caixa anunciou a contratação de 10 mil trabalhadores: 5,2 mil estagiários e aprendizes; 800 vigilantes e recepcionistas e 4 mil novos empregados – mil vagas destinadas a Pessoas com Deficiência (PcDs) e as outras 3 mil ainda necessitam de autorização da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), como o próprio admitiu Pedro Guimarães.
A diretora do Sindicato dos Bancários e integrante da Comissão Executiva de Empregados da Caixa (CEE/Caixa), Lizandre Borges, diz que novas contratações sempre são bem-vindas porque estão entre as reivindicações permanentes dos empregados, mas que é preciso trazer à realidade o tom festivo que Guimarães empregou ao anúncio. Segundo ela, é importante lembrar que a Caixa, em dezembro de 2014, tinha mais de 101 mil empregados. Em pouco mais de seis anos esse número despencou para cerca de 84 mil empregados (dados atualizados até o primeiro trimestre de 2021). “Estamos falando de um corte de 17 mil empregados”.
Mil PcDs
Certas mesmo só as contratações dos mil PcDs, com concurso previsto para setembro próximo. “Os outros três mil dependem de um parecer da Sest, que não sabemos se vai autorizar essas novas contratações integral ou parcialmente ou mesmo vetá-las”.
Mesmo que aprove, o déficit de empregados ficaria na casa dos 14 mil. Isso tendo como base a atual rede física de agências. “Temos de considerar que serão abertas 268 novas agências no país, ou seja, na prática, essa defasagem de pessoal vai aumentar. Isso significa mais pressão por metas, mais sobrecarga de trabalho e mais adoecimentos”, aponta.
De acordo com a Sest, a Caixa tem autorização para ter, no máximo, 84.544 empregados. O Conselho de Administração da Caixa (CA Caixa) aprovou o acréscimo de mais três mil vagas ao teto atual, o que o elevaria para 87.544, mas essa alteração também precisa passar pelo crivo da Sest.
Cálculos apresentados no Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef) apontaram que a empresa estatal deveria ter hoje cerca de 130 mil empregados para manter a qualidade do atendimento à população e evitar a sobrecarga de trabalho.
A Fenae irá encaminhar um ofício à direção da Caixa solicitando informações detalhadas sobre a autorização da Sest para a convocação dos concursados de 2014, o concurso público para pessoas com deficiência e a diferença entre o número anunciado pelo presidente Pedro Guimarães e aquele aprovado pelo Conselho de Administração.
100 agências a serviço do agro
Para além da defasagem de pessoal, o anúncio de Pedro Guimarães também gera controvérsia em relação ao perfil das novas agências que estão sendo abertas. No início de julho, o presidente da Caixa se reuniu com representantes da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e com entidades do agronegócio de todo o país.
Os grandes empresários do agro, que fazem parte da base de apoio do Governo Bolsonaro, saíram da reunião com a promessa de que 100 das 268 novas agências da Caixa serão destinadas ao agronegócio. Guimarães afirmou que a Caixa irá ampliar sua participação no agro e relatou ações do banco relacionadas ao segmento. O presidente da Caixa disse que o banco passou a fazer parte do Plano Agrícola e Pecuário (PAP) neste ano e que quer disponibilizar mais recursos para a irrigação e armazenagem. Para a safra 2021/2022, Guimarães informou que a Caixa ofertará R$ 35 bilhões, dos quais R$ 28 bilhões com recursos próprios e R$ 7 bilhões em recursos equalizados pelo governo federal.
A integrante da CEE/Caixa questiona a mudança de perfil do banco. Lizandre diz que a entrada no agro afasta a Caixa do seu papel histórico, que é ligado à gestão de programas sociais. Ela cita o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), o seguro-desemprego, saneamento e o crédito para a casa própria, que posiciona o banco público como o maior financiador habitacional do país.
Para Lizandre, causa estranheza que mais de 37% das novas agências sejam destinadas ao agronegócio. “Esse é um segmento cuja Caixa nunca prospectou. Crédito agrícola sempre foi historicamente um campo de atuação do Banco do Brasil. É inevitável não considerar que a abertura dessas novas agências voltadas ao agro tenha caráter político-eleitoral. Estamos a pouco mais de um ano das eleições e essa não é a primeira vez que Pedro Guimarães faz uso eleitoreiro da Caixa para beneficiar Bolsonaro. Precisamos denunciar esses desvios e impedir que a Caixa continue sendo usada para fins políticos-eleitorais”.

