O professor de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Jorge Almeida abriu na manhã deste sábado, 14, a Mesa de Conjuntura, no segundo dia do 7º Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias do Espírito Santo. Almeida, que palestrou on-line, analisou a guerra na Ucrânia, a crise econômica e os desafios da classe trabalhadora neste contexto. O debate foi mediado pela coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, e o diretor Cláudio Merçon (Cacau),  e também contou com a participação do professor Rogério Silva do Instituto de Educação Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA) que fez a análise da conjuntura interna.

O professor da UFBA afirmou que há uma grande instabilidade no cenário mundial a partir de uma crise estrutural do capitalismo, deflagrada na década de 1970. Ele acrescentou que, mais recentemente, essa instabilidade foi agravada pela crise de 2008, que tem desdobramentos até hoje em vários países. Segundo o professor, a pandemia, declarada pela OMS em março de 2020, segue gerando impactos mundiais. Não bastasse, em 2022, a guerra na Ucrânia, que não tem data para terminar, passou a ser a nova vilã das economias.

Disputas geopolíticas

O professor construiu sua análise para explicar a crise do capitalismo a partir de três fatores-chave: as disputas geopolíticas entre potências imperialistas; o avanço da ofensiva conservadora do capital (no âmbito interno e externo); e a resistência popular.

Sobre a questão geopolítica, ele destacou que as crises do capitalismo são cíclicas, com ondas de recessão e crescimento. Almeida disse que essa crise não é apenas financeira. “Essa crise é também econômica, energética, ambiental, alimentar, cultural, e tem se manifestado também como crise sanitária”. Ele acrescentou que os conflitos militares mundo afora, que têm sido recorrentes do final da Segunda Guerra para cá, também estão no escopo da crise.

Quebra de direitos dos trabalhadores

Segundo Jorge Almeida, a financeirização do capital especulativo foi uma das saídas encontradas pelo modelo neoliberal para a enfrentar a crise. O neoliberalismo, além da financeirização, promoveu a privatização, a binacionalização das economias periféricas para reforçar a monopolização internacional das grandes empresas transnacionais dos centros imperialistas. “Tivemos também a quebra de direitos dos trabalhadores, quebra de direitos sociais”. Entre as ações de combate à crise do capital, o projeto neoliberal, afirmou Almeida, também quebrou o protecionismo nacional, derrubando grandes barreiras econômicas impostas pelos países periféricos, que tentavam proteger setores estratégicos de suas economias.

De acordo com o professor, há uma disputa geopolítica interimperialista. “A partir da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram uma posição hegemônica do capital com o fim da União Soviética. Os Estados Unidos, entre diversos países imperialistas, passaram a ter uma supremacia bem maior, portanto, submetendo outros países imperialistas, no sentido de que todos eles perderam sua autonomia completa”.

Na avaliação de Almeida, essa situação começa a se alterar no século XXI com a crise de 2008, que é um marco importante para entender essa mudança. “A partir daí a China passa a desenvolver uma economia mais expansiva, passando a crescer mais que a média mundial. A China hoje é um país capitalista com características próprias. Há uma presença muito forte do Estado. A China também promove uma quebra radical dos direitos dos trabalhadores, provocando uma desigualdade social muito acentuada. A partir de 2008 em diante, a China passa por uma mudança no seu patamar de desenvolvimento capitalista, para o que chamamos de capitalismo imperialista”.

Esse processo, continua o professor, vai aprofundar as contradições entre a China e os países capitalistas, especialmente os Estados Unidos. Em 2014, assinalou Almeida, aconteceram duas ações militares dos Estados Unidos sensíveis para o cenário internacional. “A tentativa de golpe e invasão parcial do território da Síria, e o golpe na Ucrânia. Isso remonta em parte a discussão sobre a resistência popular. A partir de 2011 uma série de revoltas populares, demonstrações legítimas de resistência contra o arroxo no neoliberalismo na Ásia, nas Américas, na Europa, na África. Essas manifestações acabaram sendo manipuladas, em grande parte, por setores da direita e da extrema-direita, e, muitas vezes, por interesse das burguesias locais e por pressão dos Estados Unidos”, apontou.

Jorge Almeida afirmou que isso aconteceu no golpe na Ucrânia (2014) e na tentativa de golpe na Síria. “Em todos as outras intervenções dos Estados Unidos, a Rússia ficou na dela”. O professor destacou que quando essas intervenções com o dedo norte-americano foram submetidas à ONU, a China e a Rússia ou votaram a favor ou se abstiveram. “Mas a partir dos casos da Síria e da Ucrânia as coisas mudam. Não por coincidência, depois do fim da União Soviética, a Rússia manteve apenas duas grandes bases militares fora do seu território: uma na Crimeia, que era parte do território da Ucrânia, e outra na Síria”. Almeida disse que diante desse fato a Rússia deu um basta. Foi o momento em que a Rússia interviu na Síria para dar sustentação ao governo, e também na Ucrânia, reanexando a Crimeia.

A partir daí, é selada uma grande aliança entre China e Rússia. Dessa aliança saíram uma série de acordo entre os dois países. Da consolidação dessa aliança se estabelece uma bipolarização mundial. “ De um lado temos o bloco imperialista comandado pelos Estados Unidos, países ocidentais e Japão, e de outro a Rússia e a China com alianças com outros países menores. Essa é hoje a grande polarização internacional que está colocada. A guerra da Ucrânia está nesse contexto”, concluiu o professor.

Confira o debate completo:

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