O Comando Nacional dos Bancários se reuniu nesta quarta-feira, 03, com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) para a primeira reunião sobre as cláusulas econômicas da minuta de reivindicações da Campanha Nacional 2022. Entre as principais demandas da categoria está a reposição da inflação, com de aumento real de 5%, além de aumento maior para os vales refeição (VR) e alimentação (VA).

Apesar de ter recebido a minuta de reivindicações no início de junho, a Fenaban não apresentou nenhuma proposta e ainda impôs empecilhos para negociar o aumento maior do VA e VR. De acordo com os representantes dos bancos, o governo alega que as instituições usam esses benefícios para aumentar a remuneração da categoria sem que haja possibilidade de tributar os valores.

“Diante da alta lucratividade do setor bancário, os bancos têm todas as condições possíveis para atender plenamente nossa pauta econômica. Reafirmamos na mesa de negociação o cenário devastador que os trabalhadores enfrentam, com alta inflação, carestia e as consequências danosas da reforma trabalhista. Não há justificativa para um acordo rebaixado. Não podemos aceitar de forma alguma um reajuste sem ganho real”, enfatiza o diretor do Sindibancários/ES, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), que também integra o Comando Nacional dos Bancários.

O lucro líquido dos cinco maiores bancos do país cresceu 190% acima da inflação entre 2003 e 2021 e, no 1º trimestre de 2022, o lucro destes mesmos bancos cresceu 15,4%, mantendo uma alta rentabilidade, entre as maiores do país e a maior na comparação entre empresas do mesmo porte.

Só a luta nos garante!

As rodadas de negociação acontecem desde junho, mas até o momento a Fenaban não apresentou nenhuma proposta para as reivindicações da categoria bancária. Carlão faz um alerta sobre a necessidade de engajamento da categoria na Campanha para que haja avanço nas negociações.

“É fundamental que os bancários e as bancárias fiquem atentos às negociações, participem das plenárias, assembleias, de todas as ações da Campanha. Temos que nos preparar para um cenário de greve, já que os bancos não garantiram nada até agora e podem tentar nos impor um acordo rebaixado. Todas ações de mobilização são importantes. Ou nos organizamos ou seremos pegos de surpresa, sem condições de fazer a pressão necessária para garantir ganho real”, frisa Carlão.

Remuneração dos bancários

Desde 2017, as despesas dos bancos com pessoal caíram 15% em termos reais. A remuneração média da categoria caiu 2% em termos reais desde 2014 o que, somada à redução do emprego, levou a uma redução na massa salarial do setor de 20% desde 2014. Se considerado um período maior, desde 2004, quando a categoria passou a obter ganhos reais nos salários, a remuneração média dos bancários cresceu 12%. No mesmo período, o lucro dos bancos aumentou 222%.

“Se observarmos o histórico de aumentos reais garantidos pela CCT (Convenção Coletiva de Trabalho) da categoria veremos que a soma chega a 23% de aumento real entre 2004 e 2019, mas quando olhamos a base de dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), a remuneração média dos bancários subiu 12% em termos reais. Este descompasso mostra que os reajustes da categoria não foram de fato incorporados aos seus salários”, explicou o economista Gustavo Cavarzan, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Rentabilidade dos bancos

Dados da Economática mostram que os bancos foram o setor econômico com maior lucro líquido entre as empresas de capital aberto (com exceção de Vale e Petrobrás) em 2021, com quase o dobro do resultado do segundo setor econômico mais lucrativo, que foi o de energia elétrica. Se consideradas 1.038 empresas de diferentes tamanhos, de 29 setores econômicos, os bancos ficam com a sexta maior rentabilidade setorial (de 18%) em 2019 (sem efeitos da pandemia, portanto), quase empatados com o segundo colocado, que apresentou índice de 20%. No entanto, quando a análise leva em conta apenas empresas com tamanho similar ao dos bancos, a rentabilidade bancária passa para a primeira colocação.

“A rentabilidade média dos bancos, desde 2003, fica invariavelmente muito acima da inflação. Nos últimos 5 anos ficou, em média, 3,2 vezes acima do IPCA”, informou Cavarzan. “Em 2021, a rentabilidade dos maiores bancos no Brasil ficou quase cinco pontos percentuais acima da rentabilidade dos maiores bancos nos EUA”, completou.

Segundo Cavarzan, o resultado tem a ver com o fato de que o Brasil teve o terceiro maior spread bancário do mundo em 2021, 20 pontos percentuais acima da média de América Latina e Caribe. O spread bancário no Brasil só fica atrás do de Zimbabué e de Madagascar.

Os bancos brasileiros têm concentrado o crédito nas linhas mais caras, com juros mais elevados. Nos últimos 12 meses, o rotativo do cartão de crédito subiu 56%, o crédito pessoal não consignado, 43%, e o cheque especial, 26%. As taxas de juros anualizadas destas linhas são de 355%, 83% e 133%, respectivamente.

“O resultado é um aumento no endividamento das famílias, que chegou a 52,6% da renda acumulada em 12 meses, e o comprometimento mensal da renda com o serviço da dívida com o setor financeiro chegou a 28% da renda das famílias”, disse. Do total de famílias brasileiras, 77% estão endividadas, 29% com dívidas em atraso e 11% não terão como pagar as dívidas.

Negociações

Na reunião desta quarta-feira foram tratadas todas as cláusulas econômicas da minuta, exceto as sobre a Participação nos Lucros e Resultados (PLR) e sobre a remuneração variável, que estarão na pauta da próxima reunião, que será realizada na segunda-feira, 08. (veja a íntegra da minuta de reivindicações).

Principais reivindicações da Campanha:

  • Reposição salarial e nas demais verbas: inflação do período entre 31 de agosto de 2021 e 1º de setembro de 2022 (INPC) mais 5% de aumento real.
  • Aumento maior para o tíquete-refeição e o tíquete-alimentação.
  • Garantia dos empregos.
  • Manutenção da regra da PLR, atualizada pelo índice de reajuste.
  • Jornada contratual de quatro dias de trabalho, entre segunda e sexta-feira.
  • Fim das metas abusivas.
  • Combate ao assédio moral.
  • Proteção aos trabalhadores adoecidos.
  • Acompanhamento e tratamento de bancários com sequelas da Covid-19.

Fonte: Contraf com edição do Sindibancários/ES