Moradora do Morro do Timbau, uma das 17 favelas do Complexo da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro, Gizele Martins, 37 anos, é jornalista (PUC-Rio), mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (UERJ) e doutoranda em Comunicação (UFRJ). A ativista, que é comunicadora comunitária há 20 anos, também integra a Frente de Mobilização da Maré e a Agência Palafitas. “Diria também que sou uma grande sonhadora. Sonho pela libertação do meu povo, da Favela Maré à Palestina”.
No auge da pandemia, você criticou a situação de abandono da comunidade da Maré por parte do poder público. Em suas palavras: “O nosso povo está morrendo de fome, de covid-19, de desemprego, de sede. Enfim, a realidade na favela nunca foi fácil e, agora, em tempos de pandemia, tudo só tem piorado. Sinceramente, se isso não é genocídio, eu não sei o que é!”. Você pode comentar o contexto desse desabafo?
A história do nosso país é marcada pelo massacre imposto aos indígenas e à população escravizada pelos colonizadores. Hoje seguimos vivendo uma colonização com outros formatos. A população negra, que é maioria, continua submetida a trabalhos precarizados, vivendo em moradias precarizadas. A reparação à população negra e pobre, rural e indígena deste país não foi feita. Até hoje não temos os registros das nossas casas. A gente ocupa as favelas porque é o lugar onde pudemos construir nossa vida, nossa casa, nossa convivência social, nossa cultura. Mas sempre estivemos segregados nesse lugar de precarização, de falta de direitos. O Estado sempre olha a favela como um local a ser controlado. Controlado ideologicamente a partir da comunicação comercial, que dissemina notícias falsas e de interesse da direita. Dentro da favela temos também a militarização, com o controle armado. O Estado só se lembra da favela na hora de militarizar, de comprar equipamentos bélicos para nos matar. O Estado gasta com militarização e controle, mas não investe em direitos básicos como saneamento, saúde e educação. Em 2020, no auge da pandemia, a falta de água na favela estava matando tanto quanto os tiros da polícia. Na pandemia precisávamos ter uma casa arejada… Olhávamos para nossas casas [precarizadas] e falávamos: meu Deus, seremos dizimados desse jeito! A questão sanitária nas favelas sempre foi um grande problema. Não por acaso, temos casos crônicos de tuberculose e outras doenças.
Pensávamos: temos que fazer um outro tipo de comunicação, que inclua nossa realidade, porque a mídia comercial não vai fazer isso. Sabíamos que éramos nós que preferencialmente morreríamos de tiro, de covid e de falta d’água. Tínhamos que nos organizar.
A disputa pela comunicação é contínua e acirrada. Para vocês que atuam na comunicação comunitária, como foi essa disputa durante a pandemia e agora no processo eleitoral?
Na pandemia, juntamos os comunicadores da favela para falar de covid de acordo com a nossa realidade. Fizemos a comunicação usando redes sociais, sites, carros e bicicletas de som que rodavam pela comunidade, faixas e outdoor para atingir o máximo de moradores. Muitas pessoas não têm acesso à internet. Recorrer às antigas mídias foi essencial. Fizemos painel covid nos muros da favela informando o número de infectados e mortos para os moradores terem uma ideia da situação. Queríamos alertar que a pandemia era real e estava nos afetando. A cada fake news tínhamos que renovar nosso plano de comunicação para alertar que o presidente estava mentindo. Além de vivermos uma das mais graves crises sanitárias da nossa história, ainda estávamos sob um governo que odeia pobre. Foi nossa pior sorte ter Bolsonaro como presidente nesse momento. Essas 700 mil pessoas mortas, diria, assassinadas, porque isso é genocídio, são da responsabilidade de Bolsonaro.
Podemos dizer que vocês derrotaram a desinformação na Maré?
Precisávamos garantir faixas e o carro de som todos os dias. Ocupar o espaço das redes sociais para que nossa pauta fosse ouvida pelos moradores. Foi um trabalho muito difícil. Não diria que vencemos a fake news, porque eles têm toda uma estrutura contra um grupo de 100 moradores fazendo comunicação comunitária. Conseguimos chegar no nosso público, mas eles faziam isso numa velocidade muito maior. Mas fizemos a população entender que a covid estava ali para nos matar e precisávamos lutar de forma coletiva. Isso nós conseguimos.
Sem esse trabalho da comunicação comunitária, a tragédia na Maré teria sido maior?
Não tenho dúvida. Não fossem os comunicadores comunitários atuando nas favelas e periferias, no campo, nas aldeias, nos quilombos, não só no Rio, mas Brasil afora, a situação seria muito pior.
A ação na Maré foi muito além da comunicação…
Os moradores paravam a gente na rua e perguntavam: “vocês estão pedindo para gente usar máscara; mas como vou comprar; como vou comer se tiver que ficar em casa; como vou lavar as mãos se não tem água”. Então nos mobilizamos para conseguir cestas básicas, álcool, máscaras, oxímetros, nebulizadores, remédios. Pagamos transporte para levar moradores para o hospital. Até enterros de vítimas da covid nós pagamos.
Para além do genocídio da pandemia, sob Bolsonaro a polícia passou a matar mais, sobretudo a juventude negra. Um dado do final de novembro aponta que no intervalo de uma semana 40 pessoas foram baleadas e 20 morreram no Rio de Janeiro. Só no Complexo da Maré foram oito mortos. Gostaria que você comentasse essa política de extermínio do governo Bolsonaro replicada por Cláudio Castro no Rio.
As favelas sempre sofreram esses ataques por parte do Estado. Os últimos governadores do Rio venceram as eleições prometendo trazer controle e militarização para as favelas. O governador reeleito Cláudio Castro fez uma chacina na Maré no primeiro turno. Ele é conhecido como o governador das chacinas. Infelizmente, neste 2022 a gente volta às grandes chacinas nas periferias que vivenciamos nos anos 1990. É um governo que diz que tem de matar preto e pobre. Ele verbaliza isso. Eu coloco um desafio para a comunicação comunitária: como conseguiremos trabalhar politicamente essa comunicação mobilizadora para que não tenhamos um governador como este novamente daqui a quatro anos. Claudio Castro gasta os recursos para compra de equipamentos bélicos, como caveirões aéreos [helicópteros] e terrestres, munições. É um governador que não tem vergonha de matar. As chacinas nas favelas do Rio assassinam em uma mesma semana oito, 15, 30, 40 pessoas . As ações policiais acontecem praticamente todos os dias. É um pedido de socorro. Como a gente lida com isso morando num local que sofre uma violência racista do Estado diariamente. Isso é racismo estrutural. A gente está sem água na favela há nove dias. Nesse período ocorreram duas operações policiais. A prioridade do Estado é nos matar.
(Veja como foi a votação na Maré)
Wilson Witzel foi eleito governador do Rio prometendo “atirar na cabecinha”. Cláudio Castro vai se consolidando como o governador das chacinas. De outro lado, Marcelo Freixo, que ganhou notoriedade no combate às milícias, saiu derrotado da disputa ao governo. Qual a análise que você faz dessa contradição? Por que os moradores das favelas, vítimas preferenciais dessa política de extermínio, elegem seus opressores?
Temos um problema estrutural na nossa esquerda, eu me refiro à esquerda carioca, que é distante da favela. A esquerda faz seus atos e suas mobilizações no asfalto. É uma esquerda que abandonou as favelas por vários problemas. Não sei explicar quais. A esquerda sempre diz que precisa voltar às massas, fazer novamente o trabalho de base, mas esse trabalho não está sendo feito. Por que a esquerda deixou de disputar este lugar? Precisamos nos perguntar. Hoje quem está fazendo esse trabalho nas favelas são comunicadores comunitários, mas sem estrutura, sem dinheiro. A favela está em disputa todos os dias. Infelizmente, quem está hoje trabalhando forte nas favelas são as igrejas. Não vou generalizar, porque esse não é meu objetivo, mas as igrejas também foram dominadas por uma extrema-direita que é racista, LGBTfóbica, que não gosta da esquerda. A direita, infelizmente, fez seu foco na favela e na periferia e está sabendo se utilizar disso. Nós precisamos mudar esse quadro. Temos um desafio enorme para os próximos quatro anos que é aumentar nosso trabalho nas favelas. Vamos precisar de todo mundo para vencer esse desafio. Dos sindicatos, dos movimentos populares, das universidades. Precisamos de recursos para garantirmos comunicadores dentro das favelas fazendo a formação de comunicação política. Esse é um desafio meu, seu, nosso, de fazer essas formações dentro das favelas para que daqui a quatro anos não tenhamos moradores de favelas votando em quem quer nos matar. Precisamos estar ali na comunidade todos os dias, distribuindo jornal, conversando, fazendo formação, atingindo um público cada vez maior, porque essa também é uma questão ideológica. Uma questão de salvar a própria pele.
Recentemente, um adolescente fez ataques a duas escolas no município de Aracruz que deixou quatro mortos e 14 feridos. As primeiras informações apontam que o adolescente tinha inspiração nazista. Como você analisa a escalada de movimentos de extrema-direita, como o nazismo e fascismo, no governo Bolsonaro? Há células fascistas sendo incubadas nas favelas?
O bolsonarismo trouxe à tona essa gente que estava escondida. Bolsonaro convocou essas pessoas de volta às ruas para atacar quem é negro, indígena, LGBTQIA+, favelado, militante do MST. Passamos esses últimos quatro anos sofrendo ataques. Faz 10 anos que ouvimos falar de um adolescente que pegou em armas e metralhou uma escola em Realengo. Um episódio isolado. Isso não era comum no Brasil. Agora vemos pessoas sendo assassinadas por estarem de roupa vermelha ou por serem de esquerda. Isso é gravíssimo. Esse bolsonarismo de extrema-direita vai continuar. Esses bolsonaristas estão corajosos nas ruas. Precisamos nos mobilizar para tirar essa coragem deles. Precisamos ocupar as ruas de forma estratégica, organizada e coletiva.
Há movimentos fascistas nas favelas?
Temos nas favelas inúmeras forças atuando e, não por acaso, Bolsonaro e Cláudio Castro ganharam as eleições nas favelas e nas periferias. Temos o chamado Complexo de Israel [o Complexo de Israel, conjunto de favelas que abriga mais de 130 mil pessoas na zona norte da capital fluminense, é comandado por Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão. O grupo do Peixão também se autodenomina Exército do Deus Vivo, tropa do Arão ou Bonde da Cabala (em referência a uma antiga tradição mística judaica). Parte da imprensa chama o movimento de base religiosa de “narcopentecostalismo”]. Têm pessoas que saem às ruas com a bandeira de Israel. É uma mistura de religião, de fascimos, de neonazismo. E, de novo, o bolsonarismo atinge as pessoas mais empobrecidas, que empunham uma bandeira de Israel. Mas esse é um fenômeno que vai além da questão de classe. Há inúmeras pessoas de classe média ou mesmo ricas que ostentam a mesma bandeira de Israel. Temos o fascismo instalado independentemente da classe social.
Dados do 2º trimestre de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, revelam que a população negra corresponde a 55,8% dos brasileiros. O recorte do mercado de trabalho aponta, entre outras desigualdades em relação ao trabalhador negro, que os cargos de direção e gerência estão majoritariamente concentrados entre homens e mulheres brancos. Se analisamos o setor financeiro, o fosso entre negros e brancos fica ainda mais profundo. Em média, os negros representam, em média, ¼ dos bancários, e ocupam, em sua maioria, cargos operacionais. O que fazer para reduzir a desigualdade no mercado de trabalho, sobretudo com relação à mulher negra, que é o segmento mais descriminalizado?
Acredito que essa desigualdade possa ser reduzida por meio de políticas públicas nas esferas municipais, estaduais e federal; criando leis que trabalhem a questão da inclusão. Não somos maioria nos cargos de direção, com relação a salários. São problemas gerais do nosso país. Precisamos levar essas discussões a todos os locais de trabalho. Temos a lei de cotas, mas há universidades que ainda não aderiram à lei de cotas por julgarem que nós não temos capacidade de estar nesses lugares. Isso é puro racismo. Precisamos fazer valer as leis que já existem, a lei de cotas, a inclusão de negros e negras, a equiparação dos salários. As mulheres negras estão lá embaixo na questão dos salários e cargos. Trabalhei no Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Instituto Federal do Rio de Janeiro e fiquei muito feliz ao saber que a vaga era para uma jornalista negra. Fiquei lá por quatro anos. Foi um Sindicato que me abraçou, que trabalha a questão de gênero e de raça. Havia muito cuidado com as questões trabalhistas e de tratamento. É um sindicato que eu considero um grande exemplo nessa questão da inclusão. Saí de lá porque iniciei o doutorado.
Se você fizesse parte da equipe de transição de Lula, no GT de Combate ao Racismo, quais reivindicações você apresentaria ao presidente eleito?
Primeiro diria que nosso país precisa ser pautado em tudo a partir da questão racial. E aí em incluo os índigenas e os negros e negras como pauta prioritárias. A destinação de investimentos em áreas que nos afetam diretamente. O aumento dos investimentos em saúde, educação, habitação, combate à fome. Quem hoje está sendo mais atingido pela fome? É justamente essa população que é maioria, que é precarizada. Incluiria também a questão do emprego, das cotas. As cotas são um grande avanço, mas precisamos ir além e estender as cotas para cargos nas universidades, por exemplo, me refiro à docência. A gente ainda é aluno. Precisamos ultrapassar isso. Queria que Lula fizesse um governo que avançasse nessas questões. Outro tema que incluiria, que venho trabalhando intensamente nesses 20 anos, é a militarização da vida e a censura da comunicação comunitária…
Aliás, esse é o tema do seu livro “Militarização e censura: a luta por liberdade de expressão na favela da Maré”, publicação editada pelo Núcleo Piratininga de Comunicação – NPC (veja como adquirir o livro abaixo).
Exatamente. Os governos do Lula, assim como os da Dilma, apostaram na questão do controle de indígenas, quilombos, no campo e na favela. Apostaram mais na questão armamentista, controlando a nossa população. Diria a ele [Lula], vamos investir em habitação, em educação, garantir outros direitos, como o direito à vida, que é o que a gente mais precisa, em vez de gastar no controle bélico. Eu iria contemplar toda essa esfera de direitos que a nossa população ainda não tem.

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