Nesta segunda-feira, 16, Tarciana Medeiros assume a presidência do Banco do Brasil. Em mais de dois séculos de história, é a primeira vez que uma mulher assume o comando da instituição. O presidente Lula confirmou presença na cerimônia de posse por meio do Twitter: “Hoje participo da posse da Tarciana Medeiros como presidenta do Banco do Brasil, a primeira mulher a ocupar o cargo em 214 anos. Desejo um bom trabalho na direção desse banco tão importante para nossa economia”. A cerimônia de posse, que acontece na CCBB Brasília, poderá ser acompanhada pelo canal do BB, no YouTube.

A diretora do Sindicato dos Bancários/ES Goretti Barone destaca o peso histórico da nomeação de uma mulher para a presidência do banco. “É sem dúvida uma conquista importantíssima para todas nós mulheres que ajudamos a escrever a história deste banco. Ao longo dessa história secular, os homens sempre tiveram preferência para ocupar os cargos de controle de direção. Esse paradigma vem sendo quebrado lentamente da metade do século XX para cá”. Para a dirigente, a ascensão de Tarciana reforça a necessidade de o banco avançar definitivamente na equidade de gênero e consolidar uma política efetiva de participação das mulheres nos cargos de comando da empresa.

 Para além da equidade de gênero, Goretti diz que há uma grande expectativa de que a nova presidenta seja uma aliada dos funcionários e do movimento sindical no resgate do papel público do BB e volte a valorizar os trabalhadores e as trabalhadoras, que enfrentaram um período de forte opressão sob o governo Bolsonaro.

Mulheres lutaram para conquistar espaço no BB

Emma Berg Medeiros ingressou no BB em 1924 (Arquivo AGN-BB)

A nomeação de Tarciana Medeiros ganha ainda mais impacto quando se olha para a história pregressa do banco. Os arquivos da Agência de Notícias do Banco do Brasil (AGN-BB) registram que só após 116 anos de sua fundação, que as primeiras mulheres passaram a trabalhar no BB. Em 28 de maio de 1924, Emma Berg Medeiros assumiu o cargo de escriturária. Aos 20 anos, ela ingressou na agência Pelotas (RS), onde trabalhou durante 30 anos. De escriturária, passou a gerente da carteira de cobrança e encerrou a carreira como chefe do setor de ordens de pagamento. Emma faleceu em 2006, aos 102 anos. 

Dez anos depois de Emma abrir o caminho para as mulheres, o banco voltaria a retroceder na questão da equidade de gênero. Em 1934, uma norma regulamentar proibiu o ingresso de mulheres no quadro administrativo do BB – elas só poderiam ser admitidas em funções suplementares, como telefonistas e recepcionistas. À ocasião, a direção da instituição alegou que as funcionárias mulheres “constituíam fator de perturbação das excelentes relações de emprego existentes” e usufruíam “de privilégios, favores e regalias, deferidos administrativamente, que só se justificavam pelo fato de o beneficiário ser elemento feminino”.

A decisão absurda e misógina só foi revertida em 1968 com a Lei Federal nº 5.473, que tornou nula qualquer vedação à participação de mulheres em provimento de cargos sujeitos à seleção em empresas privadas e no funcionalismo público em suas esferas e na administração direta e indireta. Com a lei, as mulheres voltaram a ser aceitas nos concursos públicos do Banco do Brasil.

A próxima seleção externa aberta para mulheres foi realizada em 1969, 45 anos depois da posse de dona Emma. Mas a pauta da equidade de gênero continuou andando a passos lentos. Somente no final do século XX uma mulher ascendeu ao cargo de gerente executiva e apenas em 2003 Rosa Said foi nomeada a primeira diretora de Gestão de Pessoas.

Depois disso, Ângela Assis foi nomeada em 2020 para a presidência da Brasilprev – a primeira empresa coligada do BB a ser liderada por uma mulher. No ano seguinte, Iêda Cagni tornou-se a primeira mulher a presidir o Conselho de Administração do BB. Em 2021, Paula Teixeira assumiria a inédita posição de vice-presidenta do BB.

Quem é Tarciana Medeiros
Tarciana Medeiros é funcionária de carreira do BB e ingressou no banco por concurso há 22 anos. Natural de Campina Grande, Paraíba, a administradora Tarciana Medeiros tem 44 anos. A nova presidenta do BB começou trabalhar muito cedo. Aos dez anos idade era feirante em sua cidade natal. Foi professora e deixou o magistério para iniciar sua carreira no Banco do Brasil há 22 anos, passando por diversos cargos. Antes de ser indicada para a presidência do BB, ocupava a Diretoria de Clientes PF e MPE, na Gerência Executiva de Ciclos de Relacionamento com Clientes.