Se o trabalhador sentiu no bolso a queda do poder de compra em 2022, podemos dizer que os bancos passaram ao largo dos solavancos da economia em 2022. A soma do lucro dos cinco maiores bancos superou em 2,5% o resultado de 2021: R$ 106,7 bilhões contra R$ 103,3 bilhões. Banco do Brasil e Itaú puxaram a soma para cima, enquanto Bradesco, Santander e Caixa registraram queda em relação a 2021. Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) que avaliou o desempenho dos bancos em 2022, aponta que os cinco gigantes já aumentaram as provisões para pagadores duvidosos (PDD), especialmente no último trimestre do ano passado e no primeiro deste ano.
Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional dos Bancários, o calendário eleitoral historicamente gera um ambiente de incerteza no mercado. “Essa eleição teve um ingrediente ainda mais especial: a polarização mais que acirrada entre Lula e Bolsonaro. A notícia inquietante para o mercado era a liderança isolada de Lula nas pesquisas, que sinalizavam para uma iminente derrota de Bolsonaro”. Podemos incluir nessa conjuntura, continua Carlão, a taxa Selic nas alturas, em 13,75% durante todo o segundo semestre de 2022; o endividamento crescente das famílias e a elevação da inadimplência de pessoas físicas e de micros e pequenos empresários. Essas variáveis levaram os bancos a elevar o provisionamento para o risco de crédito.
Essas incertezas se confirmaram no início de 2023, período em que os bancos estavam fechando os resultados do último trimestre de 2022. “Curioso é que a bomba premeditada pelos analistas financeiros não veio dos pequenos devedores, mas do próprio mercado, com a quebradeira das Americanas”, aponta o dirigente.
R$ 40 bilhões
O grupo Americanas divulgou ao mercado um “fato relevante” para informar a detecção de inconsistências contábeis em suas demonstrações financeiras de exercícios anteriores. Essas inconsistências, estimadas inicialmente em cerca de R$ 20 bilhões, levaram a empresa a entrar, posteriormente, com pedido de recuperação judicial, por dívidas em montante de mais de R$ 40 bilhões. O fato impactou ainda mais significativamente os resultados dos cinco maiores bancos do país, que reforçaram os provisionamentos extraordinários para fazer frente ao provável prejuízo. Dos cinco, Bradesco e Santander são os maiores credores das Americanas, com R$ 8,4 bilhões.
Lucro cai para cima
“É preciso analisar esses dados de resultados sempre com muita cautela. Vamos pegar os dados do Bradesco, que registrou queda de 5,5% no resultado de 2022 em comparação a 2021. O Bradesco lucrou no ano passado R$ 20,7 bilhões. Nem de longe esse resultado pode ser considerado ruim se analisarmos a série histórica. Foi na verdade um baita ´resultado”, sublinha Carlão. De 2017 a 2022 o lucro do Bradesco sempre esteve acima de R$ 19 bilhões. Apenas em 2019, o lucro do Bradesco foi de R$ 25,9 bilhões. “O ano de 2019 foi um ano de recorde de lucro para todos os bancos. Na soma, o lucro passou de R$ 108 bilhões. Mas foi um ano fora da curva. Se considerarmos a média dos últimos 10 anos veremos que o resultado de 2022 do Bradesco ficou dentro da média”, pondera o dirigente.
Outros dados confirmam robustez dos bancos
A série histórica dos resultados dos bancos aponta que as oscilações do lucro, para cima ou para baixo, são transitórias. Outros dados confirmam a robustez dos bancos. Em dezembro de 2022, segundo o Dieese, o total de ativos das cinco maiores instituições bancárias do país atingiu R$ 8,9 trilhões, alta média de 9,2% em relação a dezembro de 2021. Grande parcela dos ativos desses bancos corresponde às suas operações/carteiras de crédito, cujos montantes, somados, totalizaram R$ 4,6 trilhões ao final de 2022, com crescimento de 12,2% no período. O patrimônio líquido (PL), que representa o capital próprio dos cinco bancos, atingiu R$ 694,3 bilhões, alta de 8,5% em doze meses (tabela abaixo).

O Itaú segue sendo o maior banco do país em ativos, os quais atingiram um montante aproximado de R$ 2,5 trilhões ao final de 2022, com alta de 14% em 12 meses (a maior alta observada no período entre os cinco bancos). A instituição com o segundo maior ativo é o Banco do Brasil, totalizando pouco mais de R$ 2 trilhões, com alta de 5%, seguido do Bradesco, que obteve crescimento de 7,6% em seus ativos, chegando a, aproximadamente, R$ 1,8 trilhão ao final do ano. Os ativos da Caixa Econômica superaram R$ 1,5 trilhão, com alta de 9,4% no período. O banco Santander, por sua vez, apresentou alta de 8,8% em seus ativos, totalizando pouco mais de R$ 1 trilhão.
Juros altos, endividamento e inadimplência
O estudo do Dieese destaca que os recursos das carteiras de crédito dos cinco maiores bancos se direcionam, em geral, para as linhas de menor risco, como o crédito imobiliário e o crédito consignado, que são modalidades com taxas de inadimplência mais baixas, uma vez que os bancos brasileiros são, notadamente, instituições conservadoras e que demonstram grande aversão ao risco.

Nos últimos meses, porém, o Banco Central tem mantido a taxa básica de juros (Taxa Selic) em um patamar elevadíssimo (13,75% a.a., desde agosto de 2021), fazendo com que todas as demais taxas aplicadas pelos bancos sejam ainda maiores. Segundo Carlão, a Selic nas alturas é um entrave para a retomada do crescimento da economia. “Essa taxa imoral do Banco Central estrangula o crescimento econômico, impede que a produção volte a crescer. Isso significa menos empregos, aumento da miséria e da fome. “A quem interessa manter a taxa básica de juros nas alturas? Ao trabalhador que não é. Selic a 13,75 só favorece o setor financeiros, os especuladores e rentistas”, adverte Carlão.
Ele aponta como exemplos das altas taxas de juros os comparativos entre 2020 e 2023. Segundo Carlão, os dados levantados pelo Dieese (tabela abaixo) apontam que é o trabalhador a principal vítima dos juros altos. “Um empréstimo consignado que em 2020 tinha taxa de 21,4% cobra agora 26,7%. Sabemos que essa modalidade de empréstimo tem um risco baixíssimo de inadimplência, mas mesmo assim os bancos não se intimidam em cobrar taxas abusivas. E a taxa rotativa dos cartões de crédito já rompeu os 400%. O crescimento do endividamento é inevitável com essas taxas. Mas os bancos não se importam se o BC anunciar Selic em junho Selic a 14%. Vão continuar com essa esbórnia financeira como sempre fizeram, com ou sem crise econômica, com juros altos ou mais baixos”, afirma Carlão.
Corda no pescoço
Um resultado direto da manutenção das taxas de juros em patamar tão elevado, aponta o Dieese, é o endividamento das famílias brasileiras. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), ao final de 2022, 77,9% das famílias declararam estar endividadas, um endividamento recorde, com alta de sete pontos percentuais em relação a 2021, quando 70,9% das famílias declararam ter dívidas.
A inadimplência também bateu recorde, em 2022, de acordo com a pesquisa. Entre as famílias, 28,9% tinham dívidas em atraso e 10,7% do total disseram não ter condições de pagar suas pendências financeiras (entre essas, 32,3% de famílias com menor renda – de até 10 salários mínimos). Ademais, dados do Banco Central apontam que, ao final de 2022, a inadimplência no rotativo do cartão de crédito chegou a 41%.
Nos cinco bancos, as taxas de inadimplência para atrasos superiores a 90 dias também subiram. No Bradesco, a elevação foi de 1,5 ponto percentual (p.p.), fechando o ano em 4,3% (a maior taxa entre os cinco bancos). Na Caixa, que apresenta a menor taxa de inadimplência, verificou-se a menor elevação (+0,1 p.p.), com a taxa ficando em 2,1%, em 2022. Banco do Brasil, com a segunda menor taxa (2,5%), teve alta de 0,7 p.p. nos inadimplentes. No Itaú, a taxa de inadimplência ficou em 3,4%, com alta de 0,6 p.p. No Santander, a taxa ficou em 3,1%, com crescimento de 0,4 p.p.. A tabela abaixo aponta que a inadimplência média do Sistema Financeiro Nacional para atrasos superiores a 90 dias ficou em 3%, em 2022.
Aumento das provisões têm impacto na PLR
É automático, à medida que o endividamento sobe os bancos aumentam as provisões de devedores duvidosos (PDD). Esse aumento tem se confirmado de 2022 para cá e terá impacto no valor da PLR paga aos bancários em 2023, uma vez que as provisões são abatidas do lucro dos bancos.
Os maiores bancos do país estão entre os principais credores das Americanas e, portanto, correm risco de terem perdas consideráveis, nos seguintes montantes: Bradesco: R$ 4,5 bilhões; Santander (Brasil): R$ 3,6 bilhões; Itaú: R$ 2,7 bilhões; Banco do Brasil: R$ 1,3 bilhão; Caixa Econômica Federal: R$ 501 milhões. Diante desse cenário, adverte o Dieese, as despesas com provisões cresceram, em média, 62,0% em 2022 (tabela abaixo), totalizando R$ 126,7 bilhões. O maior crescimento foi observado no Bradesco, onde as PDD mais do que dobraram (alta de 104,1%), chegando a quase R$ 31,5 bilhões. No Itaú, a alta foi de 69%, totalizando R$ 31,2 bilhões. No Santander, a alta chegou a 61,5%, atingindo R$ 24,8 bilhões. Na Caixa e Banco do Brasil, as PDD cresceram, respectivamente, 41,5% e 31,7%, totalizando R$ 15,6 bilhões (Caixa) e R$ 23,5 bilhões (BB).
O dirigente do Sindibancários alerta que, além dos impactos na PLR, o aumento das provisões é uma das medidas mas não única quando os bancos percebem qualquer oscilação no lucro. “Os bancos sempre querem lucrar acima das projeções. Quando uma variável, como a quebra das Americanas, tem impacto no lucro, os bancos passam a recorrer a outros mecanismos para manter suas margens nas alturas. Esse torniquete, como sempre, é apertado para o lado do trabalhador, que vai pagar essa conta. A primeira medida dos bancos é aumentar ainda mais as metas. O resultado é o aumento do adoecimento físico e mental dos trabalhadores e das trabalhadoras. Outro expediente para compensar as perdas são os cortes nas despesas administrativas, leia-se demissão de funcionários e o fechamento de agências bancárias. Hoje mesmo o Sindicato participou do Dia Nacional de Luta contra as demissões e o fechamento de agências do Bradesco. Não por acaso, com a queda do lucro no primeiro trimestre deste ano, em função do calote das Americanas, o Bradesco já começou a abater suas perdas na conta do trabalhador”, critica o dirigente.

