As trabalhadoras e os trabalhadores do ramo financeiro estão adoecidos. É o que aponta a pesquisa “Avaliação dos Modelos de Gestão e das Patologias do Trabalho Bancário”. Os dados foram apresentados nesta quinta-feira (11) aos bancos pelo Coletivo Nacional de Saúde da Contraf, que fez o estudo em colaboração com pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UNB). A pesquisa foi uma demanda da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban).

A pesquisa traz resultados alarmantes: 80% das trabalhadoras e dos trabalhadores do ramo financeiro declararam ter tido pelo menos um problema de saúde relacionado ao trabalho no último ano, e quase a metade está em acompanhamento psiquiátrico. Desse grupo, 91,5% estão utilizando medicações prescritas pelo psiquiatra, um percentual que cai para 64,4% entre os que estão sob acompanhamento médico de outras doenças. A pesquisa foi respondida virtualmente por 5.803 bancários e bancárias entre setembro e outubro de 2023. 

Pesquisa no Espírito Santo
O Sindicato dos Bancários/ES está realizando uma pesquisa sobre saúde com a base bancária do Espírito Santo em parceria com o Laboratório de Pesquisas e Práticas em Psicologia do Trabalho e Organizacional, Saúde e Subjetividade (LAPPTOS) do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Ufes, sob a coordenação do professor Thiago Drumond Moraes. 

Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindicato e integrante do Comando Nacional dos Bancários, afirmou que a saúde tem sido uma das maiores preocupações da categoria bancária. O tema será um dos destaques da Conferência Estadual (03, 04 e 05 de maio, em Guarapari) e também já é uma pauta com espaço cativo na Campanha Nacional deste ano. “A cada ano os bancos batem novos recordes de lucro e estabelecem metas humanamente inatingíveis. Essa pressão diária por resultado tem sido a principal causa do adoecimento, que vem escalando na categoria como nunca se viu. Decidimos procurar a Ufes e propor a pesquisa para termos informações detalhadas sobre a saúde das bancárias e dos bancários capixabas”, explicou Carlão. 

A pesquisa pode ser respondida até 31 de maio pelos bancários e bancárias do Espírito Santo. “A participação é fundamental para que possamos ter uma amostra bastante completa e sólida, que permita aos pesquisadores identificar as condições de saúde mental da bancária e do bancário”, afirmou o dirigente. Para responder a pesquisa do Sindicato dos Bancários/Ufes, clique aqui. 

Trabalho bancário adoece
Segundo a pesquisa nacional, o atual modelo não apenas dita as condições laborais, mas também é identificado como uma fonte substancial de psicopatologias, que potencialmente distorcem a subjetividade e os laços sociais dos trabalhadores, o que resulta em sintomas de adoecimento e agravos à saúde mental.

A coordenadora da pesquisa nacional, doutora Ana Magnólia Mendes, da UNB, explicou que as análises indicam a presença intensa de discursos e práticas de controle, caracterizadas pelo foco nas metas, o controle exacerbado, a despersonalização dos trabalhadores, a presença de uma hierarquia rígida e o uso de ameaças como ferramentas de gestão intensifica, por sua vez, a competitividade e o produtivismo nas relações de trabalho e a presença de vivências de violência no trabalho e de sobrecarga. “Também a presença intensa de relações competitivas, marcadas pela exclusão dos funcionários na tomada de decisão da organização, pelo cerceamento da autonomia no trabalho, pela distribuição injusta, pela indefinição de tarefas e pela presença de disputas profissionais no local de trabalho estimuladas pela chefia, intensificam a violência no trabalho”, completou Ana Magnólia.

De acordo com a pesquisadora, a presença intensa de relações produtivistas, por sua vez, intensifica a sobrecarga no trabalho. “Essas relações produtivistas, conforme descrito pela amostra, são caracterizadas pelo foco em metas, pela cobrança por resultados, pela pressão intensificada pela vigilância de resultados e também pela insuficiência de pessoas para realizar as tarefas que contribui para um ritmo de trabalho excessivo”, afirmou.

Ainda, segundo Ana Magnólia, essas relações produzem as patologias da violência e da sobrecarga, caracterizadas pela presença intensa de vivências de cansaço, desgaste, sobrecarga, frustração, desmotivação, falta de liberdade de expressão e de opções no trabalho, indiferença entre colegas e desconfiança entre chefia e subordinados, as quais aumentam a presença de sintomas de adoecimento marcados por características de transtornos ansiosos.

Coletivo Nacional de Saúde
Os dados da pesquisa foram apresentados nesta quinta-feira (11) à Fenaban. Os representantes dos trabalhadores aproveitaram o encontro para cobrar algumas respostas das reivindicações apresentadas aos bancos no último encontro, como a modernização da cláusula 61 da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), que trata da prevenção de conflitos, e o fluxo de acolhimento aos trabalhadores adoecidos.

Os bancos, no entanto, pediram mais tempo para apresentar uma resposta aos bancários. O adiamento da resposta frustrou as expectativas do Coletivo de Saúde. Os dados apresentados nesta quinta, segundo o Coletivo, reforçam a importância das reivindicações apresentadas aos bancos em relação às metas abusivas, ao assédio moral e a à necessidade de um acolhimento humanizado aos trabalhadores adoecidos.

A nova reunião do Coletivo de Saúde com os bancos deve acontecer ainda em abril.

(Com informações da Contraf)