Trabalhadores e trabalhadoras reafirmam lutas e conquistas no 1º de Maio em Vitória

01/05/2025 18:39

A pauta dos trabalhadores inclui o fim da escala 6×1 e a defesa da jornada 4X3; redução dos juros bancários; pela aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e taxação dos super ricos, além da posição contrária à proposta de anistia para os golpistas do 8 de Janeiro

Na manhã deste 1º de Maio, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade saíram às ruas do Centro de Vitória para lutar pelo fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho por apenas um de folga) e em defesa da jornada 4X3 – sem diminuição dos salários; redução dos juros bancários; pela aprovação no Congresso Nacional da isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e desconto para quem ganha até R$ 7 mil; taxação dos super ricos; além de se posicionarem contra a proposta de anistia para Bolsonaro e demais golpistas dos atos antidemocráticos de 8 janeiro de 2023, em Brasília. 

O ato unificado do Dia Internacional das Trabalhadoras e Trabalhadores no Espírito Santo foi organizado pela Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Força Sindical e o Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que iniciou a campanha pelo fim da escala 6X1 no Brasil.

Da Praça Costa Pereira, os manifestantes seguiram em caminhada até o Sambão do Povo. As frases de protesto “trabalhador, quero te ver contente, essa escala está acabando com a gente” e “a 6 por 1 ninguém aguenta mais, porque a vida pede tempo e direitos iguais” deram o tom da caminhada, que contou também com a presença da bateria do bloco Coisa de Negres e Coletivo Avante. 

Rita Lima

A coordenadora-geral do Sindibancários/ES, Rita Lima, afirmou direto do carro de som: “Celebramos hoje nossas lutas e conquistas históricas, de séculos, mas também reafirmamos nossas reivindicações como o fim da escala 6×1, esse regime de morte para os trabalhadores, aos quais é negado tempo para estudar, ter lazer e descanso”. Ela também destacou as lutas pela isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e por justiça tributária no país. “Justiça tributária se faz com a taxação das grandes fortunas”, disse. 

Intervenções

Num palco montado no Sambão do Povo aconteceram as intervenções político-culturais. O diretor de Imprensa e Comunicação do Sindibancários/ES, Carlos Pereira de Araújo (Carlão), falou em nome da Intersindical: “Hoje é um dia histórico, essa unidade dos trabalhadores do campo, urbanos, operários e do setor de serviços é fundamental para avançarmos nas conquistas trabalhistas”. 

Carlão

Carlão destacou que a reivindicação do fim da escala 6X1 é importante para toda a classe trabalhadora. “O objetivo dos patrões, sejam os banqueiros ou os empresários da construção civil, é a jornada 6X1. E nós temos que derrotar essa escala e conquistar a 4X3. Essa é uma pauta viável economicamente e necessária para preservar nossa saúde mental”. 

O dirigente sindical também falou do simbolismo do fato ocorrido durante a caminhada na Vila Rubim (leia abaixo) destacando “a aliança camponesa e operária” para fazer pressão sobre a empresa que colocou trabalhadores da construção civil para trabalhar neste 1º de Maio. “Foi fundamental [a pressão] para garantir a saída dos trabalhadores da obra”, afirmou. 

Convocando os presentes a ampliar a unidade e manter a mobilização de classe, Carlão reafirmou as lutas pela redução das taxas de juros, pela não cassação do deputado federal Glauber Braga (PSOL/RJ), “que é um representante do povo”, pela derrota da escala 6X1, da terceirização e da pejotização (contratação de trabalhadores como Pessoas Jurídicas a fim de burlar direitos trabalhistas). O dirigente finalizou: “Quando os trabalhadores perderem de fato a paciência, vamos mudar essa realidade para construir uma perspectiva civilizatória, com condições dignas para todos”. 

Vida Além do Trabalho

O membro da Coordenação Estadual do Movimento VAT Vinícius Machado ressaltou que “hoje não é um 1º de Maio comum”, pois, “depois de muito tempo, a classe trabalhadora tem uma pauta que não é para tentar evitar retrocessos, mas para avançar na conquista por direitos”. E completou: “essa pauta é a derrubada da escala criminosa que é a 6X1”. 

Vinícius Machado

Vinícius destacou o pronunciamento do presidente Lula em rede nacional na noite de ontem, 30, que admitiu aprofundar o debate sobre o fim da escala 6X1. “Essa posição é fundamental para que o Hugo Motta [presidente da Câmara Federal, do partido Republicanos/PB] tire da gaveta a PEC pelo fim da escala 6X1”. Ele convocou os trabalhadores e as trabalhadoras para continuar “com força e organização a fim de conseguir ‘emparedar’ o Congresso Nacional defensor dos empresários”.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de seis dias de trabalho por um de folga foi protocolada na Câmara dos Deputados no dia 25 de fevereiro, mas segue sem tramitação. Articulada pela deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP), a PEC foi apresentada com 234 assinaturas, 63 a mais que o necessário segundo o regimento da Câmara.

Movimento sindical, social e partidos

Além das centrais sindicais e do VAT, entidades organizadores do ato unificado, o evento contou com a participação de 39 sindicatos. Também estiveram presentes movimentos sociais como o Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), Movimento Atingidos por Barragens (MAB) e Movimento de Resistência e Luta pela Terra (MRLT).

Dentre os parlamentares capixabas, participaram a deputada federal Jack Rocha (PT); as deputadas estaduais Camila Valadão (PSOL) e Iriny Lopes (PT); o deputado estadual João Coser (PT); as vereadoras de Vitória Ana Paula Rocha (PSOL) e Karla Coser (PT) e o vereador Professor Jocelino (PT). 

Os partidos que aderiram ao ato foram: PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), PT (Partido dos Trabalhadores), UP (Unidade Popular), PCB (Partido Comunista Brasileiro), PC do B (Partido Comunista do Brasil), PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado). 

Antes do show da Banda Samba Jr, que encerrou o ato, foi feito um minuto de silêncio em homenagem ao sindicalista João Rafael Scárdua, que faleceu no dia 31 de janeiro último.

Flagrante de desrespeito trabalhista

No trajeto até o Sambão do Povo, os manifestantes do ato unificado do 1º de Maio se depararam com um exemplo de desrespeito patronal aos direitos dos trabalhadores: operários da construção civil estavam em plena atividade durante o feriado nacional na obra do complexo hospitalar da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, na Vila Rubim. A obra foi iniciada em 2020 e está sendo executada pela empresa HCX Construtora e Incorporadora. 

Após muita pressão de manifestantes que se posicionaram em frente e na entrada do prédio em construção, o responsável pela obra garantiu que os trabalhos seriam suspensos e os operários poderiam ir para casa. Ele não concedeu entrevista para nossa reportagem. 

A HCX não queria ceder, mas os trabalhadores pressionaram

“Essa obra seguiu devagar o tempo todo, e agora querem finalizar de qualquer jeito, inclusive colocando gente para trabalhar no 1º de Maio, sem que qualquer acordo de horas extras tenha sido feito com o Sindicato [dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil – Sintraconst]”, afirmou o diretor da Federação dos Trabalhadores do Ramo da Construção Civil no Espírito Santo, Paulo César Borba (Carioca). 

Já no carro de som, Carioca lembrou que os trabalhadores da construção civil “saem de casa antes do sol aparecer e retornam com o céu escuro”, e a grande maioria nem sequer tem tempo e dinheiro para “levar o filho para tomar um sorvete”. E afirmou: “Essa é a vida da classe trabalhadora. Não é justo que nós, que construímos a riqueza do mundo, sejamos tratados assim”.

Fotos: Sérgio Cardoso