As condições de trabalho, a saúde dos funcionários e o assédio moral foram alguns dos temas debatidos no segundo painel da Conferência Estadual dos Bancários, na tarde desta sexta-feira, 16. O debate foi aberto pelo professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, Giovanni Alves, que destacou a relação da precarização do trabalho e o aumento do índice de trabalhadores adoecidos.
“Temos hoje a precarização das condições de vida dos trabalhadores. A questão da mobilidade urbana, por exemplo, está ligada à precarização do trabalho. As condições de transporte até o local de trabalho faz parte da precarização existencial e está ligada à lógica da vida reduzida. Outro elemento que diz respeito a essa forma de precarização são os novos modos de envolver os trabalhadores, fazendo com que ele esteja cada vez mais ligado ao trabalho, mesmo após o fim do expediente. E isso é invisível, não se faz cálculos dessas horas”, destaca.
O pesquisador também falou sobre a lógica do capitalismo que quer tornar o adoecimento dos trabalhadores uma questão do indivíduo. ” Temos indicadores de como está a saúde dos trabalhadores e das famílias no Brasil. A saúde do trabalhador não é um problema do indivíduo, mas sim da organização do trabalho, é uma questão política. Por isso que é necessário que sejam feitas intervenções estratégicas”.
Assédio moral
O assédio moral que leva ao adoecimento e até o suicídio de trabalhadores foi o principal assunto discutido pelo doutor e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Heloani. Segundo ele, no Brasil tem se tornado cada vez mais comum a prática do assédio moral para eliminar do trabalho as pessoas que lutam pelos seus direitos.
“Quando o fenômeno se repete de forma sistemática não podemos dizer que essa pratica é uma questão individual ou pessoal. Essa estratégia é presente e constante porque é institucional, esta presente no espaço organizacional. Ela faz com que o trabalhador se sinta no direito de tratar o outro como lixo. Isso é patológico, achar que em nome das metas e da produtividade eu posso tratar as outras pessoas como coisas”, enfatiza Heloani.
Pesquisa feita pelo professor durante 16 anos revela o crescimento do número de suicídios entre os trabalhadores, principalmente de homens. “Em um ambiente que existe assédio, existe muita discriminação e muito humilhação. O assédio moral é uma prática fascista. O que essa forma de organizar o trabalho quer é tirar a historicidade e a memória da classe trabalhadora. É automatizar ao máximo, é despolitizar”, destaca.
Categoria bancária
O coordenador geral do Sindibancários/ES, Carlos Pereira de Araújo, Carlão, falou sobre o adoecimento de trabalhadores na categoria bancária. “Na última greve, quando reivindicamos o fim do assédio moral nas negociações, os banqueiros se posicionaram contra, dizendo que queríamos intervir na gestão do banco. Se é intervir ou não, isso não interessa. Nossa campanha é pela dignidade dos trabalhadores, e não apenas uma luta por questões econômicas. Queremos saúde e condições de trabalho dignas”,frisou.
Carlão falou ainda sobre o desafio de mudar esse cenário. “A tarefa de mudar essa situação é uma tarefa da classe trabalhadora, mas nós bancários devemos tomar a iniciativa de enfrentar essa questão. Temos que fazer esse debate e nos convencer de que é necessário intervir sim na gestão do banco. É preciso questionar essa questão na essência, pois nosso projeto é de vida e não de morte”.
Durante o painel, a diretora do Sindibancários/ES, Maristela Corrêa da Silva, apresentou a pesquisa sobre a saúde e condições de trabalho dos bancários capixabas, realizada pelo Sindicato. Os dados coletados revelam que a categoria sofre com a sobrecarga de trabalho, diante do número insuficiente de bancários nas agências. A pesquisa também revelou que em bancos públicos e privados, há a prática do assédio moral. A pesquisa foi realizada com 2.098 funcionários, de agências bancárias localizadas nos municípios da Grande Vitória e interior do Espírito Santo.









