Pedro Costa Jr é doutor em Ciência Política na USP, professor licenciado de Relações Internacionais e Economia da Faculdade de Campinas (FACAMP). Autor dos livros “O Poder Americano no Sistema Mundial Moderno: Colapso ou Mito do Colapso?” e “EUA X China: A Luta Pelo Poder Global”. Nesta entrevista, o professor fala sobre o fim da hegemonia norte-americana, ascensão da China e do sul global e possíveis ofensivas dos Estados Unidos ao Brasil.

Na sua visão, a chamada ordem internacional policêntrica que vem se consolidando, representa o fim definitivo da hegemonia unipolar do Estados Unidos ou ainda estamos em uma fase de crise terminal prolongada? Quais seriam os principais indicadores dessa transição em 2026?

Com relação à ordem internacional, ela acabou. A ordem internacional, que os Estados Unidos chamam de ordem internacional baseada em regras, foi construída 80 anos atrás, no fim da Segunda Guerra Mundial. Nós estamos falando das principais instituições multilaterais do mundo, onde os Estados Unidos estão em proeminência: ONU, OTAN, FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio. Quem ataca todas essas instituições multilaterais hoje? Os Estados Unidos. É o governo Trump que vai contra essa ordem.

Achei muito interessante a Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, dizendo que a Europa não pode ser desafiadora de uma ordem que não existe mais e que jamais voltará a existir. Há um declínio da hegemonia americana, é uma dominação sem hegemonia. O diagnóstico que me parece correto é o da crise terminal. É o momento onde o Gramsci diz que o velho já morreu, mas o novo ainda não nasceu. Quando olhamos para a história de longa duração, essas transições hegemônicas são momentos de guerras e crises profundas que se multiplicam. Esse primeiro quarto do século XXI é da queda dos Estados Unidos e da ascensão da China. Os próximos 25 anos serão como os Estados Unidos vão reagir tendo o maior poder militar do mundo, além do dólar como moeda hegemônica. Então eles têm muito poder. Como eles vão reagir a essa disputa pelo poder global com a China nos próximos 25 anos? No fundo, nós conseguiremos escapar da Armadilha de Tucídides, que no limite é um confronto entre os Estados Unidos e China? Esse é o tempo do mundo que nós vivemos.

Assista a entrevista na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=xhx1G5Oqjvg&t=176s

Como os países do sul, especialmente da América Latina ou da África, podem se beneficiar ou ainda se proteger dessa reconfiguração desse poder global evitando novas formas de dependência ou intervenções internas semelhantes às vistas historicamente na região?

O sul global nunca teve um centro de negociações, sempre esteve excluído desse sistema internacional fundado há uns 500 anos. Pela primeira vez, nós temos essa chance porque essa ordem ocidental está em declínio. Nós estamos vendo o norte global na defensiva pela primeira vez, encurralados pela exceção da China e também por uma ascensão do sul global. Os BRICS é o sul global dizendo, olha, essa ordem liberal baseada em regras, ela não nos cabe, ela não serve mais, ela não nos interessa. Então, veja, eles criam um banco, uma alternativa ao Banco Mundial, e criam um fundo, que é a alternativa ao Fundo Monetário Internacional.  A desdolarização também é uma discussão dos BRICS e isso seria arrasador dentro do ponto de vista da hegemonia do dólar. O Trump tem uma frase muito interessante, e eu sou obrigado a concordar com ele, que diz o seguinte: Se os Estados Unidos perderem o dólar como moeda padrão, é o equivalente a perdermos uma terceira guerra mundial sem ter lutado por ela. Nós estamos vendo a aceleração desses processos que colocam o sul global pela primeira vez pedindo a bola, exercendo um lugar central nessa nova ordem mundial.

Alguns analistas têm dito que os Estados Unidos partiram para o ataque definitivamente. Há condição para os Estados Unidos realmente fazerem uma ofensiva para cima do Brasil e tentar interferir diretamente aqui?

Os Estados Unidos tem se tornado mais ofensivos em tempos de declínio. O Wallerstein afirma que os Estados Unidos, nesse declínio, são semelhantes a um tigre encurralado, que ainda é muito forte, pois têm o poder militar e o poder financeiro do sistema internacional, mas que está com medo, então ele se torna altamente imprevisível. Ele pode atacar qualquer um, a qualquer momento. O que o Trump está dizendo nesse novo corolário para a América Latina é o seguinte: nós vamos recuperar os nossos espaços perdidos nos últimos anos. E para eles reconquistarem, para tomarem a América Latina de assalto novamente, é imprescindível passar pelo Brasil.

A China, depois do tarifaço que o Trump fez, restringiu a exportação dos minerais de suas terras raras para os Estados Unidos, que precisam desesperadamente de uma reserva e a segunda maior está no que eles consideram o seu quintal, que é o Brasil. É como eles fizeram com o petróleo venezuelano, tomaram pela força, sequestraram o Maduro e esse petróleo agora é totalmente direcionado para Washington, sangrando Cuba, que tinha ajuda venezuelana. E Cuba é o próximo alvo e depois Nicarágua. Esses com intervenções militares, diretas, assumidas. Sobre o Brasil e outros países, eles têm várias formas de aumentarem a pressão.